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30/10/2001 «Qualquer governo, se patrocina os que estão fora da lei e os
assassinos de inocentes – anunciou Bush no dia em que começou a bombardear o Afeganistão
– tornou‑se também fora da lei e assassino. E tomará este caminho
solitário sob o seu próprio risco.» Agrada‑me que tenha dito «qualquer
governo», porque há um que, apesar de ainda estar para ser identificado como
patrocinador do terrorismo, requer urgente atenção. Nos últimos cinquenta anos, tem gerido um campo de treinamento terrorista
cujas vítimas superam em muito o número de vítimas do ataque a Nova Iorque,
das bombas às embaixadas e de outras atrocidades atribuídas, com razão ou
não, à al‑Qaeda. O campo chama‑se Western Hemisphere Institute
for Secutity Cooperation, ou WHISC. Encontra‑se em Fort Benning,
Geórgia, e está financiado pelo Governo do Sr. Bush. Até janeiro deste ano chamava‑se “a Escola das Américas”, ou
SOA. Desde 1946, a SOA treinou mais de 60.000 soldados e polícias latino‑americanos.
Entre os seus graduados encontram‑se muitos dos torturadores,
assassinos em massa, ditadores e terroristas de estado mais famosos do
continente. Como demonstram centenas de páginas de documentação recolhidas
pelo grupo de pressão SOA Watch, a América Latina foi dilacerada pelos seus
alunos. Em Junho deste ano, o coronel Byron Lima Estrada, treinado nessa
escola, foi condenado na Cidade de Guatemala pelo assassinato do bispo Juan
Gerardi em 1998. Gerardi foi assassinado porque tinha ajudado a redigir um
relatório sobre as atrocidades cometidas pelo D-2, a agência de inteligência
da Guatemala, dirigida por Lima Estrada com a ajuda de outros dois homens
também formados pela SOA. O D‑2 coordenou a campanha “anti-insurreccional”
que destruiu 448 povos índios maia e assassinou dezenas de milhares dos seus
habitantes. Quarenta por cento dos ministros que serviram os regimes
genocidas de Lucas García, Ríos Montt e Mejía Víctores estudaram na SOA. Em 1993, a Comissão da Verdade das Nações Unidas sobre El Salvador
identificou os oficiais do exército que tinham cometido as piores atrocidades
da guerra civil. Dois terços deles tinham sido treinados na Escola das
Américas. Entre eles estava Roberto D’Aubuisson, o chefe dos esquadrões da
morte de El Salvador; o homem que matou o arcebispo Óscar Romero; e 19 dos 26
soldados que mataram os padres jesuítas em 89. No Chile, os graduados da
escola dirigiam tanto a polícia secreta de Augusto Pinochet como os seus três
principais campos de concentração. Um deles ajudou a assassinar Orlando
Letelier e Ronni Moffit em Washington DC em 1976. Os ditadores Roberto Viola e Leopoldo Galtieri da Argentina, Manuel
Noriega e Omar Torrijos do Panamá, Juan Velasco Alvarado do Peru e Guillermo
Rodríguez do Equador, todos beneficiaram do treinamento da escola. Outro
tanto o fizeram o chefe do esquadrão da morte Grupo Colina no Peru de
Fujimori; quatro dos cinco oficiais que comandavam o infame Batalhão 3-16 nas
Honduras (que aí controlava os esquadrões da morte nos anos 80) e o
comandante responsável pelo massacre de Ocosigo, no México em 1994. Tudo isto, asseguram os defensores da escola, é velha história. Mas
os homens graduados na SOA estão também implicados na guerra suja que se leva
actualmente a cabo na Colômbia com o apoio dos EUA. Em 1999, o relatório do Departamento
de Estado dos EUA sobre direitos humanos indicava dois graduados da SOA como
os assassinos do comissário de paz Alex Lopera. O ano passado, a Human Rights
Watch revelou que sete ex‑pupilos estão a dirigir grupos paramilitares
nesse país e realizaram raptos, desaparecimentos, homicídios e massacres. Em
Fevereiro deste ano, um graduado da SOA na Colômbia foi condenado por
cumplicidade na tortura e assassinato de trinta camponeses por paramilitares.
À escola chegam actualmente mais estudantes da Colômbia do que de qualquer
outro país. O FBI define o terrorismo como «actos violentos... encaminhados a
intimidar ou a coagir a população civil, a influenciar a política de um
governo, ou a interferir na conduta de um governo», o que é uma descrição
precisa das actividades dos graduados da SOA. Mas, como podemos estar seguros
de que esse centro de treinamento tenha tido algum papel em tudo isto? Bem, em
1996, o Governo dos EUA foi obrigado a tornar públicos sete dos manuais de
treinamento da escola. Entre outros grandes conselhos para terroristas,
recomendava‑se a chantagem, a tortura, a execução e a detenção de
parentes das testemunhas. O ano passado, em parte como resultado da campanha levada a cabo pela
SOA Watch, muitos membros do Congresso dos EUA tentaram fechar a escola.
Foram derrotados por dez votos. Em vez disso, a Câmara dos Representantes
votou por fechá-la e depois voltar a abri‑la imediatamente sob outro
nome. Assim, precisamente enquanto Windscale se convertia em Sellafield com a
esperança de eludir a memória pública, a Escola das Américas lavou as mãos do
seu passado ao rebaptizar‑se WHISC. Tal como o coronel da escola, Mark
Morgan, informou o Departamento de Defesa imediatamente antes da votação do
Congresso: «alguns dos vossos chefes disseram que não podiam manter uma coisa
chamada ‘Escola das Américas’. A nossa proposta responde a esta preocupação.
Muda o nome.» Paul Coverdell, o senador da Geórgia que se tinha batido para
salvar a escola, declarou à imprensa que as mudanças eram «fundamentalmente
cosméticas». Mas visitem o lugar web do WHISC e verão que a Escola das Américas foi
praticamente removida. Mesmo a página intitulada “História” evita mencioná‑la.
Os cursos do WHISC, diz‑nos, «cobrem um amplo espectro de áreas relevantes,
tais como o planeamento operativo para as operações de paz; as ajudas em caso
de desastres; as operações civis-militares; o planeamento táctico e a
execução de operações anti‑droga». Muitas páginas descrevem as suas iniciativas
no âmbito dos direitos humanos. Mas, ainda que digam respeito a quase todo o
programa, não se mencionam técnicas de combate e de comando,
anti-insurreccionais e de interrogatório. Nem o facto de que as opções sobre
a “paz” e os “direitos humanos” da WHISC também se ofereciam na SOA na
esperança de apaziguar o Congresso e preservar o orçamento: mas dificilmente
algum dos estudantes escolhia frequentá‑los. Não podemos esperar que este campo de treinamento terrorista se reforme
a si próprio: depois de tudo, rejeita inclusive reconhecer que tem um
passado, quanto mais aprender com ele. Assim, dado que as provas que conectam
esta escola com as atrocidades que ainda sucedem na América Latina são mais
consistentes do que as provas que unem os campos de treinamento da al-Qaeda
com o ataque a Nova Iorque, o que deveríamos fazer acerca dos “maus” de Fort
Benning, Geórgia? Bem, poderíamos instar os nossos governos a exercer a máxima pressão
diplomática, e pedir a extradição dos comandantes da escola, para que sejam
processados por cumplicidade em crimes contra a humanidade. Como alternativa,
poderíamos pedir aos nossos governos que ataquem os Estados Unidos,
bombardeando as suas instalações militares, as cidades e os aeroportos, na
esperança de fazer cair o seu governo não eleito e substituí-lo por uma nova
administração sob a supervisão da ONU. No caso de que esta proposta seja
impopular entre o povo norte‑americano, poderíamos conquistar os seus
corações lançando pão naan e curry dessecado em bolsas de
plástico que levem impressa a bandeira afegã. Objectarão que esta proposta é ridícula, e eu concordo. Mas, por muito que tente, não consigo ver a diferença moral entre este curso de acção e a guerra que se está agora a empreender no Afeganistão. |