Informação Alternativa

Estados Unidos da América

09/11/2004

 

A religião dos ricos

 

George Monbiot

 

«Se Bush vencer», defendeu, pouco antes das eleições, a escritora norte­‑americana Barbara Probst Solomon, «o fascismo será possível nos EUA» [1]. Ela argumentava que a fé cega num líder, uma classe trabalhadora conservadora e o uso do medo como arma política garantiriam as pré­‑condições necessárias.

 

Ela está errada. Errado também está Richard Sennett, que descreveu o Estado de Segurança de Bush como “fascismo soft” , no The Guardian no mês passado [2]. E a mesma ideia encontramos espalhada incansavelmente na Internet. No seu livro The Anatomy of Fascism [A Anatomia do Fascismo], Robert Paxton é bastante persuasivo ao descrever o fascismo como «...uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com o declínio, humilhação e vitimização da comunidade, bem como com cultos compensatórios de união, energia e pureza» [3]. É difícil ler a política Republicana nestes termos. O fascismo recrutava a elite, mas não advinha desta. Ele era baseado numa excitação popular histérica: algo de que ninguém poderia acusar George Bush de provocar.

 

Mas isto não quer dizer que o projecto de Bush não conta com antecedentes. Na verdade, ele é uma repetição de uma ideologia um tanto distinta. Se não a entendermos, não temos esperança de a confrontar.

 

O puritanismo é, talvez, o menos compreendido dos movimentos políticos da história europeia. Na mitologia popular, ele é reduzido a um bem pouco divertido culto da auto­‑negação, obcecado com o despojamento das igrejas e o banimento de qualquer entretenimento: uma percepção que o joga o mais longe possível do visível consumismo da América Republicana. Mas o puritanismo foi o produto de uma transformação económica.

 

Na Inglaterra da primeira metade do século 17, os remanescentes do Estado feudal desempenharam um papel análogo ao da social-democracia da segunda metade do século passado. O sistema era, é claro, conduzido de acordo com os interesses da monarquia e do clero. Mas regulava, também, a exploração económica das classes mais baixas. Tal como RH Tawney observou no seu livro Religion and the Rise of Capitalism [Religião e a Ascensão do Capitalismo] (1926), Charles I procurou nacionalizar as indústrias, controlar o comércio externo e processar lordes que expulsassem os camponeses das terras, empregadores que se recusassem a pagar o salário devido, e magistrados que falhassem em garantir auxílio aos pobres.[4]

 

Mas este modelo já não era viável. Num processo que aconteceu ao longo de 150 anos, «o surgimento de companhias comerciais, não mais locais, mas internacionais», levou a Europa a «uma concentração de poder financeiro numa escala antes desconhecida» e «à sujeição da organização industrial colegiada da Idade Média a um novo poder financeiro». A economia foi «varrida por uma imensa expansão do comércio e das finanças, em vez de da industria». Os reis e príncipes da Europa tinham­‑se tornado «marionetes dançando nos fios» controlados pelos financeiros [4].

 

Em Inglaterra, a dissolução dos mosteiros tinha catalisado uma imensa concentração de riqueza por uma nova classe comercial. Eles começaram por cercar (“enclosing”) a terra e expulsar os seus habitantes. Isso gerou uma mania pela especulação de propriedades, o que, por sua vez, levou à criação de sofisticados mercados financeiros – especulando em mercados futuros, arbitragem e quase todos os vícios hoje associados à Era Enron. 

 

Tudo isso foi denunciado ferozmente pelos primeiros teólogos da Reforma Inglesa. Os primeiros puritanos pregavam que os homens deveriam ser caridosos, encorajando a justiça e punindo a exploração. Esse traço persistiu através do século 17 entre os colonos de New England. Mas, no velho continente, não teve qualquer chance.

 

O puritanismo era, originalmente, a religião das novas classes comerciais. Atraía comerciantes, credores, banqueiros e industriais. Calvino tinha­‑lhes dado o que a velha ordem não podia: uma justificação teológica do comércio. O capitalismo, nos seus ensinamentos, não era visto como não-cristão, mas algo que poderia ser usado para a glorificação de Deus. Da sua doutrina da purificação individual, os puritanos forjaram uma nova teologia.

 

No seu cerne estava uma «idealização da responsabilidade pessoal» perante Deus. Isto rapidamente se tornou em «uma teoria de direitos individuais» na qual «o esquema tradicional das virtudes cristãs estava quase exactamente invertido». Pela metade do século 17, a maioria dos puritanos ingleses viam na pobreza «não a infelicidade a ser lamentada e aliviada, mas uma falha moral a ser condenada, e nas riquezas, não um objecto de suspeita... mas a benção que recompensa o triunfo da energia e da força de vontade» [4].

 

Não foi difícil para eles dar esse pulo. Se a vida Cristã, tal como idealizada tanto por Calvino quanto por Lutero, deveria concentrar-se no contacto directo da alma individual com Deus, então a sociedade, da espécie que era percebida e protegida pela igreja medieval, torna-se redundante. «O individualismo na religião leva... a uma moralidade individualista, e uma moralidade individualista leva à depreciação do significado do tecido social» [4].

 

A isto, os puritanos de então adicionaram outro conceito. Eles uniram o seu apelo religioso ao seu apelo comercial. «A seguir à salvação da sua alma», escreveu o pregador Richard Steele, em 1684, o «cuidado e o negócio» do comerciante «é servir a Deus e ao seu apelo, levando-o tão longe quanto possa» [5]. O sucesso nos negócios tornou-se sinal de graça espiritual: providenciando a prova ao empreendedor, nas palavras de Steele, de que «Deus havia abençoado o seu negócio». O próximo passo segue­‑se automaticamente. O ministro puritano Joseph Lee antecipou a mão invisível de Adam Smith em mais de um século, quando defendeu que «o avanço dos indivíduos será o avanço do público» [6]. Por indivíduos, é claro, ele queria referir­‑se aos homens de posse, que andavam bastante ocupados em destruir o avanço de todos os outros.

 

Tawney descreve os puritanos como os convertidos iniciais ao «niilismo administrativo»: a doutrina que, hoje, chamamos de estado mínimo. «Assuntos empresariais», eles acreditavam, «deveriam ser deixados aos cuidados de homens de negócios, livres das intrusões de uma moralidade antiquada» [4]. Eles não deviam nada a ninguém. Na verdade, eles formularam uma nova e radical teoria de obrigação social, que defendia que o auxílio aos pobres gerava o ócio e a dissolução espiritual, divorciando-os de Deus.

 

Os puritanos, é claro, divergiam do pessoal de Bush no facto de adorarem a produção mas não o consumo. Mas este é apenas um diferente sintoma de uma mesma doença. Tawney caracteriza os puritanos de então como pessoas que acreditavam que «o mundo existe não para ser apreciado e sim conquistado. Apenas o seu conquistador merece ser chamado de Cristão».

 

Alguns grupos, tais como os Levellers e os Diggers, mantiveram-se fiéis ao espírito original da Reforma, mas foram violentamente suprimidos. A perseguição de adúlteros e sodomitas providenciou uma distracção ideal para as classes baixas cada vez mais empobrecidas.

 

O novo e excelente romance de Ronan Bennet, Havoc in its Third Year [O Caos no seu Terceiro Ano], sobre uma revolução puritana nos anos 1630, tem a força de uma parábola [7]. Uma obsessão com terroristas (neste caso, irlandeses e jesuítas), homossexualidade e conduta sexual licenciosa, a horrenda repressão dos desvios sexuais, o aviltamento do auxílio público aos necessitados: troque os trajes pretos pelos cinza, e os personagens poderiam ter saído dos EUA de Bush.

 

Então, porque é que esta ideologia ressurgiu em 2004? Porque precisa. O enriquecimento das elites e o empobrecimento das classes mais baixas necessita de uma ideologia justificadora se quer sustentar­‑se. Nos Estados Unidos esta ideologia tem de ser religiosa. O governo de Bush é empurrado para trás para as doutrinas puritanas como uma necessidade histórica. Se quisermos entender as suas intenções, temos que voltar a nossa atenção não para a década de 1930, mas para a de 1630.

 

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[1] Citada por Quico Alsedo, 27 de Outubro, 2004. “El Fascismo Es Posible Si Gana Bush” Dice Probst Salomón (sic). El Mundo.

 

[2] Richard Sennett, 23 de Outubro, 2004. The Age of Anxiety. The Guardian.

 

[3] Robert O. Paxton, 2004. The Anatomy of Fascism. Alfred A. Knopf, Nova York.

 

[4] RH Tawney, 1998. Religion and the Rise of Capitalism. Transaction publishers, New Brunswick.

 

[5] Richard Steele, 1684. The Tradesman’s Calling. Citado in Tawney (ibid).

 

[6] Joseph Lee, citado in Tawney, ibid.

 

[7] Ronan Bennett, 2004. Havoc in its Third Year. Bloomsbury, Londres.