Informação Alternativa

Iraque

04/06/2003

 

Despedindo em surdina

 

Naomi Klein

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As ruas de Bagdade são um pântano de lixo não recolhido e crime.

 

Negócios locais destruídos vão à falência, incapazes de competir com importações baratas. O desemprego está a aumentar e milhares de funcionários públicos despedidos protestam nas ruas.

 

Por outras palavras, o Iraque encontra-se como qualquer outro país que tenha sofrido a devastação dos “ajustamentos estruturais” prescritos por Washington, desde a infame “terapia de choque” aplicada à Rússia no princípio dos anos noventa até à desastrosa “cirurgia sem anestesia” na Argentina alguns anos depois. Excepto que a chamada reconstrução do Iraque faz com que aquelas reformas forçadas pareçam tratamentos de spa.

 

Paul Bremer, o governador do Iraque designado pelos EUA, já demonstrou ser uma espécie de fiasco no capítulo da democracia nas suas três semanas no país, anulando os planos para que os iraquianos seleccionassem o seu próprio governo interino a favor da equipa de consultores escolhida por ele próprio. Todavia, Bremer demonstrou ter um grande talento quando se trata de desenrolar o tapete vermelho para as multinacionais dos EUA. Não admira que George Bush parecesse tão satisfeito quando se encontrou com Bremer no Qatar.

 

Durante duas semanas, Bremer tem estado a esquartejar o sector público do Iraque como Chainsaw Al Dunlap [1] num colete à prova de balas. Em 15 de Maio, Bremer dispensou das suas funções no governo cerca de 30 mil altos funcionários do Partido Baas. Menos de uma semana depois, dissolveu o exército e o Ministério da Informação, lançando 400.000 iraquianos no desemprego sem pensões ou programas de reemprego.

 

Claro que se os colaboradores e propagandistas de Saddam Hussein tivessem conservado o poder no Iraque ter-se-ia tratado de uma catástrofe em matéria de direitos humanos. A "desbaasificação", como se chamou a purga de funcionários do partido, pode ser a única forma de evitar o regresso de adeptos de Saddam — e o único benefício resultante da guerra ilegal de George W. Bush.

 

Mas Bremer foi muito além de uma simples purga de poderosos fiéis do Partido Baas e avançou para um assalto em grande escala ao próprio Estado. Licenciados que estão ligados ao partido desde crianças e que não têm qualquer afecto a Saddam enfrentam o despedimento, enquanto funcionários públicos de escalões inferiores que não têm nenhuma espécie de vínculo com o partido foram despedidos em massa. Nuha Najeeb, que dirigia uma editora em Bagdade, disse à Reuters: «Eu... não tinha qualquer relação com os meios de comunicação ligados a Saddam, por isso, porque me despediram?»

 

À medida que o governo de Bush é cada vez mais claro nas suas intenções de privatizar as indústrias estatais do Iraque e partes do governo, a “desbaasificação” de Bremer assume um novo significado. Será que ele trabalha só para afastar os membros do Partido Baas ou está também a trabalhar para encolher o sector público no seu todo de modo que hospitais, escolas e até o exército sejam preparados para a privatização por empresas dos EUA? Tal como a reconstrução é o disfarce para a privatização, a “desbaasificação” assemelha-se muito com um downsizing disfarçado.

 

Perguntas semelhantes a esta surgem também do esquartejamento que Bremer fez nas companhias iraquianas, já golpeadas por 12 anos de sanções e um mês e meio de saques. Bremer nem sequer esperou que se restabelecesse o fornecimento de energia eléctrica em Bagdade, que o dinar se estabilizasse ou que as peças sobresselentes chegassem às fábricas paralisadas, antes de declarar, em 26 de Maio, que o Iraque estava «aberto aos negócios».

 

Televisores e produtos alimentares isentos de impostos inundaram as fronteiras, empurrando muitos negócios iraquianos para a falência, incapazes de competir. Foi assim que o Iraque se juntou à economia global de “mercado livre”: na escuridão.

 

Paul Bremer é, segundo Bush, «uma pessoa capaz». De facto é. Em menos de um mês ele preparou largas franjas de actividades estatais para serem controladas por empresas, organizou o mercado iraquiano a favor dos importadores estrangeiros, eliminando a maior parte da concorrência local, e assegurou-se de que não haveria quaisquer interferências incómodas por parte do governo iraquiano — na verdade, assegurou­‑se de que nem sequer haja governo iraquiano durante este período crucial em que se estão a tomar tantas decisões chave. Bremer é, e só ele, o FMI do Iraque.

 

Como tantos dos homens que povoam a paisagem da política externa de Bush, Bremer vê a guerra como uma oportunidade de negócio. Em 11 de Outubro de 2001, exactamente um mês depois dos ataques terroristas em Nova Iorque e Washington, Bremer, que foi em tempos embaixador­‑geral de Reagan para o contra­‑terrorismo, lançou uma campanha concebida para capitalizar a nova atmosfera de medo existente nas administrações das empresas norte-americanas. A Crisis Consulting Practice, uma filial do gigante dos seguros Marsh & McLennan Companies, especializou­‑se em ajudar as multinacionais a encontrar «soluções abrangentes e integradas para as crises» em todos os sectores, desde ataques terroristas às fraudes de contabilidade. E, graças a uma aliança estratégica com a Versar Inc., especializada em armas químicas e biológicas, são fornecidos aos clientes de ambas as empresas «serviços totais de anti­‑terrorismo».

 

Para vender esta dispendiosa protecção às firmas dos EUA, Bremer teve de fazer o tipo de ligação explícita entre o terrorismo e a falhada economia global que leva os activistas, por a articularem, a serem consistentemente chamados de lunáticos. Num documento de Novembro de 2001, intitulado Novos riscos nos negócios internacionais, Bremer explica que as políticas de comércio livre «requerem o despedimento de trabalhadores. E a abertura dos mercados ao comércio externo exerce grande pressão sobre os retalhistas tradicionais e os monopólios comerciais». Isto leva a «crescentes diferenças de rendimentos e a tensões sociais» que, por sua vez, podem conduzir a uma gama de ataques a firmas dos EUA, desde terrorismo até tentativas governamentais para reverter privatizações e incentivos ao comércio.

 

Ele poderia estar a descrever as consequências que as suas próprias políticas estão a provocar no Iraque. Mas pessoas como Bremer sabem sempre jogar dos dois lados. Tal como um hacker que ataca sítios Internet de empresas para em seguida vender os seus serviços como perito em segurança de redes, daqui a alguns meses Bremer poderá muito bem estar a vender seguros anti­‑terrorismo às mesmas empresas que acolheu no Iraque.

 

E por que não? Tal como Bremer disse aos seus clientes da Marsh, a globalização pode «ter consequências negativas imediatas para muitos», mas também leva à «criação de riqueza sem precedentes». Assim foi para Bremer e seus sequazes. Em 15 de Maio, apenas uns dias depois da sua chegada ao Iraque, o seu antigo chefe, Jeffrey W. Greenberg, director-geral da MMC, anunciou que 2002 «foi um grande ano para a Marsh — as receitas operacionais aumentaram 31 por cento... A perícia da Marsh em análise de risco e em apoio aos clientes na elaboração de programas de gestão de riscos registou grande procura... As nossas perspectivas nunca foram tão boas».

 

Muitos apontaram que Paul Bremer não é um perito em política iraquiana. Mas esse nunca foi o ponto em questão. Ele é um perito em lucrar com a guerra ao terrorismo, e em ajudar as multinacionais dos EUA a fazer dinheiro em terras longínquas onde não são nem populares nem benvindas.

 

Por outras palavras, ele é o homem perfeito para o trabalho.

 

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[1] Al Dunlap, o antigo presidente executivo da Sunbeam, adquiriu o pseudónimo de “O Esquartejador” (Chainsaw), devido aos despedimentos em massa que costuma efectuar quando reestrutura empresas. (N. retirada da tradução em resistir.info).