Informação Alternativa

Mundo

09/09/2003

 

De que lado você está?

 

George Monbiot

 

Fora das negociações sobre comércio mundial que começam em Cancún no México amanhã, duas batalhas serão travadas. A primeira será a batalha entre os defensores de um comércio justo e os representantes das nações ricas pedindo comércio injusto. A segunda será a disputa agora a fermentar dentro das fileiras daqueles que alegam estar a defender os pobres.

 

O problema com o qual todos aqueles que querem um comércio mais justo lidam é que raramente, ou nunca, houve um tratado entre ricos e pobres que não seja equivalente a roubo legalizado. O esboço de acordo que os membros da Organização Mundial do Comércio vão discutir esta semana não é excepção. Enquanto permite que as nações ricas continuem a proteger os seus mercados, tenta forçar as nações pobres a abrir as suas economias a várias formas originais de pirataria institucional.

 

Ainda assim os países mais pobres querem desesperadamente um tratado comercial efectivo. Os seus negociadores sabem que o mundo rico está a tentar roubá-los, e eles estão pouco inclinados a aprovar um acordo que permita que as suas corporações levem tudo menos os seus rins (isso vem depois). Mas eles também estão cientes de que tanto os EUA como a União Europeia parecem estar a fazer tudo o que podem para forçá-los a retirar­‑se. Como qualquer sindicalista sabe, quando os pobres não conseguem pressionar colectivamente, os ricos podem impor as regras que quiserem.

 

A resposta de alguns dos que no mundo rico estão desgostosos com as propostas dos seus governos é sugerir que as nações pobres se retirem da maioria das formas de comércio internacional. Mas isso leva a outro problema. Os países pobres precisam de dinheiro e, em particular, de moeda forte. Eles têm poucos meios de obter isso. A pirataria funcionou bem para as nações que hoje são ricas, mas os pobres não têm condições de retribuir. A assistência acorrenta os seus receptores ao paternalismo e à dependência. A única opção remanescente parece ser o comércio. Os três milhões de pessoas que assinaram a petição da Oxfam até agora estão a pedir não para “fazer o comércio ir embora”, mas para “fazer o comércio justo”. E é aí onde eles deixam a companhia de alguns dos que alegam apoiá-los.

 

Poucas pessoas no mundo rico agora admitem que desejam drasticamente reduzir o valor das exportações dos países pobres, mas vários proeminentes defensores estão a promover políticas que levam a este desfecho. Quando, em Junho, eu sugeri que “localização” (a proposta de que tudo o que possa ser produzido localmente deveria ser produzido localmente) afectaria os interesses das nações mais pobres, o dr. Spencer Fitz-Gibbon, porta-voz do Partido Verde, enviou­‑me uma carta furiosa reclamando [1]. A localização, ele insistia, iria ajudar os pobres ao permitir­‑lhes ser auto-suficientes e reduzindo o impacto do comércio nas mudanças climáticas. «Nós estamos a advogar um mundo de economias relativamente equilibradas, relativamente auto-suficientes. Isso significa em última análise os países pobres fabricar as suas próprias frigideiras, computadores e lápis». Parece sensato e óbvio, até você parar um momento para examinar as implicações.

 

Se cada país for fabricar as suas próprias frigideiras, computadores e lápis, então cada país iria necessitar de bauxita, minério de ferro, cobre, silicone, insumos, grafite, madeira e todas as demais matérias-primas exigidas para a sua fabricação. Se o país não as possui, então precisa importá-las. Já que as matérias-primas são mais pesadas, importar matérias-primas ao invés de produtos acabados significa que mais combustível fóssil deve ser usado no transporte. “Auto-suficiência” desta espécie portanto aumenta, ao invés de reduzir, a contribuição do comércio para as mudanças climáticas.

 

Igualmente perigoso, embora a auto-suficiência possa ser viável para as nações ricas, a maioria dos países pobres simplesmente não possui um mercado doméstico de tamanho suficiente para que a manufactura de produtos complexos valha a pena. Sugira a um economista etíope que a sua nação deveria ter uma indústria de informática própria, servindo apenas o seu próprio mercado, e ela deveria rir na sua cara. Como o mercado é pequeno, já que os etíopes são pobres, cada computador custaria muitas vezes mais do que se fosse produzido no mundo rico. O seu poder de compra comparativo tornar­‑se­‑ia então ainda mais frágil, e a tecnologia que eles querem iria ficar ainda mais fora de alcance. Para os negócios, hospitais e universidades etíopes serem viáveis eles têm de importar os seus computadores do estrangeiro, como fazem hoje.

 

Para isso eles precisam de divisas. Mas, sob o sistema do Partido Verde, eles achariam ainda mais difícil obtê­‑las do que no presente, porque o mundo rico também tem lutado por (e é muito mais fácil de obter para eles) auto-suficiência em produtos industriais. O resultado óbvio é que os únicos produtos que os países pobres poderão então vender para os ricos são matérias-primas. Eu disse isso ao dr. Fitz-Gibbon dois meses atrás. Ainda não recebi resposta.

 

A justiça global certamente exige que os povos do mundo rico, seja o que for que os seus governos possam desejar, lutem para ajudar as nações pobres a recuperar o máximo possível da nossa riqueza obtida de maneira injusta. Políticas justas têm sido propostas por grupos como a Oxfam, Christian Aid e o Movimento para o Desenvolvimento Mundial, que apelam, por exemplo, para a democratização da Organização Mundial do Comércio; um tratado que permita que os países mais pobres defendam a sua nascente indústria de exportação da competição directa; e que se faça cumprir as regras internacionais para forçar todas as corporações a comerciar de maneira limpa. A maioria desses localistas, que parecem estar determinados a ter a sua fatia do bolo e comê-la, também alegam que apoiam essas posições. Mas ainda não enfrentaram ou mesmo reconheceram as contradições evidentes nas quais se enredaram.

 

A estas justas medidas nós podemos acrescentar outra, desenvolvida recentemente pelo homem que concebeu o plano de “contracção e convergência” para lidar com a mudança climática, Aubrey Meyer. A contracção e convergência, que os governos africanos agora adoptaram como a sua posição oficial em relação a mudanças climáticas, primeiro determina quanto dióxido de carbono os humanos podem produzir cada ano sem cozinhar o planeta. Divide então essa soma entre todas as pessoas do mundo, e aloca a cada nação, com base na sua população, uma quota para a produção de gases. Propõe uma contracção brusca da produção total de gases que alteram o clima e uma convergência, para a igualdade, da produção nacional por contingente populacional. Para produzir mais do que a sua parcela, uma nação primeiro precisa comprar uma quota não utilizada por outra [2].

 

Meyer assinala que ao acelerar a convergência nós garantiríamos aos pobres uma vantagem comercial maciça. Aquelas nações que utilizam um mínimo de combustível fóssil possuiriam um quase-monopólio sobre o comércio de emissões. Isso ajudaria a equilibrar a balança económica entre ricos e pobres e compensaria os pobres pelo prejuízo infligido pela poluição dos países ricos [3].

 

Nós temos a oportunidade de lutar por algo sem precedentes: um tratado comercial com desvantagens para os ricos. Mas se estivermos a falar a sério a respeito de lutar por regras justas, nós também devemos parar de fazer campanha por regras injustas. Os localistas devem enfrentar as suas contradições e decidir de que lado estão.

 

O próximo artigo da série de três sobre comércio é A filosofia da Kantilena.

 

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[1] Carta aberta de Spencer Fitz-Gibbon para George Monbiot, 25 de Junho de 2003. Essa carta pode ser lida online em

http://www.indymedia.org.uk/en/2003/06/273186.html

 

[2] Aubrey Meyer, 2000. Contracção e Convergência: a Solução Global para Mudanças Climáticas. Green Books, em benefício da Schumacher Society.

 

[3] Aubrey Meyer, comentário pessoal.