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Mundo

27/02/2003

 

1000 Horas H para parar a guerra

 

Naomi Klein

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No Pentágono, chamam­‑lhe Hora H [Voilà Moment]. É quando os soldados e civis iraquianos, com bombas caindo sobre Bagdade, de repente coçam a cabeça e dizem a si mesmos: «Essas bombas não são para me matar e à minha família, são para nos libertar de um ditador malvado!». Nesse ponto, eles agradecem ao Tio Sam, baixam as armas, abandonam os seus postos e levantam­‑se contra Saddam Hussein. Voilà!

 

Pelo menos é assim que a coisa é suposta funcionar, de acordo com os especialistas em “operações psicológicas” que já estão a empreender uma feroz guerra de informação no Iraque. A Hora H fez a sua primeira incursão na linguagem da guerra na última segunda-feira, quando um repórter do New York Times citou essa expressão, usada por um oficial superior dos EUA não identificado.

 

Esse apimentado de gíria militar com boas tiradas [bon mots] pode ser o último plano de Colin Powell para ganhar aos franceses no Conselho de Segurança. O mais provável é que seja mais um produto do pendor da administração Bush para contratar executivos de publicidade e consultores administrativos inflados como conselheiros de política externa. (Não soa essa Hora H de forma suspeita como o Factor UAU, vendido a milhões de executivos corporativos como a chave para construir uma marca poderosa?)

 

De onde quer que a ideia tenha surgido, o Pentágono está de olho na Hora H, e não está a poupar nas despesas para atingir o seu alvo. Transmissores aéreos estão a sobrevoar o Iraque, emitindo propaganda por rádio. Os negócios iraquianos e as autoridades políticas e militares estão a ser bombardeados com emails e telefonemas instando­‑os a ver a luz e mudar de lado. Os aviões de guerra despejaram mais de oito milhões de panfletos informando os soldados iraquianos de que a suas vidas serão poupadas se eles abandonarem o seu equipamento militar. «Envia uma mensagem directa ao que opera a arma», afirma o tenente­‑general T. Michael Moseley, comandante das forças aliadas no Golfo Pérsico.

 

De acordo com o oficial militar superior citado no New York Times, o comando central vai saber se chegou à Hora H quando «virmos uma ruptura na liderança». Em outras palavras, as forças militares dos EUA estão a advogar nada menos que a desobediência civil em massa no Iraque: uma recusa a obedecer ordens e a participar numa guerra injusta. Vai funcionar? Estou céptica. Houve, afinal de contas, uma Hora H durante a última guerra do Golfo, quando muitos iraquianos que moravam perto da fronteira do Kuwait acreditaram nas promessas dos EUA de que teriam apoio caso se rebelassem contra Saddam Hussein. Foi seguida pouco depois por uma Hora Trama­‑te [Screw You Moment], quando os rebeldes viram as forças dos EUA abandoná­­­‑los para serem massacrados.

 

Mas toda esta conversa de Hora H pôs­‑me a pensar: a desobediência civil que os EUA esperam provocar no Iraque é exactamente o tipo de coisa que o movimento anti­‑guerra precisa para inspirar nos nossos países se realmente vamos parar ou, pelo menos, restringir a devastação iminente no Iraque. O que seria necessário para que uma multidão nos Estados Unidos, no Reino Unido, Itália, Canadá – e qualquer outro país que colabora no esforço de guerra – rompesse verdadeiramente com os nossos líderes e se recusasse a cumprir? Será que podemos criar milhares de Horas H nos nossos países?

 

Esta é a pergunta que o movimento mundial contra a guerra enfrenta enquanto planeja prosseguir com marchas espectaculares como a de 15 de Fevereiro. Durante a guerra do Vietname, milhares de jovens norte­‑americanos decidiram romper com os seus líderes quando receberam os seus cartões de sorteio. E foi esta disposição para ir além do protesto e praticar a desobediência activa que, pouco a pouco, corroeu a viabilidade doméstica da guerra.

 

Com que se parecerão hoje os objectores de consciência e os desertores militares? Bem, na Itália, activistas têm estado a bloquear dezenas de trens que levam armamentos e pessoal dos EUA para uma base militar perto de Pisa, e trabalhadores portuários recusaram-se a carregar navios com equipamento de guerra. Duas bases militares dos EUA foram bloqueadas na Alemanha, como também aconteceu no consulado dos Estados Unidos em Montreal e na base aérea da RAF de Fairford em Gloucester, enquanto milhares de activistas irlandeses fizeram uma demonstração no aeroporto de Shannon, o qual, apesar da Irlanda alegar neutralidade, está a ser usado pelos militares dos EUA para reabastecer os seus aviões a caminho do Iraque.

 

Em Chicago, mais de 100 alunos do secundário protestaram do lado de fora da sede da Leo Burnett, a empresa de publicidade que desenhou a campanha militar Exército de Um [Army of One] dos EUA, voltada aos jovens. Os estudantes alegam que nas subfinanciadas escolas secundárias de latinos e afro­‑­americanos, os recrutadores militares superam em muito o número de treinadores de escola.

 

O plano mais ambicioso veio de São Francisco, onde uma coalizão de grupos anti­‑guerra tem apelado para um urgente contra­‑ataque não violento no dia seguinte ao início da guerra: «Não vá ao trabalho nem à escola. Diga que está doente, saia. Vamos impor verdadeiros custos económicos, sociais e políticos e parar o negócio de sempre até que a guerra pare». É uma ideia poderosa: bombas pacíficas explodindo onde quer que estejam a haver lucros com a guerra – postos de gasolina, fábricas de armamentos e redes de tevê contentes com os mísseis. Poderá não parar a guerra, mas irá mostrar que existe uma posição de princípio entre um falcão e um pacifista: uma resistência militante pela protecção da vida.

 

Para alguns, esta escalada da guerra contra a guerra parece extrema: devia haver simplesmente mais marchas nos fins-de-semana, maiores da próxima vez, tão grandes que sejam impossíveis de ignorar. É evidente que devia haver mais marchas, mas também devia já ser claro que não há protesto suficientemente grande que os políticos não possam ignorar. Eles sabem que a opinião pública, na maior parte do mundo, está contra a guerra. O que eles estão a tentar avaliar, antes de as bombas começarem a cair, é se o sentimento anti­‑guerra é “duro” ou “suave”. A questão não é “será que as pessoas se preocupam com a guerra?”, mas “até que ponto elas se preocupam?” É uma pequena preferência de consumo contra a guerra, uma que se irá evaporar na próxima eleição? Ou é algo mais profundo e duradoiro – uma, digamos, preocupação de Hora H?

 

Numa das pontas do espectro que se preocupa, a Levi’s na Europa decidiu fazer dinheiro com o modismo anti­‑guerra lançando uma edição limitada de um urso de peluche com um símbolo da paz anexado à sua orelha. Podemos agarrá­‑lo e abraçá­‑lo enquanto vemos os alertas de terrorismo na CNN.

 

Ou podemos desligar a CNN, recusar ser um suave e aconchegante pacifista, sair à rua e parar a guerra.