Informação Alternativa

Iraque

10/02/2005

 

Obter o dedo levantado

 

Naomi Klein

The Nation

 

«Os iraquianos deram aos Estados Unidos o maior “obrigado” da melhor maneira que poderíamos ter esperado». Ao ler esta análise eleitoral de Betsy Hart, uma colunista de Scripps Howard News Service, lembrei-me da minha falecida avó. Meio cega e uma ameaça ao volante do seu Chevrolet, firmemente se recusou a entregar as chaves do seu carro. Estava convencida de que onde quer que conduzisse (achatando os animais de estimação pelo caminho), as pessoas acenavam e sorriam para ela. “São tão simpáticas!” Tivemos que lhe dar as más notícias. “Não acenam com toda a mão, avó, só com o dedo médio”.

 

Assim se passa com Betsy Hart e outros míopes observadores eleitorais: crêem que os iraquianos enviaram finalmente aos Estados Unidos as tão esperadas flores e doces, quando os eleitores apenas lhes deram o dedo (levantado).

 

Os resultados eleitorais são: os iraquianos votaram esmagadoramente para mandar embora o governo de Iyad Allawi instalado pelos Estados Unidos, que recusava pedir aos Estados Unidos para sair. Uma maioria decisiva votou pela Aliança Iraquiana Unida (AIU); a segunda proposta na plataforma da AIU exigia «um calendário para a retirada das forças multinacionais do Iraque».

 

Há mais mensagens contidas na plataforma da coligação ganhadora. Alguns pontos a destacar: «Adoptar um sistema de segurança social sob o qual o Estado garanta um emprego para cada iraquiano em condições de trabalhar... e que ofereça condições aos cidadãos para construir as suas casas». A AIU também se compromete a «eliminar as dívidas do Iraque, cancelar os pagamentos compensatórios e usar a riqueza petrolífera em projectos de desenvolvimento económico». Em suma, os iraquianos votaram por repudiar as políticas radicais de livre mercado impostas pelo antigo chefe enviado pelos EUA Paul Bremer e selados graças a um recente acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

 

Assim, irão as pessoas que se emocionaram ao ver os iraquianos acorrer em bandos às urnas apoiar estas exigências escolhidas democraticamente? Por favor. «Não se fixam calendários», disse George W. Bush quatro dias depois de os iraquianos terem votado precisamente a favor disso. Da mesma maneira, o primeiro­‑ministro britânico Tony Blair descreveu as eleições como «magníficas», mas descartou um calendário fixo assim de repente. Os compromissos da AIU de expandir o sector público, ficar com o petróleo e cancelar a dívida provavelmente sofrerão destinos similares. Pelo menos se Adel Abd al-Mahdi se sair com a sua – é o ministro das Finanças do Iraque e o homem que subitamente se menciona como o líder do próximo governo do Iraque.

 

Al-Mahdi é o cavalo de Tróia da administração Bush na AIU. (Não pensavam que iam pôr todo o seu dinheiro em Allawi, pois não?) Em Outubro passado ele disse numa reunião do American Enterprise Institute que planejava «reestruturar e privatizar as empresas estatais» do Iraque, e em Dezembro fez outra viagem a Washington para revelar planos para uma nova lei do petróleo, «muito promissora para os investidores norte­‑americanos». Foi o próprio al-Mahdi que supervisionou a assinatura de uma onda de acordos com a Shell, a BP e a ChevronTexaco nas semanas anteriores às eleições, e foi ele quem negociou o recente acordo de austeridade com o FMI. Sobre a retirada de tropas, al-Mahdi não soa nada como a plataforma do seu partido e mais parece servir de intermediário a Dick Cheney na Fox News: «Quando os norte­‑americanos vão embora depende de quando as nossas forças estejam prontas e de como responda a resistência depois das eleições». Mas no que respeita à lei Sharia, dizem­‑nos que a sua posição é muito próxima à dos clérigos.

 

As eleições iraquianas foram adiadas uma e outra vez, enquanto a ocupação e a resistência se tornavam cada vez mais mortais. Agora parece que dois anos de derramamento de sangue, suborno e de torcer o braço no escuro teve como resultado isto: um acordo em que os ayatolas obtêm o controle da família, a Texaco obtém o petróleo, e Washington obtém as suas perduráveis bases militares (chamem­‑lhe “o programa petróleo por mulheres”). Todos ganham menos os eleitores, que arriscaram as suas vidas para depositar os seus boletins a favor de um pacote de políticas bem diferentes.

 

Mas não importa. 30 de janeiro, dizem-nos, não era a respeito do que os iraquianos estavam a votar – era acerca do facto de votarem e, mais importante, do que a sua valente coragem fez sentir aos norte­‑americanos a respeito da sua guerra. Aparentemente, o verdadeiro propósito das eleições era demonstrar aos norte­‑americanos que, como o pôs George Bush, «o povo iraquiano valoriza a sua própria liberdade». Assombrosamente, parece que isto é notícia. O colunista do Sun­‑Times de Chicago, Mark Brown, disse que o voto foi «o primeiro sinal claro de que a liberdade realmente significava algo para o povo iraquiano». No The Daily Show, Anderson Cooper da CNN descreveu­‑o como «a primeira vez que, como que tivemos um indício de se estão dispostos ou não a dar um passo adiante e fazer coisas».

 

Esta gente é algo dura. O levantamento xiita contra Saddam em 1991 não foi claramente suficiente para os convencer de que os iraquianos estavam dispostos a «fazer coisas» para ser livres. Nem o foi a marcha de 100.000 pessoas que se realizou há um ano atrás exigindo eleições imediatas, ou as eleições locais espontâneas organizadas pelos iraquianos nos primeiros meses da ocupação – ambas sumariamente abafadas por Bremer. Resulta que na televisão norte-americana toda a ocupação foi um longo episódio de Fear Factor, no qual os iraquianos superaram obstáculos cada vez mais difíceis para demonstrar quão profundo era o seu desejo de ter de volta o seu país. Terem as suas cidades arrasadas, serem torturados em Abu Ghraib, serem atingidos a tiro nos postos de controle, terem os seus jornalistas censurados e a sua água e electricidade cortadas – tudo isto foi apenas o prelúdio à maior prova de resistência: esquivarem­‑se de bombas e balas para chegar às urnas. Por fim, os norte-americanos ficaram convencidos de que os iraquianos realmente, realmente querem ser livres.

 

Então qual é o prémio? O fim da ocupação, como exigiram os eleitores? Não sejam tontos – o governo norte-americano não se submeterá a nenhum «calendário artificial». Empregos para todos, como prometeu a AIU? Não podem votar por tolices socialistas como essas. Não, obtêm as lágrimas de Geraldo Rivera (“Sinto­­­‑me tão pegajoso”), o orgulho maternal de Laura Bush (“foi tão comovedor para o presidente e para mim ver as pessoas a sair com o dedo levantado”) e as sinceras desculpas de Betsy Hart por ter duvidado deles (“Wow – fizeram­‑me ver o meu erro”).

 

E isso deveria ser suficiente. Porque se não fosse a invasão, os iraquianos nem sequer teriam tido a liberdade de votar pela sua libertação, e que depois esse voto fosse completamente ignorado. E esse é o verdadeiro prémio: a liberdade de estar ocupados. Wow – fizeram­‑me ver o meu erro.