Informação Alternativa

EUA

26/09/2005

 

Deixem o povo reconstruir Nova Orleães

 

Naomi Klein

The Nation

 

No dia 4 de Setembro, seis dias depois do golpear do Katrina, vi o primeiro assomo de esperança. «As pessoas de Nova Orleães não se esfumarão em silêncio, dispersando-se por todo o país para se converter em gente sem lar em incontáveis cidades enquanto os fundos de ajuda federal se canalizam para reconstruir casinos, hotéis, plantas químicas... Não ficaremos quietos enquanto se usa este desastre como uma oportunidade para substituir os nossos lares com novas mansões e condomínios numa Nova Orleães elitizada».

 

A declaração proveio da Community Labor United, uma coligação de grupos de baixos rendimentos em Nova Orleães. Prosseguia exigindo que uma comissão de evacuados «vigie a FEMA [siglas em inglês de Agência Federal de Manejo de Emergências], a Cruz Vermelha e outras organizações que colectam recursos a favor da nossa gente... Fazemos um apelo a que os evacuados da nossa comunidade participem activamente na reconstrução de Nova Orleães».

 

É um conceito radical: os 10 mil 500 milhões de dólares aprovados pelo Congresso e os 500 milhões de dólares arrecadados por organizações caritativas privadas não pertencem às agências de ajuda ou ao governo: pertencem às vítimas. As agências a quem se confia o dinheiro devem prestar­‑lhes contas. Posto doutro modo, as pessoas que Barbara Bush descreveu com tacto como «menos privilegiados de qualquer modo», acabam de se tornar muito ricas.

 

Só que a ajuda e a reconstrução nunca parecem funcionar assim. Quando estive no Sri Lanka, seis meses depois do tsunami, muitos sobreviventes disseram­‑me que a reconstrução estava a vitimizá­‑los de novo. Um conselho dos homens de negócios mais eminentes do país tinha sido posto a cargo do processo, e eles estavam a entregar a costa a passo acelerado aos promotores de turismo. Entretanto, centenas de milhares de pescadores pobres estavam ainda atolados em asfixiantes acampamentos terra adentro, patrulhados por polícias com metralhadoras e totalmente dependentes das agências de ajuda para obter alimentos e água. Chamavam à reconstrução “o segundo tsunami”.

 

Já há sinais de que os evacuados de Nova Orleães poderiam enfrentar uma segunda tormenta igualmente brutal. Jimmy Reiss, presidente do Conselho de Negócios de Nova Orleães, disse à Newsweek que teve uma chuva de ideias a respeito de como «usar esta catástrofe como uma oportunidade num milhão para mudar a dinâmica». A lista de desejos do Conselho de Negócios é bem conhecida: baixos salários, baixos impostos, mais condomínios de luxo e hotéis. Antes da inundação já esta visão de alta rentabilidade estava a deslocar milhares de afro­‑americanos pobres: enquanto a sua música e cultura estava à venda no crescentemente corporativo Bairro Francês (onde só 4,3 porcento dos residentes são negros), os seus conjuntos habitacionais eram demolidos. «Para turistas e empresários brancos, a reputação de Nova Orleães é: “um grande lugar para fazer férias, mas não saias do Bairro Francês ou levarás um tiro”», disse-me Jordan Flaherty, um activista do trabalho, um dia depois de sair da cidade em bote. «Agora os promotores têm uma grande oportunidade para dispersar o obstáculo à elitização: a gente pobre».

 

Eis uma ideia melhor: Nova Orleães poderia ser reconstruída por e para a mesma gente que resultou mais afectada pela inundação. Escolas e hospitais que antes estavam a cair finalmente poderiam ter os recursos adequados; a reconstrução poderia criar milhares de empregos locais e prover capacitação numa escala em massa em indústrias com salários decentes. Em vez de entregar a reconstrução à mesma elite corrupta que falhou de maneira tão espectacular à cidade, o esforço poderia ser dirigido por grupos como a Douglass Community Coalition. Antes do furacão, esta extraordinária assembleia de pais, professores, estudantes e artistas estava a tentar reconstruir a cidade das devastações da pobreza ao transformar a Escola Secundária Frederick Douglass Senior num modelo de aprendizagem comunitária. Já fizeram o árduo trabalho de construir um consenso em redor da reforma educativa. Agora que os fundos estão a fluir, não deveriam ter as ferramentas para reconstruir cada uma das debilitadas escolas públicas da cidade?

 

Para que um processo de reconstrução do povo se torne realidade (e para evitar que mais contratos vão para a Halliburton), os evacuados devem estar no centro de toda a tomada de decisões. Segundo Curtis Muhammad, da Community Labor United, a lição mais crua do desastre é que os afro­‑americanos não podem contar que algum nível de governo os proteja. «Não tivemos protectores», diz. Isso significa que os grupos comunitários que representam aos afro­‑americanos em Louisiana e Mississippi – muitos dos quais perderam pessoal, espaço de escritório e equipamento na inundação – precisam do nosso apoio. Só uma injecção em massa de capital e voluntários lhes permitirá realizar a tarefa crucial de organizar os evacuados – hoje espalhados por 41 estados – numa poderosa base política. A pergunta mais premente é onde vão viver os evacuados nos próximos meses. Um perigoso consenso cresce em torno da ideia de que deveriam recolher um pouco de caridade, pedir um trabalho no Wal-Mart de Houston e ir andando. Muhammad e CLU, contudo, demandam o direito a regressar: sabem que para os evacuados virem a ter casas e escolas às quais regressar, muitos precisarão de regressar aos seus lares e lutar por eles.

 

Estas ideias têm precedentes. Quando a cidade do México foi golpeada por um devastador terremoto em 1985, o Estado também falhou à população: habitações públicas pobremente construídas desmoronaram­‑se e o exército estava pronto para arrasar os edifícios com sobreviventes ainda presos no interior. Um mês depois do tremor de terra, 40.000 refugiados zangados marcharam contra o governo, negando-se a ser deslocados para fora dos seus bairros e exigindo uma “reconstrução democrática”. Não só foram construídas num ano 50.000 novas habitações para os que tinham ficado sem lar; os grupos de bairro que nasceram dos entulhos lançaram um movimento que tem desafiado os tradicionais detentores do poder no México até aos dias de hoje.

 

E as pessoas que conheci no Sri Lanka já se cansaram de esperar pela ajuda prometida. Alguns dos sobreviventes apelam agora à criação de uma Comissão de Planeamento do Povo para uma Recuperação Pós­‑Tsunami. Dizem que as agências de ajuda devem prestar-lhes contas; é o seu dinheiro, no final de contas.

 

A ideia poderia ganhar força nos Estados Unidos, e deve. Porque só há uma coisa que pode compensar as vítimas do mais humano dos desastres naturais, e isso é o que lhes foi negado: poder. Será uma longa e dura batalha, mas os evacuados de Nova Orleães devem tomar força do conhecimento de que já não são pobres; são ricos que foram temporariamente impedidos de aceder às suas contas bancárias.