Informação Alternativa

Mundo

13/07/2004

 

Engraxando o poder

 

George Monbiot

 

«Quando pessoas famintas encontram comida, não se preocupam muito com os ingredientes. O filme de Michael Moore, Fahrenheit 911, é grosseiro, às vezes condescendente. Ele põe palavras na boca das pessoas. Termina as frases para elas. Às vezes, é engraçado e comovente, outras, desajeitado e incoerente. Mas o filme impressionou­‑me e no final aplaudi. Porque Fahrenheit 911 faz as perguntas que deveriam ter sido feitas todos os dias nos últimos quatro anos. O sucesso do filme é testemunha do fracasso da mídia.

 

Amanhã, o relatório Butler reabrirá o debate sobre a quem deve ser atribuída a culpa pelas mentiras segundo as quais os britânicos foram para a guerra – o governo ou as agências de informações. Uma coisa que as redes noticiosas não vão discutir é a culpabilidade das redes noticiosas. Após este inquérito, precisaremos de outro, cujo propósito é descobrir porque é que os jornalistas ajudam os governos a mentir às pessoas.

 

Não preciso discutir as deficiências das redes noticiosas dos Estados Unidos. A Fox e a NBC têm frequentemente se vangloriado da sua lealdade ao governo Bush. De propriedade de empresários de direita, poderiam ser descritas como componentes do complexo militar-industrial. Mas os fracassos da mídia britânica, e em particular da BBC, exigem mais explicação. Estudos da Escola de Jornalismo de Cardiff e do Grupo de Mídia da Universidade de Glasgow sugerem que existe uma tendência séria e sistemática entre as emissoras britânicas a favor do governo e dos seus aliados.

 

O estudo de Cardiff, por exemplo, mostra que 86% das reportagens noticiosas transmitidas que mencionaram armas de destruição em massa durante a invasão do Iraque «insinuaram que o Iraque tinha tais armas», enquanto «somente 14% levantaram dúvidas sobre a sua existência e possível uso» [1]. A alegação por parte de forças britânicas e americanas de que o Iraque tinha disparado mísseis Scud ilegais contra o Kuwait foi noticiada 27 vezes nos programas noticiosos britânicos. E foi questionada em apenas quatro ocasiões: uma vez pela Sky e três vezes pela Channel 4 News [2]. A BBC conseguiu até enfeitar a reportagem: o seu correspondente, Ben Brown, sugeriu que o Scud não existente teria sido carregado com ogivas químicas ou biológicas [3]. Tanto a BBC (mais uma vez Ben Brown) como a Independent Television News (ITN) informaram que comandantes britânicos tinham “confirmado” o levante fantasma em Bassora em 25 de Março [4]. Embora não houvesse indício que apoiasse qualquer uma das posições, houve o dobro de notícias afirmando que o povo iraquiano favoreceu a invasão, do que notícias dizendo que se opunha a isso [5]. «No geral», os investigadores descobriram que «foi dedicado um tempo consideravelmente maior às histórias originais [não verdadeiras] do que a quaisquer retratações subsequentes» [6].

 

O estudo de Glasgow mostra que os noticiários da BBC e da ITN são tendenciosos em relação a Israel e contra os palestinianos [7]. É dada uma cobertura quase três vezes maior à morte de cada israelita do que à morte de palestinianos. Os assassinatos cometidos por palestinianos são descritos como “atrocidades” e “homicídios” ao passo que os palestinianos deliberadamente mortos a tiro por soldados israelitas têm sido noticiados como «apanhados no fogo cruzado» [8]. No período analisado pelos pesquisadores, os porta-vozes de Israel tiveram o dobro do tempo para falar do que os palestinianos. Tanto as notícias da BBC como as da ITN descreveram a Cisjordânia como parte de Israel [9]. Ao falhar em explicar que os palestinianos estão a viver sob a ocupação militar que se seguiu à confiscação ilegal da sua terra, os correspondentes regularmente reduzem o conflito a um inexplicável “ciclo de violência”. Mesmo esse ciclo é apresentado como sendo impulsionado pelos palestinianos: os israelitas são noticiados como “reagindo” ou “retaliando” aos ataques palestinianos; já a violência por parte dos palestinianos poucas vezes é explicada como uma reacção aos ataques dos israelitas [10]. Ambas as redes afirmam com regularidade que o governo americano está buscando a paz na região, deixando de mencionar que o governo americano fornece 3 milhares de milhões de dólares ao ano em ajuda militar a Israel [11].

 

A BBC sai muito mal destes estudos. O relatório Cardiff mostra que a emissora usou fontes dos governos americano e britânico com mais frequência que outras redes transmissoras e usou fontes independentes, tais como a Cruz Vermelha, com menos frequência que as outras [12]. Deu menos cobertura sobre as baixas iraquianas e foi a menos provável de noticiar a insatisfação iraquiana acerca da invasão [13]. Outro estudo conduzido pelo Frankfurter Allgemeine Zeitung, sobre redes noticiosas em cinco países, mostrou que a BBC dedicou o menor tempo de transmissão de todas as emissoras aos que se opunham à guerra – apenas 2% da sua cobertura [14]. (Até mesmo o noticiário da ABC nos Estados Unidos deu-lhes 7%) [15]. Em contraposição, o Channel 4 News saiu­‑se bem, pois parece ter sido a única rede britânica que buscou oferecer um relato equilibrado desses conflitos [16,17].

 

Claro que este problema não está confinado às emissoras ou, já agora, à imprensa de direita. No Domingo, o jornal irmão do Guardian, The Observer, perguntou, «Porque é que o prefácio do primeiro­‑ministro [ao dossier dodgy] foi tão inequívoco acerca da ameaça colocada por Saddam? Porque foram provas inconclusivas apresentadas como factos? [18] As mesmas questões devem ser colocadas ao The Observer, que tomou o partido do governo na invasão, e publicou um conjunto de reportagens incorrectas, que ainda não retractou, sobre armas de destruição em massa e as ligações entre Saddam Hussein e a al Qaeda.

 

Então, porque é que isto acontece? Porque é que emissoras de televisão (e jornais) que têm a reputação de equilíbrio, imparcialidade e até mesmo tendências liberais ficam do lado dos poderosos? Parece haver vários motivos.

 

Um deles é que pressupõem – correcta ou erroneamente – que a audiência não quer complexidade.  Um jornalista da BBC disse à equipa de Glasgow que tinha sido instruído a não providenciar “explicadores”: o que os editores queriam era «material que fizesse estardalhaço» [19]. A reportagem analítica e investigativa deu lugar a descrições de tirar o fôlego de movimentos de tropas e tecnologia militar. Talvez isso não surpreenda, porque deixa a audiência sem a menor ideia do que está a acontecer: num dos grupos de telespectadores entrevistados pelos pesquisadores, o número de pessoas que disseram que os territórios ocupados tinham sido ocupados pelos palestinianos superou o número das que disseram que tinham sido ocupados por israelitas [20].

 

Um outro motivo é que, como em todas as profissões, você é recompensado por engraxar o poder. As pessoas que são favorecidas com informação especial são aquelas que caíram nas graças do governo. Isto conduz ao resultado paradoxal de que alguns dos nossos jornalistas mais bem sucedidos são também os mais crédulos sicofantas da profissão.

 

Enquanto você é recompensado por lisonjear, é punido pela coragem. Os governos americano, britânico e israelita podem dificultar muito a vida das organizações de mídia que lhes causam transtornos, como a BBC descobriu durante o caso Gilligan. Os palestinianos e o povo iraquiano têm menos poder de fazer lobby. Todas as mídias têm pavor de aborrecer o governo israelita, por medo de serem tachadas de anti­‑semitas. Governos poderosos podem convocar a imprensa de direita em busca de apoio. Rupert Murdoch, que tem um interesse comercial na destruição da BBC, fica sempre contente de fazer o jeito.

 

Quando a maioria dos nossos jornalistas nos decepciona, não é de surpreender que os poucos com coragem suficiente para desmascarar as mentiras dos poderosos se tornem heróis, mesmo se o seu trabalho for bastante grosseiro. Quando um comediante desmazelado do Michigan é capaz de nos levar mais próximos da verdade do que a BBC, está na hora de analisar seriamente o motivo pelo qual as notícias se tornaram a propaganda dos vencedores.

 

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[1] Justin Lewis e Rod Brookes, 2004. “Reporting the War on British Television”. In David Miller (Ed) Tell Me Lies: Propaganda and Media Distortion in the Attack on Iraq. Pluto Press, London.

 

[2] ibid.

 

[3] ibid.

 

[4] ibid.

 

[5] ibid.

 

[6] ibid.

 

[7] Greg Philo e Mike Berry, 2004. Bad News from Israel. Pluto Press, London.

 

[8] ibid.

 

[9] ibid.

 

[10] ibid.

 

[11] ibid.

 

[12] Matt Wells, 4 Julho 2003. War claims row: Study deals a blow to claims of anti­‑war bias in BBC news. The Guardian.

 

[13] ibid.

 

[14] Citado por David Miller, 22 Abril 2003. Taking sides: The anti-war movement accuses the BBC of having had a pro-war bias; the government says it was too Baghdad-friendly. So who is right? The Guardian.

 

[15] ibid.

 

[16] Justin Lewis e Rod Brookes, ibid.

 

[17] Eg Ian Burrell, 21 Outubro 2003. War Coverage Study Shows BBC Won Less Trust Than Rivals. The Independent.

 

[18] Leader, 11 Julho 2004. Truth Must Not Be a Casualty Again. The Observer.

 

[19] Greg Philo e Mike Berry, ibid.

 

[20] ibid.