|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
15/06/2005 Naomi Klein e Aaron Maté [A fotógrafa Zahra Kazemi
morreu depois de ser violada e torturada no Irão, o seu país de origem, por
captar imagens fora de uma prisão. Segundo a sua família, o governo do
Canadá, o seu país adoptivo, fez muito pouco para que as autoridades
iranianas investigassem a fundo e castigassem os responsáveis do assassinato.
Como se não bastasse, uma exposição do trabalho de Kazemi foi recentemente
censurada porque mostrava imagens pretensamente favoráveis aos palestinianos] Mesmo depois da sua morte, parece
que os ataques contra Zahra Kazemi não terminarão. Foi somente há dois meses
que os canadenses ficaram chocados com novas provas de que a fotojornalista
de Montreal foi torturada até à morte enquanto estava sob custódia iraniana.
Kazemi foi presa em Junho de 2003 enquanto tirava fotografias fora de uma
prisão no Irão, o seu país de nascimento. Para castigá‑la por esta
transgressão, os captores de Kazemi violaram‑na e golpearam‑na,
segundo um médico que fugiu do Irão para contar a história. Perto de dois anos mais tarde,
há novas tentativas para tapar as lentes de Kazemi, para impedir que as suas
fotografias cheguem a olhos do público – só que agora a censura passa‑se
no seu país de adopção, o Canadá. Na semana passada, a biblioteca Cote St.
Luc, em Montreal, retirou cinco fotografias de Kazemi que estavam em
exibição, depois de patrocinadores judeus se terem queixado de um suposto «viés
pró‑palestino»; deixaram o resto da exibição, que já tinha sido
exposta em Paris. O filho de Kazemi, Stephan Hachemi, descreveu a remoção das
fotografias palestinas como «uma violação do espírito da minha mãe» e exigiu com
razão que a biblioteca mostrasse toda a exibição ou nada. Assim, a biblioteca
desmontou toda a exibição. Esta censura de manufactura
canadense chegou ao mesmo tempo que o governo iraniano continua a emparedar
qualquer tentativa de levar os assassinos de Kazemi a julgamento. Depois de se
recusar a devolver o seu corpo ao filho, o Irão absolveu os três funcionários
dos serviços de informação acusados da sua morte, e mais recentemente, zombou
dos apelos do Canadá a uma investigação internacional. Pela sua parte, o
governo canadense tem sido acusado pela família de «rogar, não insistir» que
o governo iraniano preste contas pela sua morte. Não há comparação entre a
decisão de retirar as fotografias de Kazemi em Montreal e o tipo de censura brutal
que levou à sua morte numa prisão iraniana. E no entanto, a decisão de
remover as fotografias, por temor que pudessem “ofender” é ainda mais obscena
por causa do modo como Kazemi morreu: foi assassinada precisamente pelo seu
compromisso de ser testemunha do sofrimento humano, mesmo quando forças
poderosas não querem testemunhas da sua brutalidade. Ela levou esse
compromisso a países em África, América Latina, Caribe e Médio Oriente,
incluindo o Irão e a Palestina ocupada por Israel. Demasiado frequentemente, a
moralidade canadense está envolta em hipocrisia. Estamos escandalizados pelo
que aconteceu a Kazemi no Irão, ou a Maher Arar na Síria, contudo,
continuamos a deportar refugiados para países onde enfrentam a tortura,
incluindo Argélia, Síria, Líbano – e, sim, até o Irão. No ano passado, 43 refugiados
iranianos solicitantes de asilo foram deportados de British Colúmbia apenas,
quatro vezes mais que em 1999. A decisão de retirar as
fotografias que se pensava serem “demasiado simpatizantes” com a causa
palestina é também parte de um padrão inquietante para silenciar a oposição à
ocupação israelita expansionista nos Territórios Ocupados, agora no seu 38º
ano. Há dois verões, CanWest Global, o maior conglomerado de meios de
comunicação, foi tão longe como produzir um muito publicitado documentário
que comparava os estudantes pró‑palestinos da Universidade de Concórdia
em Montreal com os nazis. Em setembro, a cadeia de jornais da companhia foi
admoestada pela agência de notícias Reuters por publicar as suas histórias
com modificações ideológicas ao texto original. E rara vez escutamos nos
meios de comunicação as muitas vozes contra a ocupação que desafiam o
enganoso consenso de que os palestinianos são culpados da sua própria
miséria. Mas não é só a resistência
palestina que é distorcida ou ignorada: também o são os próprios palestinianos,
as suas caras, as suas vidas. E foi este desumanizante vazio que Kazemi tentava
preencher com o seu trabalho. Ela «mostrava a vida quotidiana dos palestinianos
e os problemas que enfrentavam enquanto tentavam preservar a sua terra e sua
identidade» em face do «êxodo, pobreza, humilhação, sofrimento e os destroços
da guerra», segundo a legenda que acompanhava a exibição fotográfica. E isto é
de facto uma acto ameaçador: simples imagens que capturam as consequências
humanas da ocupação são um desafio directo àqueles que encontraram maneiras
de se isolarem do sofrimento colectivo de um povo. Nas palavras do seu filho,
Zhara Kazemi teve a coragem «de mostrar o que não é mostrável, de mostrar a
verdade». Na sua morte, desonramos a sua memória e o seu legado permitindo
que as suas fotografias sejam ocultadas, imagens que são uma expressão da própria
coragem e humanidade que custaram a vida a esta valente jornalista. Não é demasiado tarde para
emendar as coisas. O trabalho de Kazemi deve ser imediatamente remontado, mas
a uma escala muito maior. Seria um gesto particularmente poderoso se os
membros da comunidade judia canadense, que são bem conhecidos por apoiar as
artes, se oferecessem para pendurar as fotografias de Kazemi, todas elas, nas
paredes de um importante museu canadense. Isto demonstraria que os
canadenses são capazes não só de condenar a censura quando ocorre em países
longínquos, mas que estão comprometidos em defender os princípios da
liberdade de expressão e uma genuína diversidade de opiniões e pontos de
vista aqui em casa. Seria uma maneira adequada, conquanto modesta, de prestar a nossa homenagem a uma heroína canadense que foi assassinada porque acreditava que estas ideias são mais do que teóricas. Página dedicada a Ziba Zahra Kazemi (1948-2003): www.zahrakazemi.com |