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06/08/2002 Há algo quase cómico na perspectiva de George Bush de declarar guerra
a outra nação, por aquela nação ter desafiado o direito internacional. Desde
que o Sr. Bush foi empossado, o governo dos EUA tem rasgado mais tratados
internacionais e ignorado mais convenções da ONU do que o resto do mundo
conseguiu fazer em vinte anos. Esse governo aniquilou a convenção de armas biológicas, ao realizar
experiências, ilegalmente, com as suas próprias armas biológicas. Recusou-se
a conceder aos inspectores de armas químicas livre acesso aos laboratórios, e
destruiu as tentativas de relançar as inspecções químicas no Iraque. Rasgou o
tratado de mísseis antibalísticos e parece estar pronto para violar o tratado
de banimento de testes nucleares. Permitiu que as tropas de choque da CIA recomeçassem
operações encobertas, do tipo das que incluíram, no passado, o assassinato de
chefes de estado de países estrangeiros. Sabotou o tratado de armas leves,
debilitou o tribunal penal internacional, recusou-se a assinar o protocolo de
mudança climática e, no mês passado, procurou imobilizar a convenção internacional
sobre a tortura, de modo a poder manter os observadores internacionais fora
do campo de prisioneiros da baía de Guantánamo. Até mesmo a sua preparação
para ir à guerra contra o Iraque, sem um mandato do Conselho de Segurança da
ONU, é um desafio ao direito internacional muito mais grave do que o não cumprimento
de Saddam Hussein em relação aos inspectores de armas da ONU. Mas, na verdade, a declaração de guerra iminente do governo dos EUA
não tem nada a ver com as inspecções de armas. No sábado, John Bolton, o funcionário
dos EUA encarregado, hilariantemente, do “controle de armas”, disse no
programa Today que «a nossa política… insiste numa mudança de regime em
Bagdade e essa política não será alterada, com ou sem inspectores». A
justificação do governo dos EUA para atacar Saddam mudou duas vezes. No
começo, o Iraque era identificado como alvo potencial porque estava «a prestar
assistência à Al-Qaeda». Ficou comprovado que isso não era verdade. Depois, o
governo dos EUA reivindicou que o Iraque devia ser atacado porque poderia
desenvolver armas de destruição em massa, e recusava-se a permitir que os
inspectores de armas pudessem constatar o facto. Agora que a evidência
prometida não se materializou, a questão das armas foi abandonada. O novo motivo
para a guerra é a própria existência de Saddam Hussein. Isso, pelo menos, tem
a vantagem de ser verificável. Nesse ponto, fica óbvio que a decisão de
declarar guerra ao Iraque vem em primeiro lugar, a justificação, depois. Além da velha questão do fornecimento de petróleo, essa é uma guerra
sem um propósito estratégico. O governo dos EUA não teme Saddam Hussein, por
mais que tente assustar o seu próprio povo. Não há evidência de que o Iraque
patrocine o terrorismo contra a América. Saddam está cansado de saber que se
atacar outra nação com armas de destruição em massa, poderá esperar uma
aniquilação nuclear. Ele não representa uma maior ameaça ao mundo hoje do que
nos últimos dez anos. Mas o governo dos EUA tem várias razões domésticas urgentes para ir à
guerra. A primeira é que atacar o Iraque dá a impressão de que a “guerra
contra o terror” está a ir para algum lugar. A segunda é que as pessoas de
todas as nações superdominantes amam a guerra. Como Bush descobriu no
Afeganistão, golpear estrangeiros faz ganhar votos. Associada a essa
preocupação está a necessidade de desviar a atenção dos escândalos
financeiros nos quais estão emaranhados tanto o presidente quanto o seu vice.
Em relação a isso, a guerra iminente parece já estar a funcionar muito bem. Os EUA também possuem um amplo complexo industrial-militar, o qual
está em constante necessidade de conflito para poder justificar a sua
assombrosamente custosa existência. Talvez mais importante do que qualquer um
desses factores, os falcões que controlam a Casa Branca percebem que a guerra
perpétua resulta em procura perpétua dos seus serviços. E é difícil achar uma
fórmula melhor para a guerra perpétua, com os terroristas e as outras nações
árabes, do que a invasão do Iraque. Os falcões sabem que eles vencerão, perca
quem perder. Em outras palavras, se os EUA não estivessem a preparar‑se
para atacar o Iraque, estariam a preparar‑se para atacar outra nação.
Os EUA irão à guerra contra aquele país porque precisam de um país contra o
qual ir à guerra. Tony Blair também tem várias razões urgentes para apoiar a invasão.
Apaziguando George Bush, ele aplaca a imprensa de direita inglesa. Ficando ao
lado de Bush, ele pode sustentar a sua pretensão de liderança global com mais
credibilidade do que os outros líderes europeus, enquanto defende a posição
anómala da Grã-Bretanha como membro permanente do Conselho de Segurança.
Dentro da Europa, o seu relacionamento com o presidente confere‑lhe um
papel eminente de corrector e intérprete do poder. Ao invocar o “relacionamento especial”, Blair também evita o maior
desafio que um primeiro‑ministro inglês teve que enfrentar desde a
Segunda Guerra Mundial. Esse desafio é o de reconhecer e agir sobre a
conclusão de qualquer análise objectiva do poder global: nomeadamente, que a
maior ameaça à paz mundial não é Saddam Hussein, mas George Bush. A nação que
no passado foi nossa amiga mais firme está a tornar‑se, ao invés, a
nossa principal inimiga. Enquanto o governo EUA descobre que pode ameaçar e atacar outras
nações com impunidade, seguramente logo começará a ameaçar países que têm
sido nossos aliados. Pois a sua insaciável procura de recursos provoca
aventuras coloniais ainda mais ousadas e acabará interferindo directamente
com os interesses estratégicos de outros estados quase-imperiais. Enquanto
recusa assumir a responsabilidade pelas consequências do uso daqueles
recursos, ameaça o resto do mundo com um desastre ecológico. Passou a
desdenhar outros governos, e está pronto para descartar qualquer tratado ou
acordo que lhe impeça atingir seus objectivos estratégicos. Está a começar a
construir uma nova geração de armas nucleares, e parece estar pronto para
usá-las preventivamente. Poderia estar prestes a acender um inferno no Médio Oriente,
para o qual seria sugado o resto do mundo. Os EUA, em outras palavras, comportam-se como qualquer outro poder
imperial. Poderes imperiais expandem os seus impérios até que se deparam com
uma resistência esmagadora. Abandonar esse relacionamento especial significaria aceitar que isto
está a ocorrer. Aceitar que os EUA representam um perigo para o resto do
mundo seria reconhecer a necessidade de resistir. Resistir contra os EUA
seria a inversão mais ousada da política do governo britânico em mais de 60
anos. Não podemos resistir aos EUA nem por meios militares nem por meios económicos, mas podemos resistir diplomaticamente. A única resposta segura e sensata ao poder americano é a política de não-cooperação. A Grã-Bretanha e o resto da Europa deveriam impedir, a nível diplomático, todas as tentativas dos EUA de agir unilateralmente. Deveríamos lançar iniciativas independentes para resolver a crise do Iraque e o conflito entre Israel e a Palestina. E deveríamos cruzar os dedos e torcer para que a combinação de má-administração, capitalismo tipo ganguester e despesas militares excessivas reduzirá o poder da América de modo que ela pare de usar o resto do mundo como se fosse o seu capacho. Só quando os EUA aceitarem o seu papel como nação cujos interesses devem estar equilibrados com os das demais nações, poderemos retomar a amizade, fundada, uma vez, mesmo que brevemente, em princípios de justiça. |