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04/12/2004 Naomi Klein David T. Johnson, Embaixador em exercício, Embaixada dos Estados Unidos,
Londres Caro Sr. Johnson, no dia 26
de Novembro, o seu conselheiro de imprensa enviou uma carta ao Guardian
protestando vigorosamente contra uma frase na minha coluna desse mesmo dia. A
frase era a seguinte: «No Iraque, as forças dos EUA e as dos seus anfitriões
iraquianos já não se preocupam em ocultar ataques a alvos civis e estão a
eliminar abertamente todos aqueles – médicos, clérigos, jornalistas – que se
atrevem a contar os cadáveres». A sua maior preocupação dizia respeito à
palavra “eliminar”. A carta do sue gabinete sugeria
que a minha acusação era «desprovida de fundamentos» e pedia ao Guardian
ou para a desmentir, ou para apresentar «provas desta acusação extremamente
grave». É muito raro que funcionários de embaixada dos EUA se envolvam
abertamente na imprensa livre de um país estrangeiro e, por isso, tomei a
carta muito a sério. Mas, embora concorde que a acusação é grave, não tenho a
menor intenção de a desmentir. Aqui, em vez disso, estão as provas que pediu. Em Abril, as forças dos EUA cercaram Faluja em retaliação pelas horríveis mortes de quatro empregados da Blackwater. A operação foi um fracasso, com as tropas dos EUA eventualmente entregando a cidade de volta às forças de resistência. A razão para a retirada foi que o cerco a Faluja desencadeou revoltas por toda o país, despoletadas pelas notícias de que centenas de civis tinham sido mortos. Estas informações provieram
de três fontes principais: 1) Médicos: O USA Today noticiava em 11 de
Abril que «As estatísticas e os nomes dos mortos tinham sido recolhidas em
quatro das principais clínicas nos arredores da cidade e no Hospital Geral de
Faluja». 2) Jornalistas da TV árabe. Enquanto os médicos reportaram o número
de mortos, foram a Al Jazeera e a Al Arabiya que deram um rosto
humano a essas estatísticas. Com equipas de operadores de câmaras
independentes em Faluja, ambos os canais de televisão exibiram imagens de
mulheres e crianças mutiladas para todo o Iraque e para o mundo de língua
árabe. 3) Clérigos. Os relatos de um grande número de vítimas feitos pelos
jornalistas e médicos foram repetidos por clérigos eminentes do Iraque.
Muitos deles fizeram prédicas exaltadas, condenando o ataque, virando as suas
congregações contra as forças dos EUA e inflamando a revolta que forçou as
tropas dos EUA a retirar. As autoridades dos EUA negaram que centenas de civis tivessem sido mortos durante o cerco de Abril passado, e atacaram as fontes dessas notícias. Por exemplo, um «oficial superior americano» não identificado, falando ao New York Times no mês passado, rotulou o Hospital Geral de Faluja como «um centro de propaganda». Mas as palavras mais violentas foram reservadas para os canais da TV árabe. Quando lhe perguntaram sobre as notícias da Al Jazeera e da Al Arabiya de que centenas de civis tinham sido mortos em Faluja, o secretário da Defesa norte‑americano Donald Rumsfeld respondeu que «o que a Al Jazeera está a fazer é depravado, inexacto e indesculpável...» No mês passado, as tropas dos
EUA voltaram a cercar Faluja – mas desta vez o ataque incluiu uma nova
táctica: eliminar os médicos, os jornalistas e os clérigos que haviam atraído
a atenção do público para as vítimas civis no ataque anterior. ELIMINAÇÃO DE MÉDICOS A primeira operação
importante feita pelos marines dos EUA e pelos soldados iraquianos foi atacar
o Hospital Geral de Faluja, prender médicos e colocar as instalações sob
controlo militar. O The New York Times noticiou que «o hospital foi
escolhido como um primeiro alvo porque os militares americanos consideravam
que ele fora a fonte de rumores sobre o grande número de vítimas»,
sublinhando que «Desta vez, os militares americanos tencionam travar a sua própria
batalha da informação, neutralizando ou silenciando o que havia sido uma das armas
mais potentes dos rebeldes». O The Los Angeles Times citou um médico a
dizer que os soldados «roubaram os telemóveis» no hospital – impedindo os
médicos de comunicar com o mundo exterior. Mas este não foi o pior dos
ataques aos trabalhadores da saúde. Dois dias antes, uma clínica de
emergência crucial foi bombardeada até se transformar em entulho, bem como dispensário
de abastecimentos médicos na porta ao lado. O dr. Sami al-Jumaili, que estava
a trabalhar na clínica, afirma que as bombas ceifaram as vidas de 15 médicos,
quatro enfermeiras e 35 pacientes. O The Los Angeles Times relatou que
o administrador do Hospital Geral de Faluja «havia contando a um general dos
EUA a localização do centro médico provisório no centro da cidade» antes de
este ser atingido. Quer a clínica tenha sido
alvejada expressamente, quer destruída acidentalmente, o efeito foi o mesmo:
eliminar muitos dos médicos de Faluja da zona de guerra. Tal como disse o Dr.
Sami alJumaili ao The Independent no dia 14 de Novembro: «Não há um
único cirurgião em Faluja». Quando a luta avançou para Mosul, utilizou‑se
uma táctica idêntica: quando entraram na cidade, as forças americanas e
iraquianas assumiram de imediato o controlo do hospital de al-Zaharawi. ELIMINAÇÃO DE JORNALISTAS As imagens do cerco do mês
passado a Falluja provieram quase exclusivamente de repórteres embutidos [embedded]
nas tropas americanas. Isto é porque os jornalistas árabes que haviam feito a
cobertura do cerco de Abril numa perspectiva civil foram efectivamente
eliminados. A Al Jazeera não tinha câmaras no terreno porque fora banida
de reportar no Iraque indefinidamente. A Al Arabiya teve de facto um
repórter independente em Falluja, Abdel Kader Al-Saadi, mas a 11 de Novembro
as forças dos EUA prenderam-no e mantiveram-no detido enquanto durou o cerco.
A detenção de Al-Saadi foi condenada pelos Repórteres Sem Fronteiras,
bem como pela Federação Internacional de Jornalistas. «Não podemos
ignorar a possibilidade de que ele esteja a ser intimidado apenas por tentar
fazer o seu trabalho», declarou a FIJ. Não é a primeira vez que
jornalistas no Iraque enfrentam este tipo de intimidação. Quando as forças
dos EUA invadiram Bagdade em Abril de 2003, o Comando Central dos EUA incitou
todos os jornalistas independentes a abandonarem a cidade. Alguns insistiram
em ficar e pelo menos três deles pagaram com as suas vidas. No dia 8 de
Abril, um avião dos EUA bombardeou os escritórios da Al Jazeera em Bagdade,
matando o repórter Tareq Ayyoub. A Al Jazeera tem documentação que prova que
ele forneceu as coordenadas da sua localização às forças dos EUA. No mesmo dia, um tanque dos
EUA fez fogo sobre o Hotel Palestina, matando José Couso, do canal Telecinco
da TV espanhola, e Taras Protsiuk, da Reuters. Três soldados dos EUA
enfrentam agora um processo crime posto pela família de Couso, a qual alega
que as forças dos EUA sabiam muito bem que os jornalistas se encontravam no
Hotel Palestina e cometeram um crime de guerra. ELIMINAÇÃO DE CLÉRIGOS Tal como médicos e
jornalistas foram visados, também o foram muitos dos clérigos que protestaram
veementemente contra os assassinatos em Faluja. No dia 11 de Novembro, o
Sheik Mahdi al-Sumaidaei, responsável pela Associação Suprema para a Direcção
e do partido Daawa [Supreme Association for Guidance and Daawa] foi
preso. Segundo a Associated Press, «Al-Sumaidaei incitou a minoria
sunita do país a desencadear uma campanha de desobediência civil se o governo
iraquiano não parasse o ataque a Faluja». No dia 19 de Novembro, a AP
noticiou que as forças americanas e iraquianas assaltaram uma importante
mesquita sunita, a mesquita Abu Hanifa, em Aadhamiya, matando três pessoas e
prendendo outras 40, incluindo o clérigo principal – outro opositor do cerco
a Falluja. No mesmo dia, a Fox News noticiou que «as tropas dos EUA
também invadiram uma mesquita sunita em Qaim, perto da fronteira síria». A
notícia descrevia as prisões como «retaliação pela oposição à ofensiva contra
Falluja». Dois clérigos xiitas relacionados com Moqtada al‑Sadr foram também
presos nas últimas semanas; segundo a AP, «ambos tinham protestado
contra o ataque a Faluja». «Nós não contamos corpos»,
disse o general Tommy Franks do Comando Central dos EUA. A pergunta é: O que
é que acontece às pessoas que insistem em contar os corpos – os médicos que
têm de declarar a morte dos seus doentes, os jornalistas que documentam essas
perdas, os clérigos que as denunciam? No Iraque, acumulam‑se as
provas de que essas vozes estão a ser sistematicamente silenciadas através de
uma variedade de meios, desde as prisões em massa, até à invasão de
hospitais, a um boicote aos meios de comunicação e a ataques físicos bem
visíveis e sem explicação. Sr. Embaixador, creio que o seu governo e os seus
anfitriões iraquianos estão a travar duas guerras no Iraque. Uma é contra o
povo iraquiano e já custou as vidas de cerca de 100.000 pessoas. A outra é uma
guerra contra as testemunhas. Pesquisa adicional de Aaron Maté.
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