Informação Alternativa

Médio Oriente

09/04/2002

 

Do Banco Mundial à Cisjordânia

 

George Monbiot

 

Dois tipos de escudos humanos estão a ser usados na Cisjordânia. O primeiro é o menos voluntário. O exército israelita, como alguns dos grupos terroristas que combate, tem mantido reféns. Os seus soldados têm forçado civis palestinos para fora dos seus supostamente suspeitos edifícios, de modo que os atiradores que se encontrarem eventualmente no interior desses edifícios tenham que atirar nos civis, se quiserem responder aos tiros recebidos.

 

O segundo tipo de escudo humano optou por colocar-se deliberadamente na linha de fogo. Desde que começou a ofensiva do exército israelita na Cisjordânia, centenas de manifestantes pacifistas israelitas, assim como activistas estrangeiros têm tentado colocar­‑se no seu caminho. Correndo um grande risco pessoal, membros do Movimento de Solidariedade Internacional têm procurado proteger a população civil, tornando-se reféns voluntários. Trata-se de uma demonstração extraordinária de coragem e auto-sacrifício. É também a última encarnação de um movimento que há apenas alguns meses atrás era dado como morto.

 

O movimento ao qual pertencem muitos dos activistas da paz, os quais estão arriscando as suas vidas em Ramallah e Belém, não tem nome. Algumas pessoas baptizaram­‑no de anti-globalização ou anti-corporações ou de campanha anti­‑capitalista. Outros preferem enfatizar a sua agenda positiva, chamando-o de movimento pela democracia ou movimento internacionalista. Mas como os seus membros sempre colocaram a prática à frente da teoria, eles tornaram muito difícil uma categorização. Onde quer que pareça estar assumido uma identidade que possa ser compreendida pelas pessoas estranhas a ele, metamorfoseia-se em outra coisa. É impulsionado por uma política nova e responsiva, enformado não pela ideologia, mas pela necessidade.

 

Depois do 11 de Setembro, essa coisa-sem-nome parecia ter ido para o espaço, tão rapidamente quanto tinha emergido. As grandes demonstrações planejadas para o final de Setembro contra o Banco Mundial e o FMI em Washington tornaram­‑se uma marcha pequena e bastante tímida pela paz. A maioria dos activistas dos EUA, intimidados pelo novo mccartismo que tem dominado o discurso americano desde o ataque em Nova Iorque, manteve a cabeça baixa. Os comentadores desqualificaram o movimento como uma moda passageira que tinha ondulado pela juventude mundial, tão difundida quanto insubstancial, como a Coca Diet ou o Nike swoosh.

 

Mas aqueles que desqualificaram o movimento dessa forma falharam em compreender tanto a seriedade das suas intenções quanto a amplitude da sua base de apoio. As câmaras de televisão sempre centradas em algumas centenas de jovens vestidos de negro e criando tumulto, entrecortados ocasionalmente por um carnaval mais amplo de protestos. Mas elas raramente permitiram aos seus participantes explicar o sentido do propósito que os impelia. Assim, a maioria dos de fora falharam em ver que o empenho das muitas pessoas envolvidas nesses protestos não é negociável. O movimento não tem maior probabilidade de desaparecer do que os governos ou as corporações que confronta. A sua sobrevivência está garantida pela sua habilidade de se transformar naquilo que ele precisa ser.

 

No mês passado, 250.000 manifestantes viajaram a Barcelona para contestar o assalto às leis de emprego e ao sector público que estão a ser conduzidas por Tony Blair, Silvio Berlusconi e José Maria Aznar. Neste mês, alguns deles dirigiram­‑se à Palestina. Entre os participantes do contingente britânico encontram­‑se pessoas que ajudaram a organizar as campanhas contra o poder das corporações, a engenharia genética e a mudança climática. A eles juntaram-se esta semana membros da organização italiana Ya Basta, os quais ajudaram a coordenar os protestos em Génova. Para o movimento que desabrochou em Seattle, o Banco Mundial [World Bank] e a Cisjordânia [West Bank] pertencem ao mesmo território político.

 

Se os manifestantes simplesmente se deslocassem como uma horda de um ponto para o outro, os seus esforços poderiam ser piores do que inúteis. Mas uma das lições fundamentais que esse movimento de rápido amadurecimento aprendeu é que o protesto é efectivo somente se for construído sobre a base dos esforços dos especialistas. Como a maioria dos povos da terra, os estrangeiros na Cisjordânia tornaram­‑se visíveis quando começaram a sangrar (cinco participantes britânicos foram feridos na semana passada pelas balas de fragmentação ilegais do exército israelita), mas alguns estrangeiros têm trabalhado na região há décadas. Os recém­‑chegados juntam­‑se às redes bem estabelecidas há muito tempo e fazem o que lhes dizem para fazer. Entre as balas e os bulldozers, o movimento está a descobrir uma coragem, suspeitada de longa data, mas raramente testada.

 

Os manifestantes foram para as casas de pessoas ameaçadas de bombardeio pelo exército israelita, garantindo que os soldados não possam atacar palestinianos sem atacar estrangeiros igualmente. Eles têm ficado dentro de ambulâncias levando os doentes ou feridos para o hospital, na esperança de acelerar a passagem através dos pontos de controle israelitas e prevenindo actos violentos da parte dos soldados contra os ocupantes dos veículos. Eles têm tentado escoltar remessas de comida e remédios em bairros carentes de suprimentos e procurado encorajar ambos os lados a abandonar as armas em favor de soluções não-violentas. Em outras palavras, eles estão a tornar­‑se uma espécie de Nações Unidas de base tentando, com os seus parcos recursos, manter as promessas que os seus governos quebraram.

 

Talvez o mais importante é que os manifestantes da paz são os únicos estrangeiros a testemunhar, em alguns lugares, as atrocidades que estão a ser cometidas. Utilizando redes de notícias alternativas como a Indymedia e a Allsorts, eles foram capazes de chamar a atenção para eventos que a maioria dos jornalistas deixou passar despercebidos. Eles viram como palestinianos, informados pelo exército israelita de que o toque de recolher tinha sido suspendido, foram ou mortos pelos disparos ao pôr o pé fora das suas casas, ou prendidos e usados como escudos humanos. Eles testemunharam o saqueio de casas e a destruição deliberada dos mantimentos das pessoas. Eles viram ambulâncias e camiões de socorro a ser parados e esmagados. No dia 28 de Março, um manifestante pacifista viu soldados israelitas em jipes caçando mulheres e crianças que estavam a fugir pelos campos na periferia de Ramallah, tentando baleá-los a sangue frio. E, tornando-se eles mesmos a história, à medida que são espancados e baleados, esses estrangeiros trouxeram­‑na para casa, a pessoas antes indiferentes em relação ao assassinato e à mutilação das populações civis indígenas.

 

A chegada do movimento à Cisjordânia é um desenvolvimento orgânico das suas actividades em outras partes. Durante anos, o movimento tem contestado as políticas externas destrutivas dos governos mais poderosos do mundo, e os correspondentes fracassos das instituições multilaterais que deveriam contê-los. Mais do que ecoar a estrondosa mas ultrapassada reivindicação de comentadores de ambos os lados do Atlântico de que Yasser Arafat (um homem que nestes dias nem pode usar uma sanita) deveria eliminar o terror no Oriente Médio, os manifestantes estão, como sempre, dirigindo­‑se àqueles que detêm o poder real: Israel e os governos que fornecem o dinheiro e os armamentos que possibilitam a ocupação da Cisjordânia. O movimento tem sempre sido pragmático, pronto a protestar seja o tratamento dispensado por Burma ao seu povo tribal seja a expropriação dos tibetanos pelos chineses, ou a forma como o FMI está a lidar com a Argentina. Na Palestina, como no resto do mundo, está a tentar posicionar-se entre o poder e aqueles a quem o poder aflige.

 

O resto do mundo está a exigir que alguém faça alguma coisa a respeito do conflito no Oriente Médio. Os manifestantes pacifistas estão a fazer essa coisa.