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20/04/2004 Para compreender o que está a acontecer no Médio Oriente, antes é
preciso compreender o que está a acontecer no Texas. Para compreender o que
está a a acontecer por lá, é necessário ler as resoluções que passaram
durante a convenção do Partido Republicano daquele estado no mês passado.
Vejamos, por exemplo, as decisões feitas no Condado Harris, que abrange
grande parte de Houston [1]. Os delegados começaram a acenar com a cabeça de um lado a outro frente
a questões controvertidas: a homossexualidade é contrária às verdades
ordenadas por Deus; «qualquer mecanismo com o objectivo de processar,
licenciar, documentar, registrar ou monitorar a propriedade de armas» deve
ser repelida; o imposto de renda, o imposto sobre heranças, os impostos sobre
lucros do capital e os impostos para as corporações deveriam ser abolidos; e
os imigrantes deveriam ser dissuadidos por barreiras feitas de cercas
eléctricas [2]. Dessa maneira fortificados, eles voltaram‑se para a
questão real: os negócios de um pequeno estado 7.000 milhas distante de lá.
Foi aí, segundo um participante, que «os urros e a quase luta de socos»
começou. Não sei o que dizia a moção original, mas aparentemente ela foi
«significativamente diluída», como consequência da competição de berros. A
moção que adoptaram declarava que Israel tem um direito indivisível sobre
Jerusalém e a Cisjordânia, que os estados árabes deveriam ser pressionados
para absorver os refugiados da Palestina, e que Israel deveria fazer aquilo
que achar melhor, na luta contra o terrorismo [3]. Que bom constatar que os
extremistas não prevaleceram naquela ocasião. Mas porque tudo isso deveria interessar tanto os habitantes de um
estado que raramente é celebrado pelo seu fascínio pelas relações externas?
Lentamente, a explicação está a tornar‑se familiar para nós, embora
ainda tenhamos algumas dificuldades para levá-la a sério. Nos Estados Unidos, vários milhões de pessoas sucumbiram a uma forma
extraordinária de delírio. No século XIX, dois pregadores imigrantes reuniram
uma série de passagens dispersas da Bíblia para criar o que parece ser uma
narrativa consistente: Jesus voltará à terra quando certas condições tiverem
sido satisfeitas. A primeira dessas condições era a criação do estado de
Israel. A seguinte dizia respeito à ocupação, por parte de Israel, das demais
“terras bíblicas” (a maioria delas situadas no Oriente Médio), e a
reconstrução do Terceiro Templo, no local agora ocupado pelas mesquitas do
Domo do Rochedo e Al-Aqsa. As legiões do Anticristo, então, serão formadas
contra Israel, levando a guerra ao confronto final, no vale de Armageddon. Os
judeus, em seguida, serão ou queimados ou convertidos ao Cristianismo, e o
Messias voltará à Terra. O que torna a história tão fascinante para os fundamentalistas
cristãos é que antes do início do grande confronto, todos os “crentes
verdadeiros” (ou seja, aqueles que acreditam naquilo que ELES acreditam)
serão elevados para fora das suas roupa e arrebatados para o céu, durante um
evento chamado de “The Rapture” [o êxtase ou o enlevo]. Não somente os dignos
se sentarão ao lado direito de Deus, como também poderão olhar, dos melhores
assentos, os seus opositores políticos e religiosos serem devorados por
fervuras, chagas, gafanhotos e sapos, durante os sete anos de Tribulação que
se seguirão. Os verdadeiros crentes estão agora procurando fazer com que isso
aconteça efectivamente. Isso significa encenar confrontos no sítio do velho
templo (no ano 2000, três cristãos dos EUA foram deportados por tentarem
fazer explodir as mesquitas naquele local) [4], patrocinar as colónias
judaicas nos territórios ocupados, exigir ainda maior apoio dos EUA para
Israel, e procurar provocar a batalha final com o Mundo Muçulmano/Eixo do
Mal/Nações Unidas/União Europeia/França, ou sejam quais forem as legiões do
Anticristo. Os crentes estão convencidos de que, em breve, serão recompensados
pelos seus esforços. Aparentemente, o Anticristo já se encontra entre nós, no
semblante de Kofi Annan, Javier Solana, Yasser Arafat ou, mais
plausivelmente, Silvio Berlusconi [5]. A corporação Walmart é também séria
candidata (na minha opinião, uma excelente candidata), pois ela quer
rádio-etiquetar o seu estoque, expondo assim a humanidade à Marca da Besta
[6]. Se você clicar em www.raptureready.com,
poderá ficar a saber quanto falta para poder voar para o espaço de pijama. Os
infiéis entre nós deveriam observar que o Índice de Enlevo [Rapture Index]
se encontra em 144, somente um ponto abaixo do limiar crítico, depois do qual
o céu estará repleto de nudistas flutuantes. O Governo da Besta, O Tempo
Meteorológico Louco e Israel estão a ser negociados pelo máximo de cinco
pontos (a União Europeia está a debater a sua constituição, houve um furacão
bastante fraco no Atlântico Sul, o Hamas jurou vingar‑se do
assassinato dos seus líderes), mas actualmente a segunda vinda está a ser
adiada por um infeliz declínio no abuso de drogas entre adolescentes e uma
fraca performance do Anticristo (ambos juntos marcam apenas dois pontos). Podemos rir dessas pessoas, mas não podemos ignorá-las. Que as suas
crenças sejam doidas não significa que elas são marginais. Responsáveis por
sondagens nos EUA acreditam que entre 15 e 18% dos eleitores dos EUA
pertencem a igrejas ou movimentos que endossam esses ensinamentos [7]. Uma
pesquisa de 1999 indicava que essa cifra incluía 33% dos republicanos [8]. Os
livros contemporâneos que são os maiores best-sellers nos EUA são os 12
volumes da série Deixados de lado [Left Behind], os quais
fornecem o que é geralmente descrito como relato “de ficção” do Enlevo (iste,
aparentemente, o distingue do outro), com inúmeros detalhes daquilo que
acontecerá para o resto de nós. As pessoas que crêem nisso, não acreditam só
um pouquinho; para elas, é uma questão de vida eterna e morte. E entre essas pessoas estão alguns dos homens mais poderosos dos EUA.
John Ashcroft, o ministro da Justiça, é um verdadeiro crente, assim como
vários senadores proeminentes e o líder da maioria da Casa dos
Representantes, Tom DeLay. O Sr. DeLay (que é também o co-autor de uma emenda
maravilhosamente baptizada DeLay-Doolittle Amendment [N.T.: em inglês,
‘Delay’ significa ‘atraso’ e ‘Do little’ significa ‘faz pouco’], postergando
as reformas de financiamento das campanhas eleitorais) viajou a Israel no ano
passado, para dizer ao Knesset que «não existe meio termo, nem posição
moderada que valha a pena tomar» [9]. Assim, temos um importante segmento eleitoral — representando em
grande parte a base eleitoral actual do presidente — na nação mais poderosa
da terra, que está activamente buscando provocar uma nova guerra mundial. Os
seus membros vêem a invasão do Iraque como uma acção de aquecimento, como a
sugerida em Revelações (9:14-15), onde se sustenta que quatro anjos
«circunscritos ao grande rio Eufrates» serão liberados para «massacrar um
terço dos homens». Eles batem à porta da Casa Branca tão logo esta vacila no
seu apoio a Israel: quando Bush pediu a Ariel Sharon que retirasse os seus tanques
de Jenin em 2002, ele recebeu 100.000 emails irados de fundamentalistas
cristãos, e nunca mencionou de novo a questão [10]. O cálculo eleitoral, por mais louco que possa parecer, funciona desse
modo. Os governos permanecem ou caem devido a questões domésticas. Para 85%
do eleitorado dos EUA, o Médio Oriente é uma questão de relações estrangeiras
e, portanto, de interesse secundário quando vão votar. Para 15% do
eleitorado, o Médio Oriente não é apenas uma questão doméstica, mas um
problema pessoal: se o presidente falhar em dar início a uma conflagração por
lá, os seus eleitores de base não vão obter um assento à direita de Deus. Por
outras palavras, Bush acaba por perder menos votos se encorajar a agressão de
Israel do que se procurar restringi‑la. Ele seria louco se desse
ouvidos a essas pessoas. Seria louco também se não as ouvisse. _____________ [1] http://www.harriscountygop.com/sections/sdconv/sdconv.asp [2] eg. Committee
on Resolutions, Harris County Republican Party, 27th March 2004. Final
report of Senatorial District 17 Convention http://www.harriscountygop.com/sections/sdconv/sdconv.asp. [3] ibid. [4] Paul Vallely,
7th September 2003. The Eve of Destruction. The Independent on Sunday. [5] eg. http://www.raptureready.us [6] eg. http://www.raptureready.com/rap16.html (nota: 5 e 6 são sites rivais) [7] Megan K. Stack,
31st July 2003. House's DeLay Bonds With Israeli Hawks, Los Angeles
Times; Matthew Engel, 28th October 2002. Meet the new Zionists. The
Guardian; Paul Vallely, ibid. [8] Donald E.
Wagner, 28th June 2003. Marching to Zion: the evangelical-Jewish alliance.
Christian Century. [9] Leader, 1st
August 2003. DeLay's Foreign Meddling. Los Angeles
Times. [10] Jane Lampman,
18th February 2004. The End of the World. The Christian Science
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