|
Informação Alternativa |
|
Estados
Unidos da América |
|
29/08/2006 Naomi Klein A Cruz Vermelha acabou de anunciar
uma nova parceria de resposta às catástrofes com a Wal-Mart. Quando o próximo
furacão atacar, será uma co‑produção da mega-caridade com o
mega-supermercado. Esta é, aparentemente, a lição
aprendida com a calamitosa resposta governamental ao furacão Katrina: o negócio
responde melhor às catástrofes. «No fim, tudo vai acabar nas mãos
do sector privado”, disse, em Abril, Billy Wagner, chefe de gestão de emergências
para a Florida Keys, que actualmente monitoriza a tempestade tropical
Ernesto. «Eles têm os conhecimentos. Ele têm os recursos». Mas antes de este novo consenso avançar,
talvez seja tempo de ver onde começou a privatização das catástrofes, e até
onde levará inevitavelmente. O primeiro passo foi a abdicação
governamental da sua responsabilidade fundamental de proteger a população das
catástrofes. Sob a administração Bush, sectores inteiros do governo, e em
particular do Departamento de Segurança Interna, foram sendo transformados em
santificadas agências de trabalho temporário, com funções essenciais
entregues a companhias privadas. A teoria é que os empresários, conduzidos
pela motivação do lucro, são sempre mais eficientes (por favor, suspendam o
riso histérico). Vimos os resultados em Nova Orleães:
Washington mostrou-se assustadoramente débil e incompetente, em parte porque
os seus especialistas de gestão de catástrofes tinham fugido para o sector
privado e porque as suas infra‑estruturas e tecnologia estavam
completamente ultrapassadas. Pelo menos por comparação, o sector privado
pareceu moderno e competente (um articulista do New York Times até
sugeriu entregar a FEMA à Wal‑Mart). Mas a lua‑de‑mel não
durou muito. “Para onde foi todo o dinheiro?”, perguntam as pessoas desesperadas,
de Bagdade a Nova Orleães, de Cabul ao Sri Lanka golpeado pelo tsunami. Uma
grande parte dele foi empregue em grandes despesas de capital destes grandes
contratistas privados. Largamente sob o radar público, gastaram-se milhares de
milhões de dólares de dinheiro dos contribuintes na construção de uma infra‑estrutura
privatizada de resposta às catástrofes: a ultra-moderna sede do Grupo Shaw em
Baton Rouge, os batalhões de equipamento de remoção de terra da Bechtel, o
campus de 2.400 hectares da Blackwater USA na Carolina do Norte (apetrechada com
um campo de treino paramilitar e uma pista de dois quilómetros). Eu chamo-lhe
o Complexo do Capitalismo das Catástrofes. Tudo o que você precisar quando
estiver em sérias dificuldades, estes contratistas podem fornecer: geradores,
tanques de água, camas, sanitas portáveis, casas móveis, sistemas de
comunicação, helicópteros, medicamentos, homens armados... Este Estado dentro do Estado foi construído
quase exclusivamente com dinheiro de contratos públicos, incluindo a formação
do seu pessoal (esmagadoramente, antigos funcionários, políticos e soldados).
E, no entanto, está tudo nas mãos dos privados; os contribuintes não têm
nenhum controlo ou reclamação sobre isso. Até agora, esta realidade não se evidenciou
porque ao mesmo tempo que estas companhias estão a ter as suas contas pagas
por contractos governamentais, o Complexo do Capitalismo das Catástrofes presta
os seus serviços ao público de uma forma gratuita. Mas aí está o problema: o governo
dos Estados Unidos está a ficar sem dinheiro, em grande medida graças a este
tipo de gastos descontrolados. A dívida nacional é de 8 biliões de dólares; o
défice do orçamento federal é de pelo menos 260 mil milhões de dólares. Isto
significa que mais cedo que tarde, os contratos vão secar. E ninguém sabe
melhor isso do que as próprias empresas. Ralph Sheridan, director executivo da
Good Harbor Partners, uma de centenas de novas companhias de contra‑terrorismo,
explica que «os gastos por parte de governos são esporádicos e chegam às bolhas».
Os que estão por dentro chamam‑lhe a “bolha da segurança interna”. Quando rebentar, empresas como a Bechtel,
a Fluor e a Blakwater vão perder a sua fonte primária de ingressos. Ainda
terão todo o seu equipamento de alta‑tecnologia, dando‑lhes a
capacidade para responder a catástrofes – enquanto o governo terá deixado
escapar essa preciosa capacidade – mas então venderão a infra‑estrutura
financiada com dinheiros públicos ao preço que quiserem. Eis uma imagem rápida do que
poderá ocorrer num futuro próximo: transporte de helicóptero dos telhados de
cidades inundadas (5.000 dólares por cabeça, 7.000 dólares por família,
animais de estimação incluídos), água engarrafada e “alimentos preparados”
(50 dólares por pessoa; caro, mas é a oferta e a procura) e uma cama num
refúgio (mostre-nos a sua identificação biométrica – criada graças a um
contrato lucrativo da Segurança Interna – e nós enviar‑lhe‑emos
depois a conta. Não se preocupe, nós temos os meios: a espionagem também foi terceirizada). O modelo é, evidentemente, o
sistema de saúde dos EUA, no qual os ricos podem ter acesso ao melhor dos tratamentos
em ambientes do tipo SPA, enquanto 46 milhões de norte-americanos não têm
seguro médico. Como resposta de emergência, o modelo já está a funcionar na
pandemia global da SIDA: o sector privado ajudou com proeza a criar
medicamentos salvadores de vidas (com substanciais subsídios públicos),
depois estabeleceu preços tão altos que a maioria dos infectados do mundo não
pode pagar o tratamento. Se esse é o historial mundial do
sector privado nas catástrofes em câmara lenta, porque haveríamos de esperar
que valores diferentes governassem as catástrofes de actuação rápida, como os
furacões e até os ataques terroristas? É bom lembrar que quando as bombas
israelitas zurziram o Líbano não há muito tempo, o governo dos EUA
inicialmente tentou cobrar aos seus cidadãos o custo das suas próprias
evacuações. Há um ano, os cidadãos pobres e a
classe trabalhadora de Nova Orleães estavam encalhados nos telhados das suas
casas à espera da ajuda que nunca chegou, enquanto aqueles que puderam pagar
a sua saída fugiram para a segurança. Os líderes políticos do país alegam que
foi tudo um erro terrível, uma quebra nas comunicações que está a ser
solucionada. A sua solução é ir ainda mais longe na via catastrófica das “soluções
do sector privado”. A não ser que uma mudança radical de curso seja exigida, Nova Orleães provará ser um vislumbre de um futuro distópico, um futuro de apartheid das catástrofes no qual os ricos são salvos e todos os outros são deixados para trás. |