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14/05/2002 A persuasão funciona melhor quando é invisível. O marketing mais
eficaz penetra rastejando para dentro da nossa consciência, deixando intacta
a percepção de que formamos as nossas opiniões e fizemos as nossas escolhas
de modo independente. Tão antiga quanto a própria humanidade, durante os
últimos anos essa abordagem foi aprimorada, com a ajuda da Internet, numa
técnica chamada “marketing viral”. No mês passado, os vírus parecem ter
assassinado o seu hospedeiro. Uma das mais importantes publicações
científicas foi persuadida a fazer algo que nunca tinha sido feito antes, e
retractar um trabalho que tinha publicado. Enquanto no passado as empresas criavam falsos grupos de cidadãos
para fazerem campanhas a favor do emporcalhamento de florestas ou da poluição
de rios, agora elas estão a criar falsos cidadãos. Mensagens que dão a
entender que provêm de fontes imparciais são afixadas em sites e listservers
específicos em momentos críticos, disseminando informações enganadoras na
esperança de recrutarem pessoas reais para determinada causa. O trabalho de
detective efectuado pelo propagandista Jonathan Matthews e pelo jornalista
freelancer Andy Rowell mostra como uma empresa de relações públicas
contratada pela empresa de biotecnologia Monsanto parece ter tido um papel
crucial mas invisível na configuração do discurso científico. A Monsanto sabe melhor do que qualquer outra corporação quais são os
custos da visibilidade. Em 1997, as suas torpes tentativas de persuadir o
público a comer alimentos geneticamente modificados não fez mais do que
destruir o mercado para as suas safras. Determinada a nunca mais cometer o
mesmo erro, contratou os serviços de uma empresa que sabe como persuadir sem
dar a impressão de que está persuadindo. O Bivings Group especializa‑se
em lobby na Internet. Um artigo no seu website, intitulado Marketing
Viral: como infectar o mundo adverte que «há certas campanhas em relação
às quais seria indesejável ou mesmo desastroso deixar a audiência saber que a
sua organização está directamente envolvida... seria, simplesmente, uma acção
de relações públicas não inteligente. Nesses casos, é importante primeiro “ouvir”
o que está a ser dito online... Depois de estar conectado neste mundo, é
possível afixar informações nesses canais que apresentam a sua posição como
se você fosse uma terceira parte sem qualquer envolvimento parcial.... Talvez
a maior vantagem do marketing viral é que a sua mensagem é colocada num
contexto onde é mais provável que ela seja levada a sério». Um executivo sénior
da Monsanto é citado no site da Bivings, agradecendo à firma de RP pelo seu «formidável
trabalho». No dia 29 de Novembro do ano passado, dois pesquisadores da
Universidade da Califórnia, Berkeley, publicaram um artigo na revista Nature,
onde afirmavam que o milho nativo do México tinha sido contaminado, através
de um extenso território, por pólen geneticamente modificado. O artigo foi um
desastre para as empresas biotecnológicas que procuravam persuadir o México,
o Brasil e a União Europeia a suspender os seus embargos às safras
geneticamente modificadas. Mesmo antes da publicação, os pesquisadores sabiam que o seu trabalho
era perigoso. Um dos pesquisadores, Ignacio Chapela, foi abordado pelo director
de uma corporação mexicana, que primeiro lhe ofereceu uma brilhante posição
como pesquisador se ele retivesse o seu artigo, depois lhe disse que sabia
onde poderia encontrar os seus filhos. Nos EUA, os oponentes de Chapela
optaram por uma forma diferente de assassinato. No dia em que o artigo foi publicado, começaram a aparecer mensagens
num site usado por mais de 3000 cientistas, chamado AgBioWorld. A primeira
mensagem chegou de uma correspondente chamada “Mary Murphy”. Chapela faz
parte da directoria da Rede de Acção contra os Pesticidas [Pesticide
Action Network], e portanto, alegou ela, «não exactamente o que seria
considerado um escritor imparcial». A mensagem dela foi seguida de outra,
enviada por uma certa “Andura Smetacek”, reivindicando, falsamente, que o
artigo de Chapela não tinha sido revisto por colegas profissionais
competentes, que ele era «em primeiro lugar e antes de mais nada um activista»,
e que a pesquisa tinha sido publicada em conluio com ambientalistas. No dia
seguinte, outro email de “Smetacek” perguntava aos assinantes do site, «quanto
dinheiro Chapela recebe por palestra, reembolsos de viagem e outras doações
... pela ajuda que ele presta trapaceando com campanhas de marketing baseadas
no medo?» As mensagens de Murphy e Smetacek estimularam centenas de outras,
algumas das quais repetiam ou reforçavam as acusações feitas por elas.
Biotecnologistas sénior pediram que Chapela fosse despedido de Berkeley. O
AgBioWorld lançou uma petição apontando as «falhas fundamentais» do artigo. Parece que existem problemas metodológicos com a pesquisa publicada
por Chapela e o seu colega David Quist, mas isto está longe de ser algo
inédito numa revista científica. Toda a ciência é, e deveria ser, sujeita a
contestação e refutação. Mas neste caso, a pressão feita contra a revista
Nature foi tanta que o seu editor fez algo sem paralelo nos 133 anos de
história da mesma: no mês passado, a revista publicou, junto com dois artigos
que contestavam a pesquisa de Quist e Chapela, uma retractação, na qual
escreveu que a pesquisa em questão nunca deveria ter sido publicada. Portanto, a campanha contra os pesquisadores foi extraordinariamente
bem sucedida; mas quem, exactamente, começou a campanha? Quem são “Mary
Murphy” e “Andura Smetacek”? Ambas afirmam ser cidadãs comuns, sem ligação com qualquer corporação.
O Bivings Group afirma «não ter qualquer conhecimento delas». “Mary Murphy”
usa uma conta hotmail para enviar mensagens à AgBioWorld. Mas uma mensagem
satirizando os oponentes da biotecnologia, enviada por “Mary Murphy” a partir
do mesmo endereço hotmail a um outro listserver, há dois anos, contém a
identificação bw6.bivwood.com. Bivwood.com é propriedade da Bivings Woodell,
que é parte do Bivings Group. Quando eu lhe escrevi perguntando se era
funcionária da Bivings e se Mary Murphy era o seu nome real, ela respondeu
que «não tinha ligações com o sector». Mas recusou-se a responder às minhas
perguntas alegando: «Posso ver, pelos seus artigos, que há muito tempo você
tem uma posição definida sobre biotecnologia». O interessante nessa resposta
é que a minha mensagem não tinha sequer mencionado a palavra biotecnologia.
Eu tinha dito simplesmente que estava a pesquisar um artigo sobre lobby na Internet. Smetacek tem, em diferentes ocasiões, dado o seu endereço como sendo “Londres”
e “Nova Iorque”. Mas nas listas eleitorais, listas telefónicas e registros de
cartão de crédito tanto de Londres como de todos os EUA não consta ninguém
com o nome “Andura Smetacek”. O nome dela aparece somente no site AgBioWorld
e em outros listservers, nos quais ela afixou um grande número de mensagens
acusando grupos como o Greenpeace de terrorismo. As cartas que enviei para
ela não obtiveram nenhuma resposta. Mas uma dica sobre a sua possível
identidade é sugerida pela sua constante promoção do “Centro para a Pesquisa
Alimentar e Agrícola” [Center For Food and Agricultural Research].
Parece que o centro não existe, excepto como website, onde os “verdes” são
repetidamente acusados de tramar violência. Cffar.org está registrado sob o
nome de alguém chamado Manuel Theodorov. Manuel Theodorov é o “director de
associações” da Bivings Woodell. Até mesmo o website onde foi lançada a campanha contra a revista
Nature atraiu suspeitas. O seu moderador, o fanático por biotecnologia
Professor CS Prakash, afirma não ter qualquer ligação com o Bivings Group.
Mas quando Jonathan Matthews estava a pesquisar os arquivos do site, ele
recebeu a seguinte mensagem de erro: «não é possível efectuar a conexão com o
server MySQL da “apollo.bivings.com”» [can’t connect to MySQL server on “apollo.bivings.com”].
Apollo.bivings.com é o servidor principal do Bivings Group. «Às vezes», gaba-se Bivings, «ganhamos recompensas. Às vezes, somente o cliente sabe o papel preciso que desempenhamos». Às vezes, em outras palavras, pessoas reais não têm a mínima ideia de que estão a ser dirigidas por pessoas falsas. |