Informação Alternativa

Iraque

25/11/2003

 

O mito moral

 

George Monbiot

 

É inútil dizer aos falcões que era improvável livrar o mundo da al Qaeda bombardeando um país no qual não estava operando. É inútil argumentar que se os milhares de milhões gastos na guerra contra o Iraque tivessem sido usados em inteligência e segurança, atrocidades como os ataques em Istambul na semana passada poderiam ter sido evitadas. Assim que um argumento para a invasão e ocupação do Iraque desmorona, eles mudam para outro. Durante o mês passado, quase todos os guerreiros – Bush, Blair e os beligerantes tanto na imprensa conservadora como na liberal – recuaram para a última linha de defesa, o argumento que conhecemos como “a alegação moral para a guerra”.

 

Desafiado pelo deputado nacionalista escocês Pete Wishart na Câmara dos Comuns na quarta­‑feira acerca daquelas diabolicamente renitentes armas de destruição em massa, por exemplo, Tony Blair esquivou­‑se da questão. «O que todos precisam saber é que se pessoas como o honrado cavalheiro conseguissem o que queriam, Saddam Hussein, os seus filhos e os seus carrascos ainda estariam a aterrorizar as pessoas no Iraque. Eu acho extraordinário que ele pense que seria um estado de coisas preferível» [1].

 

Eu realmente acredito que havia um argumento moral para depor Saddam Hussein, que foi um dos tiranos mais revoltantes do mundo, por meios violentos. Eu também acredito que havia um argumento moral para não o fazer, e que esse argumento era mais forte. Que Saddam não seja mais presidente do Iraque é, sem dúvida, uma coisa boa. Mas contra isso precisamos pesar a morte ou mutilação de milhares de pessoas; a possibilidade de guerra civil no Iraque; a raiva e o ressentimento que a invasão gerou em todo o mundo muçulmano e a criação, em consequência, de um ambiente mais hospitaleiro no qual terroristas possam operar; a reafirmação do poder imperial; e a anulação do direito internacional. Parece que esses custos superam o benefício reconhecido.

 

Mas o ponto chave, desprezado por todos os que conceberam o argumento moral para a guerra, é esse: que um argumento moral não é o mesmo que uma razão moral. Qualquer que tenha sido o argumento de teor moral para derrubar Saddam Hussein, não é por isso que Bush e Blair foram à guerra.

 

Uma superpotência não tem imperativos morais. Tem imperativos estratégicos. O seu propósito não é sustentar as vidas de outras pessoas, mas sustentar­‑se a si próprio. A preocupação com os direitos e sentimentos de outros é um impedimento para a consecução dos seus objectivos. Pode alegar o argumento moral, mas isso não quer dizer que seja motivada pelo argumento moral.

 

Escrevendo recentemente no The Observer, David Aaronovitch arguiu a favor da intervenção dos EUA, ao mesmo tempo que sugeria que poderia ser melhorada através de algumas mudanças na política. «Certamente eu quero que mudem. Eu quero mais consistência. Eu quero que Bush pare de tolerar os nojostões da Ásia Central, que diga a Ariel onde parar, que trate os aliados com mais respeito, que se livre dos arrogantes neoconservadores...» [2]. Nós dizemos o mesmo. Mas a Casa Branca não é uma filial da Amnistia Internacional. Quando serve os seus propósitos anexar uma justificação moral às suas acções, ela o fará. Quando for melhor servida apoiando ditaduras como a do Uzbequistão, governos expansionistas como o de Ariel Sharon e organizações que torturam e assassinam, como o exército colombiano e (através dele) a paramilitar AUC, o fará. Ela armou e financiou Saddam Hussein quando precisava, derrubou­‑o quando precisava. Em nenhuma situação agiu porque se importava com o povo do seu país. Agiu porque se importava com os seus próprios interesses. Os EUA, como todas as superpotências, têm um enfoque consistente dos assuntos internacionais. Mas não é moralmente consistente; é estrategicamente consistente.

 

É difícil imaginar porque deveríamos esperar algo diferente. Todos os impérios trabalham de acordo com as regras da vantagem prática, ao invés daquelas da bondade e decência moral. Em Trevas ao Meio Dia, de Arthur Koestler, Rubashov, o herói caído da revolução, condena­‑se a si próprio por «ter seguido impulsos sentimentais, e ao fazê-lo ter sido levado à contradição com a necessidade histórica. Eu dei ouvidos aos lamentos dos sacrificados, e assim fiz ouvidos moucos aos argumentos que provaram a necessidade de sacrificá-los» [3]. «Simpatia, consciência, desgosto, desespero, arrependimento e expiação], o seu interrogador lhe recorda, «são para nós deboche repugnante» [4].

 

Koestler estava obviamente a descrever uma superpotência diferente, mas essas considerações sempre foram verdadeiras. Durante a guerra fria, os dois impérios apoiavam quaisquer líderes indígenas que promovessem os seus interesses. Eles ajudaram­‑nos a tomar e reter o poder massacrando o seu próprio povo, depois empurraram­‑nos para conflitos nos quais milhões foram mortos. Uma das razões pelas quais os EUA triunfaram foi porque possuíam os recursos para pôr em prática essa estratégia com mais consistência do que a União Soviética. Hoje a necessidade de assassinato em massa diminuiu. Mas aqueles que imaginam que o cálculo estratégico de alguma forma foi deixado de lado estão a iludir­‑se.

 

Houve abundância de razões práticas para os Estados Unidos irem à guerra contra o Iraque. Como admitiu Paul Wolfowitz, o vice-secretário da defesa, a ocupação daquele país permite que os EUA retenham a sua presença no Médio Oriente removendo «quase todas as nossas forças da Arábia Saudita» [5]. A presença de «forças cruzadas na terra santa] [6] estava, conforme revelou, a ficar cada vez mais insustentável. (A sua remoção, naturalmente, era a primeira reivindicação de Osama bin Laden: quem disse que o terrorismo não funciona?). A presença de tropas no Médio Oriente permite que os EUA continuem a exercer o controle dos seus suprimentos petrolíferos, e assim manter a China, o seu novo rival económico e político, em xeque. O bombardeio do Iraque foi usado por Bush para mostrar que a sua guerra contra o terror não perdeu o ímpeto. E o poder, como bem sabem os que o detêm, é algo que você usa ou perde. A menos que você flexione os seus músculos, eles atrofiam.

 

Não podemos dizer qual desses motivos foi dominante, mas nós podemos dizer que são razões realistas para a guerra. O mesmo não pode ser dito de uma preocupação com os direitos humanos de estrangeiros. Isso é apenas o disfarce sob o qual se age numa democracia nominal.

 

Mas, ao debater a guerra, aqueles de nós que se opuseram a ela ficaram enredados nesse conto de fadas. Nós somos obrigados a debater acerca dos méritos morais relativos de deixar Saddam no lugar ou depô-lo, quando nós sabemos, embora nós sejamos raramente corajosos o suficiente para o dizer, que a questão moral é uma distracção. A jogada genial dos falcões consistiu em nos obrigar a aceitar uma ficção como o ponto de referência para o debate.

 

É claro, é possível que impérios façam a coisa certa por razões erradas, e nisso possivelmente os falcões vão depositar as suas últimas esperanças para se justificarem. Mas as razões erradas, consistentemente aplicadas, levaram, ao nível global, aos resultados errados. Vamos debater o argumento moral para a guerra de qualquer forma; mas vamos fazê-lo com a consciência de que não teve nada a ver com a invasão do Iraque.

 

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[1] Tony Blair, 19 Novembro 2003. Prime Minister’s Questions, Column 774, Hansard.

 

[2] David Aaronovitch, 16 Novembro 2003. Why I Say Welcome, The Observer.

 

[3] Arthur Koestler, 1940. Darkness at Noon, p. 153. Penguin, London.

 

[4] Arthur Koestler, p. 124, ibid.

 

[5] Paul Wolfowitz, 9 Maio 2003. Entrevista com Sam Tannenhaus para a Vanity Fair. Lida no site do Pentágono:

http://www.defenselink.mil/transcripts/2003/tr20030509-depsecdef0223.html

 

[6] Paul Wolfowitz, ibid.