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29/07/2003 «A morte de Uday e Qusay», disse o comandante das forças terrestres
no Iraque para os repórteres na quarta-feira, «vai ser, definitivamente, uma
viragem para a resistência» [1]. Bem, foi uma viragem, mas infelizmente não
do tipo que ele imaginava. No dia em que ele fez essa declaração, insurgentes
iraquianos mataram um soldado dos EUA e feriram outros seis. No dia seguinte,
mataram outros três; durante o fim de semana, assassinaram cinco e feriram
sete. Ontem, massacraram mais um e feriram três. Essa foi a pior semana para
os soldados dos EUA no Iraque, desde que George Bush declarou que a guerra
tinha acabado. Poucas pessoas acreditam que a resistência naquele país esteja a ser
coordenada por Saddam Hussein e a sua nociva família, ou de que chegará a um
final quando eles forem mortos. Mas entre essas poucas pessoas parecem estar
incluídos os comandos civis e militares das forças armadas dos EUA. Pela
centésima vez, desde que os EUA invadiram o Iraque, os prognósticos feitos
por aqueles que têm acesso à inteligência, revelaram-se menos confiáveis do
que os prognósticos feitos por aqueles sem acesso a ela. E, pela centésima
vez, a inexactidão das previsões oficiais tem sido atribuída a “falhas na
inteligência”. A explicação está a ficar cada vez mais desgastada. Será que esperam
que acreditemos que os membros dos serviços de segurança dos EUA são as
únicas pessoas que não podem ver que muitos iraquianos querem ver‑se
livres do exército dos EUA, com o mesmo fervor como queriam livrar‑se
de Saddam Hussein? O que está a faltar ao Pentágono e à Casa Branca não é
inteligência (ou, pelo menos, do tipo de inteligência que estamos a considerar
aqui), mas receptividade. Não há falha de informação, mas falha de ideologia. Para entendermos porque a falha persiste, precisamos antes
compreender a realidade, a qual tem sido raramente discutida na imprensa. Os
EUA já não são apenas uma nação. Agora, são uma religião. Os seus soldados
foram para o Iraque para libertar o povo não somente do seu ditador, do seu
petróleo e da sua soberania, mas também para libertá-los das trevas. Como
George Bush disse às suas tropas no dia em que anunciou a vitória: «Onde quer
que vocês se dirijam, vocês levam uma mensagem de esperança — uma mensagem
que é antiga e sempre nova. Nas palavras do profeta Isaías, «Para os cativos,
“que saiam”, e para aqueles na escuridão, “que sejam livres”» [2]. De forma que os soldados americanos não são mais somente combatentes
terrestres; eles se tornaram missionários. Não estão mais simplesmente
matando os inimigos; estão expelindo os demónios. As pessoas que
reconstruíram os rostos de Uday e Qusay Hussein, descuidadamente esqueceram‑se
de restaurar um par de pequenos chifres em cada sobrancelha, mas a ideia de
que esses eram oponentes que pertenciam a outro tipo de reino foi de qualquer
modo transmitida. Como todos os que enviam missionários ao estrangeiro, os
altos sacerdotes da América não podem conceber que os infiéis possam resistir
por meio do seu próprio livre arbítrio; quando se recusam a converter‑se,
é obra do demónio, no seu disfarce actual de ex-ditador do Iraque. Como Clifford Longley demonstra no seu fascinante livro Chosen
People (Povo Escolhido), publicado no ano passado, os pais fundadores dos
EUA, embora às vezes professassem de outra forma, sentiam que estavam a ser guiados
por um propósito divino [3]. Thomas Jefferson argumentava que o Grande Selo
dos Estados Unidos deveria representar os israelitas, «conduzidos por uma
nuvem de dia e por um pilar de fogo à noite» [4]. George Washington
proclamava, no seu discurso de inauguração, que cada passo em direcção à
independência era «caracterizado por alguma marca da providência» [5].
Longley argumenta que a formação da identidade americana foi parte de um
processo de “supersessão” [“supersession”]. A igreja Católica Romana
reivindicava que tinha suplantado os judeus como povo eleito, visto que os
judeus tinham sido repudiados por Deus. Os protestantes ingleses acusaram os
católicos de traírem a fé, e sustentavam que se tinham tornado os bem amados
do Senhor. Os revolucionários americanos acreditavam que os ingleses, por sua
vez, tinham quebrado o pacto: os americanos, agora, tinham‑se tornado
o povo escolhido, tendo o dever divino de entregar o mundo ao domínio de
Deus. Há seis semanas, como para demonstrar que essa crença persiste, George
Bush lembrou-se de um comentário de Woodrow Wilson. «A América», ele citou, «tem
em si uma energia espiritual para a libertação da humanidade, em relação à
qual nenhuma outra nação pode contribuir» [6]. Gradualmente, esta noção de eleição divina foi permeada com uma outra
ideia, ainda mais perigosa. Não só os americanos são o povo escolhido de
Deus; a América em si mesma é agora percebida como um projecto divino. No seu
discurso presidencial de despedida, Ronald Reagan falou do seu país como da «cidade
que brilha no topo da colina», uma referência ao Sermão da Montanha [7]. Mas
o que Jesus estava a descrever não era a Jerusalém temporal, mas o reinado
dos céus. No relato de Reagan, não somente o reino de Deus podia ser
encontrado nos Estados Unidos da América, como também a esfera do inferno
podia agora ser localizada na esfera terrestre: o “império do mal” da União
Soviética, contra o qual os Seus santos guerreiros deveriam ser lançados. Desde os ataques a Nova Iorque, essa noção da ‘América, a divina’ tem
sido estendida e refinada. Em Dezembro de 2001, Rudy Giuliani, o prefeito da
cidade, fez o seu principal discurso na St. Paul's Chapel, perto do local das
torres destruídas. Proclamou: «Tudo o que importa é que vocês abracem a
América e compreendam os seus ideais e tudo aquilo de que se trata. Abraham
Lincoln costumava dizer que o teste do americanismo de um indivíduo era… o
quanto ele acreditava na América. Porque somos como uma religião, na realidade.
Uma religião secular» [8]. A capela na qual ele fez o seu discurso tinha sido
consagrada não só por Deus, como também pelo facto de que George Washington
tinha, um dia, rezado lá. Agora, disse ele, «era uma terra consagrada para
que as pessoas pudessem sentir o que era a América» [9]. Os Estados Unidos da
América não precisam mais clamar por Deus; são Deus, e aqueles que forem ao
estrangeiro difundir a luz, fazem‑no em nome de um domínio divino. A
bandeira tornou‑se tão sagrada quanto a Bíblia; o nome da nação tão
sagrado quanto o nome de Deus. A presidência está a tornar‑se um
sacerdócio. Portanto, aqueles que questionam a política externa de George Bush já
não são meros críticos; são blasfemadores, ou “anti-americanos”. Os estados
estrangeiros que procuram mudar essa política estão a perder o seu tempo:
pode-se negociar com políticos; não se pode negociar com sacerdotes. Os EUA
têm uma missão divina, como Bush sugeriu em Janeiro: «defender... as esperanças
de toda a humanidade» [10], e expurgar todos os que anseiam por algo que não
seja o American way of life. Os perigos da divindade nacional não precisam de maiores explicações.
O Japão foi à guerra nos anos 30 convencido, como George Bush, de que detinha
a missão enviada pelos céus de “libertar” a Ásia e estender o domínio do seu
império divino. Seria, como tinha previsto o teórico fascista Kita Ikki: «iluminar
as trevas do mundo todo» [11]. Aqueles que procuram arrastar os céus para a
terra estão destinados somente a engendrar um inferno. _______________ [1] Lt. Gen. Ricardo Sanchez, Commander,
Coalition Ground Forces, 23rd July 2003. Briefing on the Confirmation of
the Deaths of Uday and Qusay Hussein http://www.defenselink.mil/news/Jul2003/g030723-D-6570C.html
[2] President George W Bush, 1st May 2003. Address
to troops on the USS Abraham Lincoln. [3] Clifford Longley, 2002. Chosen People:
the big idea that shapes England and America. Hodder and Stoughton,
London. [4] Thomas Jefferson, citado
em Longley, ibid. [5] George Washington, citado em Longley,
ibid. [6] President George W Bush, 21st May 2003. Remarks
to the United States Coast Guard Academy, New London, Connecticut. [7] Ronald Reagan, citado em Longley,
ibid. [8] Rudy Giuliani, citado em Longley,
ibid. [9] ibid. [10] President George W. Bush, 28th January
2003. State of the Union Address. The US Capitol. [11] Kita Ikki, citado em Piers Brendon, 2000. The Dark Valley: a panorama of the 1930s. Pimlico, London. |