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19/03/2002 Prezado Presidente Bush, Ao comemorar as vítimas dos ataques a Nova Iorque e Washington na
semana passada, o senhor conclamou que as disputas fossem «resolvidas dentro
dos limites da razão». O senhor insistiu que «cada nação na nossa coalizão
deve levar a sério a ameaça crescente» representada pelas armas químicas e
biológicas. O senhor garantiu‑nos que, quanto a essa questão, «não há
margem para erro, e não há oportunidade para se aprender com os erros
cometidos… a falta de acção não é uma opção». Esses são sentimentos que a
maioria da humanidade compartilha. Embora muitos de nós acreditemos que
atacar o Iraque intensificaria, ao invés de reduzir, a possibilidade de que
armas de destruição em massa sejam usadas, poucos questionariam o facto de
que os agentes químicos e biológicos representam um grave perigo para o
mundo. Dessa forma, nós os que nos encontramos noutras nações e que temos
seguido a questão estamos um tanto perplexos. Porque o senhor, que clama
querer construir «um mundo pacífico, depois da guerra ao terror», tem feito
tudo o que pode fazer para minar os esforços de controle dessas armas letais?
Porque os congressistas do seu partido tem repetidamente sabotado as
tentativas de garantir que os agentes biológicos e químicos sejam eliminados?
Em Dezembro, os seus negociadores rasgaram em pedaços o Tratado de
Armas Biológicas. O tratado de 1972, como é do seu conhecimento, era
impossível de implementar. Embora o tratado banisse o desenvolvimento e a
produção de armas biológicas, ele não continha nenhum mecanismo para garantir
que as suas regras fossem cumpridas. Portanto, por seis anos, 144 signatários
desenvolveram um “protocolo de verificação”, o qual permitiria que as Nações
Unidas examinassem instalações suspeitas de produção de armas biológicas. Em
Julho, o seu governo recusou assinar o protocolo Em Dezembro, o senhor
deliberadamente apressou as negociações, insistindo, no último minuto, que a
resolução fosse rescrita. Um representante europeu, referindo-se aos
compromissos que a sua delegação tinha feito antes da reunião, observou: «Eles
são mentirosos. Em décadas de negociações multilaterais, nunca presenciámos um
comportamento tão insultante». As suas acções tornaram inútil o tratado,
deixando o mundo desprotegido frente ao tipo de armas que o senhor diz querer
eliminar. Há quatro anos, os membros republicanos do Congresso, juntamente com
o governo Clinton, votaram em infligir dano semelhante ao Tratado de Armas
Químicas. Esse tratado já possuía os meios de forçar as nações a abrirem os seus
laboratórios à inspecção, que é o determinante fundamental de um controle de
armas eficaz. Mas em 1998, o seu partido decidiu que os EUA não deveriam
estar sujeitos a essas provisões. Aprovando uma legislação que bania a
remoção de amostras químicas dos EUA pelos inspectores internacionais de
armas; limitando o número de laboratórios que os EUA precisavam declarar e
permitindo ao presidente dos EUA recusar “inspecções desafiadoras” das suas
fábricas químicas, os congressistas republicanos eficazmente impediram a
aplicação do tratado em todo o mundo. Sob o seu mandato, até mesmo as
verificações de rotina foram pervertidas, visto que são os funcionários do
governo que dizem aos inspectores quais são as partes de uma instalação que
podem ser visitadas e que partes não, exactamente como Saddam Hussein fez no Iraque.
Outros países também usaram a sua intransigência como pretexto para minar o
tratado. Os EUA também se recusaram a pagar tanto o dinheiro necessário para a
inspecção de armas químicas, como os fundos requeridos para a remoção e a
invalidação de amplos arsenais de ogivas carregadas com agentes asfixiantes
na Sibéria ocidental, alguns dos quais se encontram em armazéns cuja única
segurança consiste em cadeados para bicicleta trancando as portas. Foi o seu
próprio senador, Pat Roberts, quem argumentou que os fundos prometidos não
deveriam ser emitidos, com base no facto de que essas armas «representam mais
uma ameaça ambiental à Russia do que uma ameaça de segurança aos EUA». Apesar
disso, a segurança nos depósitos está tão relaxada que ninguém sequer sabe quantas
ogivas se encontram lá. O senhor não deveria surpreender‑se de saber que muitos de nós
se têm perguntado porque as intenções que o senhor professa divergem tanto
das suas políticas. O senhor também não deveria ficar surpreso ao descobrir que
alguns de nós suspeitamos que os EUA devam ter alguns segredos letais
próprios, que o seu governo espera proteger do conhecimento público. Em Setembro do anos passado, o The New York Times reportou que
«o Pentágono construiu uma fábrica de germes que poderia produzir uma
quantidade de micróbios letais suficiente para dizimar cidades inteiras». O
objectivo da fábrica seria a defesa: os seus funcionários queriam saber com
que facilidade os terroristas poderiam fazer o mesmo. Contudo, ela foi
construída sem a supervisão do Congresso e sem uma declaração ao Tratado de
Armas Biológicas, em directa contravenção ao direito internacional.
Poderíamos, talvez, concordar que se os EUA tivessem descoberto uma fábrica
secreta como essa numa nação pobre, então o governo daquele país, caso
sobrevivesse à sua reacção inicial, teria sem dúvida muitas explicações a
fornecer. Mas o que é ainda mais preocupante é a recente descoberta de que o
seu governo tem planejado testar ogivas contendo micróbios vivos em grandes
câmaras de aerosol no Edgewood Chemical Biological Center, do Exército EUA,
em Maryland. Os especialistas desse sector dizem que a escala dessas
experiências sugere que eles não são defensivos, mas concebidos para ajudar a
desenvolver novas armas biológicas. É evidente também que alguns elementos do seu programa de defesa actual
infringem ambos os tratados que o seu governo e partido têm sabotado. O fungo
criado pela engenharia genética, desenvolvido para pulverização aérea na
Colômbia, qualifica-se simplesmente como arma biológica não-letal. E como os
seus alvos estratégicos naquele país vão além da eliminação de drogas,
estendendo-se à eliminação das forças rebeldes de esquerda, os pulverizantes
químicos que o senhor tem usado nas regiões que eles controlam têm sido empregados
como armas, como o agente laranja no Vietname. Os seus laboratórios militares
têm desenvolvido uma nova gama de “bactérias devoradoras de materiais”
produzidas pela engenharia genética e concebidas para destruir pistas de
aterrissagem, máquinas e o revestimento anti-radar dos caças-bombardeiros.
Apesar de não afectarem directamente os seres humanos, como o senhor teria
dificuldade em negar que essas são armas biológicas. O seu governo também se recusou a destruir os seus estoques de
varíola, e insistiu em desenvolver novas e mais letais variedades de antrax.
O senhor diz que isso é para propósitos meramente defensivos: estudar como
eles poderiam ser usados por forças inimigas, ou para desenvolver novos tipos
de vacinas. Mas a Federação de Cientistas Americanos adverte que parte dessa
nova pesquisa financiada pelo senhor poderia ser categorizada como “uso dual”:
poderia levar tão facilmente ao ataque como à defesa. Mesmo se nós
aceitássemos as garantias do seu governo de que esses programas são
exclusivamente destinados à defesa, é óbvio que eles estão gerando exactamente
os mesmos tipos de perigos que pretendem confrontar. Os ataques de antrax de
Outubro parecem ter sido lançados por um cientista de um dos seus próprios
laboratórios de guerra biológica, usando uma variedade desenvolvida pelo
Instituto de Pesquisa do Exército dos EUA. Sr. Presidente, o senhor diz que quer salvar o mundo das armas
químicas e biológicas. Com ou sem a ajuda dos nossos próprios líderes, o senhor
parece preparado para ir para a guerra em busca desse objectivo. Contudo,
seguramente o primeiro passo para se lidar com as armas de destruição em
massa é a destruição em massa das armas, não? E, seguramente, a sua campanha
para a paz mundial seria mais convincente se o senhor respeitasse os tratados
concebidos justamente para destruí-las? Atenciosamente, George Monbiot |