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05/05/2005 Naomi Klein NOTA DO EDITOR: O seguinte
ensaio é adaptado de observações feitas no Seminário Nacional sobre o Iraque
patrocinado pelo Instituto de Estudos Políticos de Washington, D.C. O
seminário foi celebrado em 24 de Março, o 40º aniversário do primeiro
seminário sobre a Guerra do Vietname, que foi celebrado na Universidade de
Michigan, em Ann Arbor. A questão central que precisamos responder é: quais foram as razões reais para a invasão e ocupação do Iraque pelo governo Bush? Quando identificamos as razões pelas quais realmente entramos em guerra — não as razões pretextos ou as razões alegadas, liberdade e democracia, mas as verdadeiras razões — então podemos tornar‑nos activistas mais eficazes contra a guerra. O modo mais eficaz e estratégico para acabar com essa ocupação e prevenir guerras futuras é negar às pessoas que declaram essas guerras os seus almejados espólios, ou produtos do roubo — para fazer com que a guerra deixe de ser lucrativa. E não poderemos fazer isso a menos que sejamos capazes de identificar os objectivos da guerra. Quando estive no Iraque há um ano atrás, tentando responder a esta pergunta, um dos modos mais eficazes que encontrei para fazer isso foi seguir as escavadoras e a maquinaria de construção. Eu estava no Iraque para pesquisar a chamada “reconstrução”. E o que me surpreendeu mais foi a ausência de maquinaria de reconstrução, de guindastes e escavadoras, no centro de Bagdade. Eu esperava ver “reconstrução” por toda a parte. Vi escavadoras em bases militares. Vi escavadoras na Zona Verde, onde uma quantidade imensa de construção estava a ser empreendida, construindo a sede da Bechtel e aprontando a nova embaixada dos EUA. Também havia muitas obras em construção em todas as bases militares dos EUA. Mas, nas ruas de Bagdade, os prédios dos antigos ministérios estavam absolutamente intocados. Nem sequer tinham removido os escombros, quanto mais iniciado o processo de reconstrução. O único guindaste que vi nas ruas de Bagdade estava a içar um painel publicitário. Aliás, uma das coisas mais surreais a respeito de Bagdade é que a cidade antiga está em ruínas, mas repleta de novos painéis publicitários propagando as glórias da economia global. E a mensagem é a seguinte: “Tudo o que vocês eram antes não vale a pena reconstruir”. Vamos importar um país totalmente novo. É a versão iraquiana do Extreme Makeover [1]. Não é uma coincidência que os americanos estivessem em casa a assistir a essa explosão de reality shows extremos da TV, onde os corpos das pessoas são cirurgicamente refeitos e as suas casas são demolidas e reconstruídas. A mensagem desses shows é: “Tudo o que você é agora, tudo o que você possui, tudo o que você faz é uma bosta. Nós vamos apagar tudo, completamente, e daí reconstruir tudo com a ajuda de uma equipa de especialistas. Você submeta‑se e deixe os especialistas tomar conta de tudo”. É exactamente isso o que o “Extreme Makeover: Iraque” é. Não havia lugar para os iraquianos neste processo. Tudo estava nas mãos de companhias estrangeiras, modernizando o país. Os iraquianos com doutoramento em engenharia e que construíram o seu sistema de electricidade e que construíram o seu sistema telefónico não tinham qualquer lugar nesse processo de reconstrução. Se quisermos saber quais foram os objectivos da guerra, precisamos ver o que Paul Bremer fez assim que chegou ao Iraque. Ele despediu 500.000 pessoas, 400.000 das quais eram soldados. E jogou no lixo a constituição do Iraque, substituindo-a por uma série de leis económicas que até o The Economist descreveu como «a lista de desejos dos investidores estrangeiros». Basicamente, o Iraque foi transformado num laboratório para as políticas radicais do livre mercado sonhadas por instituições como o American Enterprise Institute e o Cato Institute, em Washington, D.C., mas que, no âmbito doméstico, só podem ser impostas em câmara lenta. Assim, basta examinar as políticas e acções do governo Bush. Não precisamos buscar documentos secretos ou tecer teorias intensas de conspiração. Precisamos observar o facto de que construíram bases militares permanentes e não reconstruíram o país. O seu primeiro acto foi proteger o ministério do petróleo, deixando incendiar o resto do país — ao que o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld respondeu: «Há coisas que acontecem». Eles tiveram quase um regozijo apocalíptico ao permitir que o Iraque ardesse em chamas. Deixaram que o país fosse obliterado, deixando uma tábua rasa que eles podiam reconstruir à sua imagem. Esse foi o objectivo da guerra [2]. A GRANDE MENTIRA A administração afirma que a guerra dizia respeito à luta pela democracia. Essa foi a grande mentira que usaram para encobrir as outras mentiras que tinham sido desvendadas. Mas é um tipo diferente de mentira, no sentido de que se trata de uma mentira útil. A mentira de que os Estados Unidos invadiram o Iraque para levar a liberdade e a democracia não apenas para o Iraque mas, como acontece, para o mundo todo, é tremendamente útil — primeiro, porque podemos expô-la como mentira, e depois, podemos juntar‑nos aos iraquianos para tentar torná-la uma verdade. Assim, fico muito perturbada que um grande número de progressistas tenham medo de usar a linguagem da democracia, agora que George W. Bush está a usá‑la. Estamos, de algum modo, a desistir da ideia emancipatória mais poderosa que jamais foi criada, de auto-determinação, libertação e democracia. E é absolutamente crucial não permitir que Bush se safe do roubo e difamação dessas ideias — elas são importantes demais. Olhando para a democracia no Iraque, primeiro, precisamos fazer a distinção entre eleições e democracia. A realidade é que o governo Bush combateu a democracia no Iraque a cada passo. Porquê? Porque se a genuína democracia chegasse ao Iraque, os verdadeiros objectivos da guerra — o controle sobre o petróleo, o apoio a Israel, a construção de bases militares permanentes, a privatização de toda a economia — teriam todos sido perdidos. Porquê? Porque os iraquianos não querem nada disso e não concordam com nada disso. Eles o disseram muitíssimas vezes, primeiro em sondagens de opinião pública, razão pela qual o governo Bush quebrou a sua promessa original de ter eleições depois de poucos meses da invasão. Eu acredito que Paul Wolfowitz genuinamente pensava que os iraquianos responderiam como participantes de um reality show da TV, e diriam: “Oh, meu Deus, muito obrigado pelo meu país novinho em folha”. Mas não o fizeram. Eles protestaram por 500.000 pessoas terem perdido os seus postos de trabalho. Protestaram por estarem a ser excluídos da reconstrução do seu próprio país, e deixaram claro que não queriam bases permanentes dos EUA. Foi quando a administração quebrou a sua promessa e nomeou um agente da CIA como primeiro ministro interino. Nesse período, eles acorrentaram — ou melhor, praticamente algemaram — os futuros governos do Iraque a um programa do Fundo Monetário Internacional até 2008. Isso aprofundará incrivelmente a crise humanitária no Iraque. Eis apenas um exemplo: o FMI e o Banco Mundial estão a exigir a eliminação do programa de ração alimentar do Iraque, do qual depende 60 por cento da população para a sua nutrição, como uma condição para o alívio da dívida e para a obtenção de novos empréstimos que foram contraídos em negociações feitas por um governo não eleito. Nestas eleições, os iraquianos votaram na Aliança Iraque Unido. Além de exigir a definição de um calendário para a retirada das tropas, esse partido de coalizão prometeu que iria criar um nível de emprego de 100 por cento no sector público — ou seja, um fiasco total para a agenda das privatizações dos neocons. Mas agora não podem fazer nada disso, pois a sua democracia foi algemada. Por outras palavras, eles têm o voto, mas não o poder real para governar. UM MOVIMENTO PRÓ-DEMOCRACIA O futuro do movimento anti-guerra requer que ele se torne um movimento pró‑democracia. As nossas ordens de marcha foram‑nos dadas pelo povo do Iraque. É importante compreender que o movimento mais poderoso contra essa guerra e contra a ocupação se encontra no próprio Iraque. O nosso movimento anti‑guerra não deve se limitar à solidariedade verbal, mas consistir em uma solidariedade activa e tangível com a esmagadora maioria dos iraquianos que lutam para acabar com a ocupação do país. Precisamos seguir na direcção que eles apontam. Os iraquianos estão a resistir de muitas formas — não apenas com a resistência armada. Eles estão a organizar sindicatos independentes. Eles estão a inaugurar jornais críticos, que depois são obrigados a fechar. Eles estão a lutar contra a privatização em fábricas estatais. Eles estão a formar coligações políticas numa tentativa de forçar o fim da ocupação. Assim, qual é o nosso papel? Precisamos apoiar o povo do Iraque e a sua clara exigência de acabar tanto com a ocupação militar como com a ocupação corporativa. Isso significa que nós mesmos devemos ser a resistência nos nossos países, exigindo que as tropas voltem para casa, que as corporações dos EUA voltem para casa, que os iraquianos sejam libertados das dívidas contraídas por Saddam e dos acordos com o FMI e o Banco Mundial, assinados durante a ocupação. Não significa torcer cegamente pela “resistência”. Porque não há apenas uma resistência no Iraque. Alguns elementos da resistência armada têm como alvo a população civil iraquiana, enquanto ela reza nas mesquitas xiitas — actos bárbaros que servem os interesses do governo Bush, alimentando a percepção de que o país está à beira de uma guerra civil e de que, portanto, se justifica a alegação da necessidade da presença de forças dos EUA no Iraque. Nem todos os que lutam contra a ocupação dos EUA lutam pela liberdade para todos os iraquianos; alguns lutam pelo poder das suas próprias elites. Por isso, precisamos manter o foco no apoio às exigências de autodeterminação, e não alegrar‑nos com qualquer revés para o império dos EUA. E não podemos ceder a linguagem, o território da democracia. Quem quer que diga que os iraquianos não desejam a democracia deveria ter vergonha de si próprio. Os iraquianos estão a clamar pela democracia e colocaram as suas vidas em risco para obtê‑la muito tempo antes desta invasão — no levantamento de 1991 contra Saddam, por exemplo, quando foram abandonados para serem massacrados. As eleições de Janeiro ocorreram somente devido à tremenda pressão das comunidades xiitas iraquianas, que insistiram em obter a liberdade que lhes tinha sido prometida. «A CORAGEM DE SER SÉRIO» Muitos de nós opuseram‑se à guerra porque se tratava de um projecto imperial. Agora, os iraquianos estão a lutar pelos instrumentos que darão significado à sua própria autodeterminação, não só para que ocorram eleições-espectáculo ou oportunidades de marketing para a administração Bush. Isso quer dizer, como afirmou Susan Sontag, ter «a coragem de ser sério». A razão pela qual os 58 por cento de norte‑americanos contra a guerra não se ter traduzido nos mesmos milhões de pessoas nas ruas que vimos antes da guerra é porque ainda não avançámos com uma agenda política séria. Não deveríamos ter medo de ser sérios. Parte dessa seriedade significa ecoar as exigências políticas feitas pelos eleitores e manifestantes das ruas de Bagdade e Bassorá, e trazer essas exigências para Washington, onde as decisões estão a ser tomadas. Mas a luta central é sobre o respeito pela lei internacional, e se existe qualquer forma de respeito por ela nos Estados Unidos. Se não estivermos empenhados numa batalha de base contra o completo desdém dessa administração em relação à ideia de lei internacional em si, então os elementos específicos dessa luta não importam realmente. Pudemos constatar isso de forma muito clara durante a campanha presidencial dos EUA, com John Kerry deixando que Bush definisse completamente os termos do debate. Lembrem-se do ridículo da menção de Kerry de um “teste global”, e a acusação de que era um comportamento covarde e fraco permitir que fosse feito qualquer escrutínio internacional das acções dos EUA. Porque é que Kerry nunca desafiou esta pressuposição? Culpo a campanha de Kerry tanto quanto culpo a administração Bush. Durante as eleições, ele nunca disse “Abu Ghraib”. Ele nunca disse “Baía de Guantánamo”. Ele aceitou a premissa de que submeter‑se a qualquer tipo de “teste global” seria demonstração de fraqueza. Uma vez feito isso, os democratas não podiam esperar ganhar uma batalha contra a nomeação de Alberto Gonzales como procurador geral, quando nunca tinham falado de tortura durante a campanha. E parte da guerra precisa ser uma guerra nos mídia deste país. O problema não é que as vozes contra a guerra não estejam lá — é que as vozes não são amplificadas. Precisamos de uma estratégia que tenha como alvo a mídia neste país, tornando‑a a ela mesma um local de protesto. Devemos exigir que a mídia nos deixe ouvir as vozes críticas contra a guerra, das mães iradas que perderam os seus filhos por uma mentira, dos soldados traídos que lutaram numa guerra em que não acreditavam. E precisamos continuar a aprofundar a definição de democracia — para dizer que estas eleições‑espectáculo não são democracia, e que tampouco temos uma democracia neste país. Infelizmente, a administração Bush teve um melhor desempenho no uso da linguagem da responsabilidade do que nós, no movimento anti-guerra. A mensagem que está a passar é que nós estamos a dizer “simplesmente sair”, enquanto eles estão a dizer “Não podemos simplesmente sair, precisamos ficar e resolver o problema que começámos”. Podemos ter uma agenda muito detalhada e responsável, e não devemos
ter medo disso. Deveríamos dizer: “Retiremos as tropas, mas deixemos alguma
esperança atrás”. Não podemos ter medo de falar sobre indemnizações, de
exigir que o Iraque seja libertado das dívidas, o abandono total das leis
económicas ilegais de Bremer, o controlo completo dos iraquianos sobre o
orçamento da reconstrução — há muitos mais exemplos de exigências políticas
concretas que podemos e devemos avançar. Quando articularmos uma definição
mais genuína de democracia do que aquela que ouvimos do governo Bush, então
estaremos a levar um pouco de esperança ao Iraque. E estaremos a trazer para
mais perto de nós muitos daqueles 58 por cento que se opõem à guerra, mas que
ainda não se estão a manifestar connosco porque têm medo de cortar amarras e
avançar. ________ [1] Nome de um programa popular da TV americana, onde se refaz e redecora completamente a casa de uma família e se reprograma e remodela o aspecto (com cirurgia plástica), o estilo e o guarda-roupa das pessoas participantes do programa [n. IA]. [2] A este respeito, ler Naomi Klein, Bagdade, ano zero, Setembro 2004 [n. IA]. |