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25/11/2003 É inútil dizer aos falcões que era improvável livrar o mundo da al Qaeda
bombardeando um país no qual não estava operando. É inútil argumentar que se
os milhares de milhões gastos na guerra contra o Iraque tivessem sido usados
em inteligência e segurança, atrocidades como os ataques em Istambul na
semana passada poderiam ter sido evitadas. Assim que um argumento para a
invasão e ocupação do Iraque desmorona, eles mudam para outro. Durante o mês
passado, quase todos os guerreiros – Bush, Blair e os beligerantes tanto na
imprensa conservadora como na liberal – recuaram para a última linha de
defesa, o argumento que conhecemos como “a alegação moral para a guerra”. Desafiado pelo deputado nacionalista escocês Pete Wishart na Câmara
dos Comuns na quarta‑feira acerca daquelas diabolicamente renitentes
armas de destruição em massa, por exemplo, Tony Blair esquivou‑se da
questão. «O que todos precisam saber é que se pessoas como o honrado
cavalheiro conseguissem o que queriam, Saddam Hussein, os seus filhos e os
seus carrascos ainda estariam a aterrorizar as pessoas no Iraque. Eu acho
extraordinário que ele pense que seria um estado de coisas preferível» [1]. Eu realmente acredito que havia um argumento moral para depor Saddam
Hussein, que foi um dos tiranos mais revoltantes do mundo, por meios
violentos. Eu também acredito que havia um argumento moral para não o fazer,
e que esse argumento era mais forte. Que Saddam não seja mais presidente do
Iraque é, sem dúvida, uma coisa boa. Mas contra isso precisamos pesar a morte
ou mutilação de milhares de pessoas; a possibilidade de guerra civil no
Iraque; a raiva e o ressentimento que a invasão gerou em todo o mundo
muçulmano e a criação, em consequência, de um ambiente mais hospitaleiro no
qual terroristas possam operar; a reafirmação do poder imperial; e a anulação
do direito internacional. Parece que esses custos superam o benefício
reconhecido. Mas o ponto chave, desprezado por todos os que conceberam o argumento
moral para a guerra, é esse: que um argumento moral não é o mesmo que uma
razão moral. Qualquer que tenha sido o argumento de teor moral para derrubar
Saddam Hussein, não é por isso que Bush e Blair foram à guerra. Uma superpotência não tem imperativos morais. Tem imperativos
estratégicos. O seu propósito não é sustentar as vidas de outras pessoas, mas
sustentar‑se a si próprio. A preocupação com os direitos e sentimentos
de outros é um impedimento para a consecução dos seus objectivos. Pode alegar
o argumento moral, mas isso não quer dizer que seja motivada pelo argumento
moral. Escrevendo recentemente no The Observer, David Aaronovitch arguiu a
favor da intervenção dos EUA, ao mesmo tempo que sugeria que poderia ser
melhorada através de algumas mudanças na política. «Certamente eu quero que
mudem. Eu quero mais consistência. Eu quero que Bush pare de tolerar os
nojostões da Ásia Central, que diga a Ariel onde parar, que trate os aliados
com mais respeito, que se livre dos arrogantes neoconservadores...» [2]. Nós
dizemos o mesmo. Mas a Casa Branca não é uma filial da Amnistia
Internacional. Quando serve os seus propósitos anexar uma justificação moral
às suas acções, ela o fará. Quando for melhor servida apoiando ditaduras como
a do Uzbequistão, governos expansionistas como o de Ariel Sharon e
organizações que torturam e assassinam, como o exército colombiano e (através
dele) a paramilitar AUC, o fará. Ela armou e financiou Saddam Hussein quando
precisava, derrubou‑o quando precisava. Em nenhuma situação agiu porque
se importava com o povo do seu país. Agiu porque se importava com os seus
próprios interesses. Os EUA, como todas as superpotências, têm um enfoque
consistente dos assuntos internacionais. Mas não é moralmente consistente; é
estrategicamente consistente. É difícil imaginar porque deveríamos esperar algo diferente. Todos os
impérios trabalham de acordo com as regras da vantagem prática, ao invés
daquelas da bondade e decência moral. Em Trevas ao Meio Dia, de Arthur
Koestler, Rubashov, o herói caído da revolução, condena‑se a si próprio
por «ter seguido impulsos sentimentais, e ao fazê-lo ter sido levado à
contradição com a necessidade histórica. Eu dei ouvidos aos lamentos dos
sacrificados, e assim fiz ouvidos moucos aos argumentos que provaram a
necessidade de sacrificá-los» [3]. «Simpatia, consciência, desgosto, desespero,
arrependimento e expiação], o seu interrogador lhe recorda, «são para nós
deboche repugnante» [4]. Koestler estava obviamente a descrever uma superpotência diferente,
mas essas considerações sempre foram verdadeiras. Durante a guerra fria, os
dois impérios apoiavam quaisquer líderes indígenas que promovessem os seus
interesses. Eles ajudaram‑nos a tomar e reter o poder massacrando o seu
próprio povo, depois empurraram‑nos para conflitos nos quais milhões
foram mortos. Uma das razões pelas quais os EUA triunfaram foi porque
possuíam os recursos para pôr em prática essa estratégia com mais
consistência do que a União Soviética. Hoje a necessidade de assassinato em
massa diminuiu. Mas aqueles que imaginam que o cálculo estratégico de alguma
forma foi deixado de lado estão a iludir‑se. Houve abundância de razões práticas para os Estados Unidos irem à
guerra contra o Iraque. Como admitiu Paul Wolfowitz, o vice-secretário da
defesa, a ocupação daquele país permite que os EUA retenham a sua presença no
Médio Oriente removendo «quase todas as nossas forças da Arábia Saudita» [5].
A presença de «forças cruzadas na terra santa] [6] estava, conforme revelou, a
ficar cada vez mais insustentável. (A sua remoção, naturalmente, era a primeira
reivindicação de Osama bin Laden: quem disse que o terrorismo não funciona?).
A presença de tropas no Médio Oriente permite que os EUA continuem a exercer
o controle dos seus suprimentos petrolíferos, e assim manter a China, o seu
novo rival económico e político, em xeque. O bombardeio do Iraque foi usado
por Bush para mostrar que a sua guerra contra o terror não perdeu o ímpeto. E
o poder, como bem sabem os que o detêm, é algo que você usa ou perde. A menos
que você flexione os seus músculos, eles atrofiam. Não podemos dizer qual desses motivos foi dominante, mas nós podemos
dizer que são razões realistas para a guerra. O mesmo não pode ser dito de
uma preocupação com os direitos humanos de estrangeiros. Isso é apenas o
disfarce sob o qual se age numa democracia nominal. Mas, ao debater a guerra, aqueles de nós que se opuseram a ela
ficaram enredados nesse conto de fadas. Nós somos obrigados a debater acerca
dos méritos morais relativos de deixar Saddam no lugar ou depô-lo, quando nós
sabemos, embora nós sejamos raramente corajosos o suficiente para o dizer,
que a questão moral é uma distracção. A jogada genial dos falcões consistiu
em nos obrigar a aceitar uma ficção como o ponto de referência para o debate. É claro, é possível que impérios façam a coisa certa por razões
erradas, e nisso possivelmente os falcões vão depositar as suas últimas
esperanças para se justificarem. Mas as razões erradas, consistentemente
aplicadas, levaram, ao nível global, aos resultados errados. Vamos debater o
argumento moral para a guerra de qualquer forma; mas vamos fazê-lo com a
consciência de que não teve nada a ver com a invasão do Iraque. _____________ [1] Tony Blair, 19 Novembro 2003. Prime
Minister’s Questions, Column 774, Hansard. [2] David Aaronovitch, 16 Novembro 2003. Why
I Say Welcome, The Observer. [3] Arthur Koestler, 1940. Darkness at
Noon, p. 153. Penguin, London. [4] Arthur Koestler, p. 124, ibid. [5] Paul Wolfowitz, 9 Maio 2003. Entrevista com Sam Tannenhaus para a Vanity Fair. Lida no site do Pentágono: http://www.defenselink.mil/transcripts/2003/tr20030509-depsecdef0223.html
[6] Paul Wolfowitz, ibid. |