Informação Alternativa

Iraque

22/12/2004

 

Quem parte, paga

 

Naomi Klein

The Nation; No Logo

 

Resulta que a loja Pottery Barn nem sequer tem uma regra que diga: “Quem parte, paga”. Segundo um porta­‑voz da companhia, «na rara ocasião em que se parte algo na loja, assume-se como perda». No entanto, a inexistente política de uma loja que vende saca­‑rolhas de 80 dólares ainda exerce mais influência nos Estados Unidos do que as Convenções de Genebra e a Lei de Guerra Terrestre do Exército Estadunidense combinadas. Como Bob Woodward [director adjunto do The Washington Post] apontou, Colin Powell evocou «a regra da Pottery Barn» antes da invasão, e John Kerry jurou lealdade a esta regra durante o primeiro debate presidencial. E a regra imaginária ainda é o instrumento embotado favorito para golpear qualquer um que se atreva a sugerir que já chegou a hora de retirar as tropas do Iraque: claro que a guerra é um desastre, argumentam, mas não a podemos parar agora – partes, é teu.

 

Embora não citando pelo nome a cadeia de lojas, Nicholas Kristof invocou este argumento numa recente coluna do The New York Times. «A nossa errada invasão deixou milhões de iraquianos desesperadamente vulneráveis, e seria desumano abandoná-los agora. Se ficarmos no Iraque, ainda há alguma esperança de que os iraquianos cheguem a desfrutar de segurança e de vida melhores, mas se sairmos, estaremos a condenar os iraquianos à anarquia, ao terrorismo e à fome, com o custo das vidas de centenas de milhares de crianças durante a próxima década».

 

Comecemos com a ideia de que os Estados Unidos estão a ajudar a prover segurança. Pelo contrário, a presença das tropas dos EUA provoca violência quotidiana. A verdade é que enquanto as tropas permaneçam, toda a estrutura de segurança do país – as forças de ocupação, bem como os soldados e os corpos de polícia iraquianos – estará exclusivamente dedicada a barrar os ataques da resistência, deixando um vácuo de segurança no que diz respeito a proteger os iraquianos comuns. Se as tropas saíssem, os iraquianos ainda enfrentariam insegurança, mas poderiam dedicar os seus recursos locais de segurança a restabelecer o controle sobre as suas cidades e bairros.

 

Quanto a prevenir a «anarquia», o plano estadunidense de levar eleições ao Iraque parece desenhado para despoletar uma guerra civil – a guerra civil necessária para justificar uma presença permanente das tropas dos EUA independentemente de quem ganhe as eleições. Sempre foi claro que a maioria xiita, que tem apelado para eleições imediatas há mais de um ano, nunca iria aceitar qualquer atraso no calendário eleitoral. E também era claro que, ao destruir Fallujah com o pretexto de preparar a cidade para eleições, grande parte da liderança sunita se veria forçada a apelar a um boicote das eleições.

 

Quando Kristof assegura que as forças estadunidenses deveriam ficar no Iraque para «salvar centenas de milhares de crianças» da fome, é difícil imaginar o que tem em mente. A fome no Iraque não é simplesmente um efeito secundário humanitário da guerra – é o resultado directo da decisão estadunidense de impor brutais políticas de “terapia de choque” a um país que já estava enfermo e debilitado por 12 anos de sanções. A primeira acção de Paul Bremer como administrador civil foi despedir 500.000 iraquianos, e o seu principal logro – pelo qual acabaram de lhe outorgar a Medalha Presidencial da Liberdade– foi supervisionar o processo de “reconstrução” que sistematicamente roubou empregos a iraquianos necessitados e os deu a empresas estrangeiras, fazendo com que a taxa de desemprego disparasse para 67%. E o pior dos choques ainda está para vir. Em 21 de Novembro, o grupo de países industrializados conhecido como o Clube de Paris desvelou finalmente o seu plano para a impagável dívida do Iraque. Em vez de a perdoar pura e simplesmente, o Clube de Paris expôs um plano de três anos para amortizar 80%, condicionado a que os futuros governos iraquianos adiram a um estrito programa de austeridade do Fundo Monetário Internacional. Segundo os primeiros rascunhos, o programa inclui «a reestruturação das empresas estatais» (leia-se: privatização), um plano que o Ministério da Indústria iraquiano prevê que irá requerer a demissão de outros 145.000 trabalhadores. Em nome das “reformas de livre mercado", o FMI também quer eliminar o programa que provê cada família iraquiana com um cesto de alimentos – a única barreira contra a fome para milhões de cidadãos. Há pressão adicional para eliminar as rações de alimentos que chegam da Organização Mundial de Comércio (OMC), que, a pedido de Washington, está a considerar aceitar o Iraque como membro – desde que adopte certas “reformas”.

 

Sejamos pois absolutamente claros: os Estados Unidos, tendo partido o Iraque, não estão no processo de consertá-lo. Simplesmente continuam a parti­r o país e as suas pessoas por outros meios, usando não apenas F-16s e Bradleys, mas agora o menos deslumbrante armamento das condições da OMC e do FMI, seguidas por eleições desenhadas para transferir a menor quantidade de poder possível aos iraquianos. Isto é o que o afamado escritor argentino Rodolfo Walsh, escrevendo antes do seu assassinato pela junta militar em 1977, descreveu como «miséria planeada». E quanto mais tempo os Estados Unidos fiquem no Iraque, mais miséria planeará.

 

Mas se ficar no Iraque não é a solução, também não o são os fáceis apelos na forma de enormes autocolantes para retirar as tropas e gastar o dinheiro em escolas e hospitais em casa. Sim, as tropas devem sair, mas esse só pode ser um dos andaimes de uma plataforma anti­‑guerra credível e moral. E as escolas e os hospitais do Iraque – os que eram supostos ser consertados pela Bechtel e que nunca o foram? Demasiadas vezes, as forças anti­‑guerra se têm­ mostrado reticentes a falar sobre o que os norte­‑americanos devem ao Iraque. Raramente é a palavra “compensação” pronunciada, e muito menos a mais carregada “reparações”.

 

As forças anti­‑guerra também fracassaram em oferecer apoio concreto às exigências políticas que surgem do Iraque. Por exemplo, quando a Assembleia Nacional Iraquiana condenou energicamente o acordo do Clube de Paris por forçar o povo iraquiano a pagar as dívidas “odiosas” de Saddam e por lhe roubar a sua soberania económica, o movimento anti­‑guerra ficou praticamente silencioso, salvo o tenaz mas pouco apoiado Jubilee Iraq. E conquanto os soldados estadunidenses não protejam os iraquianos da fome, as rações de alimentos sim o fazem – por isso, porque é que a salvaguarda deste tão necessitado programa não é uma das nossas exigências centrais?

 

O fracasso em desenvolver uma plataforma credível para além de “tropas fora” pode ser uma das razões pelas quais o movimento anti­‑guerra se mantém estancado, mesmo quando a oposição à guerra se aprofunda. Porque os dirigentes estilo Pottery Barn têm razão em algo: partir um país deveria acarretar consequências para quem o partiu. Ser dono do país partido não deveria ser uma delas, mas que tal pagar pelo conserto?