Informação Alternativa

Mundo

19/08/2003

 

Roubando as nações

 

George Monbiot

 

Por quanto tempo mais deveremos dar àqueles que administram a economia global o benefício da dúvida? O Fundo Monetário Internacional cometeu o mesmo “erro” tantas vezes que só uma explicação parece ter sobrado: está a maquinar um desastre.

 

As crises a que presidiu na Tailândia, na Coreia do Sul, na Rússia e na Argentina estão bem documentadas por Joseph Stiglitz, o ex-economista chefe do Banco Mundial, entre outros [1]. Mas nós temos, até agora, carecido de uma descrição global da maneira como trabalhou na Europa oriental. Um novo livro do economista Pongrac Nagy mostra pela primeira vez como o FMI esmagou a Hungria [2].

 

A administração económica comunista não tinha esperança: coercitiva, sem controle, incompetente e esbanjadora. Assim, quando a Hungria começou a democratizar­‑se no final dos anos 80, estava claro que um novo sistema económico era necessário. Houve um grande número de opções para a transição. Mas antes que alguém as considerasse, o novo governo ingénuo e confiante foi convencido pelos poderes ocidentais que não tinha alternativa a não ser ir atrás do FMI.

 

A menos que a política económica de um país seja aprovada pelo Fundo, não pode obter capital externo. A Hungria necessitava de capital externo por apenas uma razão: ajudar a pagar a sua enorme dívida externa. Poderia ter solicitado, como muitos países fizeram, uma redução da dívida, mas o Fundo, em face de evidências substanciais, disse que isso poderia ser um obstáculo para investidores estrangeiros. A única opção era implementar as políticas que o FMI recomendava.

 

Ele dispõe de apenas um pacote de políticas. Os governos devem impor restrições ao fornecimento de dinheiro e crédito, abrir as portas ao capital externo, privatizar bens estatais e cortar nas despesas públicas. Justifica esses requerimentos persuadindo­‑os que estão a sofrer de uma dívida não administrável e inflação galopante.

 

Assim, em 1990 o Fundo disse à Hungria que estava a passar por uma crise inflacionária. Os preços, ressaltou, tinham subido 17% em 1989. Na verdade essa alta não foi causada pela inflação (a procura superando a oferta), mas principalmente por mudanças na política, como a introdução do Imposto sobre Valor Acrescentado e abolição de subsídios. O FMI insistiu em fingir que era causada por excesso de procura [3].

 

A melhor maneira de reduzir a procura, sustentava o Fundo, era restringir a quantidade de dinheiro que os bancos poderiam emprestar. Assim, entre 1990 e 1996 o banco central assegurou que o crédito disponível para os negócios fosse reduzido pela metade. O resultado imediato e previsível foi que as taxas de juros dispararam (para 50%), e as empresas por toda a Hungria quebraram. Como os trabalhadores eram despedidos e os salários eram cortados, a procura dos consumidores quebrou. O FMI, escreve Nagy, «artificialmente mergulhou a economia na sua maior depressão em tempos de paz» [4]. Entre 1990 e 1993, o Produto Interno Bruto da Hungria caiu 18%.

 

Longe de curar a inflação, este tratamento a causou. Entre 1993 e 1996, os preços subiram 130%. Não foi por causa do aumento da procura, mas simplesmente porque não estava a cair tão rápido quanto a oferta. Mas o FMI, uma vez mais, tratou esse novo problema como se fosse causado por procura descontrolada. Insistiu em mais restrições económicas, o que, previsivelmente, empurrou a Hungria para uma depressão ainda maior.

 

Para assegurar que a Hungria pagasse o serviço da dívida, o Fundo exigiu que cortasse todo o serviço público possível e privatizasse todo o bem estatal possível. Sectores económicos inteiros foram fustigados de forma rápida e barata, com o resultado de que multinacionais adquiriram o controle completo do mercado. Para assegurar, nas palavras do governo, «a desejável realocação da renda... rumo ao sector empresarial» [5], a Hungria foi então obrigada a introduzir uma das políticas tributárias mais regressivas do mundo: 43% da renda do governo provinha dos tributos sobre o consumo, mas apenas 20% do imposto de renda e 14% de impostos sobre negócios.

 

Tudo isso foi levado a cabo, como são todos os programas do FMI, com a condição de total sigilo e engano institucional. A mentira que o Fundo conta é que simplesmente aprova a “carta de intenções”, escrita por um governo, na qual as novas políticas económicas estão contidas. Essa história o exime de toda a responsabilidade pelo que acontecer. Mas a carta de intenções é na verdade escrita pelo FMI, e simplesmente assinada pelo governo. É enorme e detalhada, e guia a vida política e económica da nação por entre um e três anos. É inteiramente confidencial. A única visão que o povo da Hungria alguma vez recebeu da política do FMI foi uma carta de um alto funcionário do Fundo para o Ministro das Finanças, obtida por fuga. As suas exigências combinavam perfeitamente com as políticas que o governo estava a implementar.

 

Um milhão e meio de pessoas (quase 30% da força de trabalho) perderam os seus empregos. A renda dos que se mantiveram no emprego caiu 24%; as pensões caíram 31%. Por volta de 1996, a maioria da população estava a viver no nível de subsistência ou em torno dele. Os serviços públicos murcharam. Entre 1989 e 1998, a taxa de criminalidade subiu 166%. Isso, temos de recordar, foi o resultado de um processo descrito quase universalmente como “o triunfo do capitalismo”.

 

Então, em 1996, repentinamente, sem anúncio ou explicação, a política mudou. Os bancos foram autorizados a fornecer crédito novamente e a recessão, como resultado, teve um fim imediato. Nos quatro anos seguintes, a produção industrial subiu 45% e o Produto Interno Bruto 21%. Os salários e pensões voltaram a crescer.

 

A experiência, em outras palavras, não poderia ter um desfecho mais evidente. Você toma o remédio do FMI e a economia quebra. Você pára, e a economia recupera. Foi repetido com suficiente frequência para que nós confiemos nos resultados. Na Tailândia, na Coreia do Sul, na Indonésia, na Rússia e na Argentina, a liberalização financeira e as restrições forçadas do FMI levaram à crise económica, que foi aliviada somente quando essas restrições eram levantadas. As nações que se recusavam a tomar o remédio, mesmo que enfrentassem condições quase idênticas (Malásia, China, Polónia), prosperaram enquanto os seus vizinhos quebravam.

 

Então porque, sabendo quais serão os resultados, o FMI continua a aplicar a mesma fórmula para o desastre? Foi imposto tão frequentemente que não pode ser um erro. E os resultados acontece que satisfazem muito bem os seus patrocinadores. Embora o Fundo trabalhe principalmente em nações pobres, é controlado, por meio do seu sistema um dólar, um voto, inteiramente pelos ricos. Em consequência, como diz Stiglitz, os seus programas reflectem «os interesses e a ideologia da comunidade financeira internacional» [7].

 

Desmond Tutu uma vez observou que «quando os missionários vieram para África, eles tinham a Bíblia e nós tínhamos a terra. Eles disseram “vamos fechar os olhos e rezar”. Quando nós os abrimos, nós tínhamos a Bíblia, e eles tinham a terra». Os húngaros receberam a Bíblia da ortodoxia económica pelos seus missionários. Por meio do engano e sigilo, o FMI assegurou que os seus olhos ficassem fechados. Quando eles os abriram, os bancos e multinacionais estrangeiros dominavam a economia; o sector público estava a dar lugar ao capital estrangeiro; o desemprego estrutural tinha produzido uma força de trabalho dócil e desesperada. O FMI, em outras palavras, concebeu o roubo de uma nação inteira. Quantas vezes mais isso tem que acontecer antes que nós possamos perceber qual é o jogo?

 

_____________

[1] Joseph Stiglitz, 2002. Globalização – A Grande Desilusão. Terramar.

 

[2] Pongrac Nagy, 2003. Do Planejamento à Economia de Mercado na Hungria sob a Orientação do FMI. Akademiai Kiado, Budapeste.

 

[3] ibid

 

[4] ibid

 

[5] Governo da República da Hungria, Setembro de 1995. Estratégia Económica de Médio Prazo do Governo Húngaro, citado por Nagy, ibid.

 

[6] Carta de Massimo Russon, Director do Departamento de Europa I do FMI para Lakros Bokros, Ministro das Finanças Húngaro, 1995, reproduzido por Nagy, ibid.

 

[7] Stiglitz, ibid.