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Mundo

11/08/2005

 

O melhor instrumento de recrutamento do terrorismo

 

Naomi Klein *

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Hussain Osman, um dos homens que supostamente participou nos frustrados atentados de 21 de Julho em Londres, disse recentemente aos investigadores italianos que se prepararam para os ataques vendo «filmes sobre a guerra no Iraque», informou La Repubblica. «Especialmente aqueles onde mulheres e crianças eram assassinados e exterminados por soldados britânicos e norte­‑americanos... de viúvas, mães e filhas que choram».

 

Tornou­‑se um artigo de fé que a Grã-Bretanha era vulnerável ao terror por causa do seu anti­‑racismo politicamente correcto. No entanto, os comentários de Osman sugerem que o que impulsionou pelo menos alguns dos bombistas foi a fúria ante o que percebiam como racismo extremo. E o que mais podemos chamar à crença – tão prevalecente que quase nem a notamos – de que as vidas norte­‑americanas e europeias valem mais do que as dos árabes e muçulmanos, a tal grau que as suas mortes no Iraque nem sequer são contabilizadas?

 

Não é a primeira vez que este tipo de crua desigualdade nutre o extremismo. Sayyid Qutb, o escritor egípcio geralmente visto como o arquitecto intelectual do Islão político radical, teve a sua epifania ideológica enquanto estudava nos Estados Unidos. O puritano estudante estava horrorizado com as licenciosas mulheres do Colorado, é verdade, mas mais significativo foi o encontro de Qutb com o que mais tarde descreveu como «a discriminação racial fanática e malvada» dos Estados Unidos. Por coincidência, Qutb chegou aos Estados Unidos em 1948, o ano da criação do Estado de Israel. Foi testemunha de uns Estados Unidos cegos aos milhares de palestinianos que o projecto sionista tornava refugiados permanentes. Para Qutb, não se tratava de política, era um assalto à sua identidade nuclear: claramente, os norte-americanos acreditavam que as vidas árabes valiam muito menos do que as dos judeus europeus. Segundo Yvonne Haddad, uma professora de história na Universidade de Georgetown, esta experiência «deixou Qutb com uma amargura que nunca foi capaz de sacudir».

 

Quando Qutb regressou ao Egipto, uniu-se à Irmandade Muçulmana, que o levou ao próximo evento que mudou a sua vida: foi preso, severamente torturado e condenado por conspirar contra o governo num absurdo julgamento farsa. A teoria política de Qutb foi profundidade moldada pela tortura. Não só via os seus torturadores como sub­‑humanos, como esticou essa categoria para incluir todo o Estado que ordenou esta brutalidade, incluindo os muçulmanos praticantes que passivamente deram o seu apoio ao regime de Nasser.

 

A vasta categoria de sub­‑humanos de Qutb permitiu aos seus discípulos justificar a matança de “infiéis” – agora praticamente todos – desde que fosse feito em nome do Islão. Um movimento político por um Estado islâmico foi transformado numa violenta ideologia que cimentaria as bases intelectuais para a Al Qaeda. Por outras palavras, o chamado terrorismo islâmico foi “cultivado em casa” do Ocidente muito antes dos ataques de 7 de Julho – desde o seu começo foi uma progénie moderna quintessencial do racismo casual do Colorado e dos campos de concentração do Cairo.

 

Porque é que vale a pena desenterrar esta história agora? Porque as chispas gémeas que acenderam a fúria de mudar o mundo de Qutb estão actualmente a ser aspergidas com gasolina: corpos árabes e muçulmanos são degradados em câmaras de tortura em redor do mundo e as suas mortes são ignoradas em guerras coloniais simultâneas, ao mesmo tempo que a evidência gráfica digital destas perdas e humilhações está ao alcance de qualquer pessoa que tenha um computador. E, de novo, este cocktail letal de racismo e tortura arde nas veias de jovens irados. Conforme o passado de Qutb e o presente de Osman revelam, não é a nossa tolerância para com o multiculturalismo que alimenta o terrorismo; é a nossa tolerância à barbárie cometida em nosso nome.

 

Tony Blair meteu­‑se neste ambiente explosivo, empenhado em fazer passar duas das principais causas do terror como a sua cura. Pretende deportar mais gente para países onde provavelmente enfrentarão a tortura. E continuará a combater guerras nas quais os soldados não sabem o nome das povoações que estão a arrasar. (Para citar só um exemplo, um relatório de Knight Ridder de 5 de Agosto cita um sargento da marinha que incita o seu pelotão dizendo-lhes: «Estes serão os bons velhos tempos, quando vocês trouxeram... morte e destruição a – como diabos se chama este lugar?» Alguém soprou prestavelmente: «Haqlaniyah».)

 

Entretanto, na Grã-Bretanha não escasseia a «discriminação racial fanática e malvada» denunciada por Qutb. «Claro, também houve actos isolados e inaceitáveis de ódio racial ou religioso», disse Blair antes de desvelar o seu plano de 12 pontos para lutar contra o terror. «Mas foram isolados». Isolados? A Comissão Islâmica de Direitos Humanos recebeu 320 queixas de ataques racistas depois dos bombardeios; o Grupo de Monitorização recebeu 83 telefonemas de emergência; a Scotland Yard diz que os crimes de ódio aumentaram 600% em relação à mesma altura do ano passado. E o ano passado não era para gabar: «Um em cada cinco votantes de minorias étnicas na Grã-Bretanha disseram que tinham considerado deixar a Grã-Bretanha devido à intolerância racial», segundo uma sondagem do Guardian em Março.

 

Esta última estatística mostra que o tipo de multiculturalismo praticado na Grã-Bretanha (e França, Alemanha, Canadá...) pouco tem a ver com genuína igualdade. É antes uma oferta faustiana, negociada entre políticos em busca de votos e auto­‑designados líderes comunitários, a qual mantém as minorias étnicas escondidas em guetos periféricos patrocinados pelo Estado, enquanto os centros da vida pública em boa medida não são afectados pelas mudanças sísmicas na composição étnica nacional. Nada expõe mais a superficialidade desta suposta tolerância do que a velocidade com que agora se diz às comunidades muçulmanas para “se ir­em embora” (para citar o membro tory do parlamento Gerald Howarth) em nome dos valores nacionais nucleares.

 

O problema real não é demasiado multiculturalismo, mas demasiado pouco. Se realmente se permitisse  à diversidade agora guetizada nas margens das sociedades ocidentais – geográfica e psicologicamente –  migrar para os centros, poderia infundir à vida pública no Ocidente um poderoso novo humanismo. Se tivéssemos sociedades profundamente multi­‑étnicas, em vez de superficialmente multiculturais, seria bem mais difícil aos políticos assinar ordens de deportação que enviam solicitantes de asilo argelinos para a tortura, ou livrar guerras nas quais só são contabilizados os mortos dos invasores.

 

Uma sociedade que verdadeiramente vivesse os seus valores de igualdade e direitos humanos, em casa e no estrangeiro, teria um benefício adicional. Roubaria aos terroristas o que sempre foi o seu maior instrumento de recrutamento: o nosso racismo.

 

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* Assistência na pesquisa providenciada por Andréa Schmidt.