|
Informação Alternativa |
|
Iraque |
|
25/06/2006 A reconstrução não é ainda
uma realidade para Faluja Dahr Jamail Dahr
Jamail's MidEast Dispatches Um ano e meio depois do assalto militar estadunidense de Novembro de
2004 contra Faluja, os residentes falam‑nos do sofrimento existente,
da falta de trabalho, da escassa reconstrução e da contínua violência. O exército dos EUA lançou a operação Fúria Fantasmagórica contra a
cidade de Faluja – destruindo aproximadamente 70 por cento dos edifícios, casas
e lojas, e matando entre 4.000 e 6.000 pessoas, segundo a organização não‑governamental
Centro de Estudos pelos Direitos Humanos e a Democracia, com sede em Faluja (SCHRD
[sigla em inglês]). Descobrimos que a cidade continua submetida a draconianas medidas de
segurança biométricas, sendo requerido a qualquer pessoa que entre na cidade scans
da retina, registo de impressões digitais e exame de raios‑X.
Faluja continua a ser uma ilha: nem sequer se permite a entrada aos
residentes das aldeias e cidades vizinhas, como Karma, Habaniya e Khalidiya,
que estão sob a jurisdição administrativa de Faluja. A qualquer pessoa que queira entrar na cidade é exigido um cartão de
segurança. Para conseguir esse cartão é preciso ser originário de Faluja de
uma certa classe. Isto é, a quem for de Faluja e funcionário do governo, será
emitido um cartão de classe alta de grau G. Os jornalistas com um cartão de
grau X serão autorizados. Depois há cartões de grau B para os homens de
negócios e de grau C para aqueles que têm contratos com o exército
estadunidense na cidade. Por fim, há cartões de grau R, que não serão
admitidos para passar no controlo militar principal no lado leste da cidade,
e devem procurar entrada através de controlos de “segunda classe” noutros
locais. Depois de entrar na cidade pelo controlo militar principal, a
primeira coisa que se vê são as casas destruídas do bairro al-Askari.
Praticamente todas as casas desta zona foram complemente destruídas ou
seriamente danificadas. «Não pude reconstruir outra vez a minha casa porque a reconstrução é
actualmente muito cara», contou Walid, um oficial de 48 anos do antigo exército
iraquiano. Com tristeza nos olhos, contou como construíra a casa seis anos
antes. Depois da destruição, «Eles [exército dos EUA] pagaram-nos 70 por
cento da compensação e, com o desemprego que há na cidade, gastámos a maior
parte disso em comida e medicamentos. Agora todos esperamos os restantes 30
por cento». Versões ligeiramente diferentes desta mesma história poderiam ser
contadas por centenas de pessoas que perderam as suas casas nos
bombardeamentos de Abril e de Novembro de 2004. Do outro lado do rio Eufrates está o Hospital Central de Faluja.
Construído em 1964, o hospital não pôde funcionar durante ambos os assaltos
porque esteve ocupado pelo exército dos EUA. Os médicos estavam relutantes em falar‑nos, a menos que lhes
prometêssemos o anonimato. «Isto é mais um estábulo do que um hospital e não
nos orgulha trabalhar nele», afirmou um médico. «Há uma tremenda falta de
material e equipamento médico, e o Ministério da Saúde não faz muito quanto a
isso», acrescentou outro médico, também falando sob condição de anonimato. Quando mencionámos o novo hospital que está a ser construído na
cidade, um dos médicos replicou, com ironia, que metade das pessoas de Faluja
estarão mortas antes de o hospital projectado ser concluído. Declarou que é
essencial um plano de emergência para o hospital existente, sobretudo porque
as pessoas têm muito medo de procurar cuidados médicos em qualquer dos hospitais
de Bagdade, por receio de serem sequestradas e assassinadas por esquadrões da
morte. A situação é ainda mais complicada pelo facto de o Hospital Central de
Ramadi, utilizado amiúde pelos residentes de Faluja, já não estar acessível
devido ao actual cerco do exército dos EUA a essa cidade. Durante a entrevista dos médicos, juntaram-se pacientes e seus
companheiros e começaram a queixar-se da “falta de tudo” no hospital. «Vocês,
jornalistas, estão sempre a vir aqui e falam connosco, mas não há resultados»,
disse uma mulher idosa em tom de desafio. «Se me puser na televisão, eu
contarei ao mundo inteiro como é má a situação nesta cidade». No entanto, os médicos entrevistados louvaram o papel de algumas ONG
locais e internacionais que ocasionalmente tinham oferecido ajuda ao
hospital. Os habitantes de Faluja estão a lutar para sobreviver no meio de um
desemprego galopante, da falta de abastecimentos e da violência existente na
cidade. Num mercado de comestíveis, encontrámos outra faceta da história.
Haji Majeed Al Jumaily, de 64 anos, era ferreiro até as suas mãos terem perdido
a força. Perguntou ao merceeiro uma dúzia de vezes quanto custava um produto,
antes de dizer: «Só tenho 2.000 dinares, menos de um dólar e meio, para
gastar e não sei o que comprar com eles. É tudo tão caro e tenho de alimentar
os nove membros da minha família». Ele contou-nos como os seus dois filhos foram mortos há dois anos
por fogo fortuito do novo exército iraquiano. «Agora tenho de cuidar das duas
viúvas e dos seus seis filhos, bem como da minha mulher», disse. O mercado
estava cheio de gente, mas a pobreza era patente pela maneira como as pessoas
deambulavam de um lado para o outro, sopesando o que comprar com o que tinham
no bolso. «O desemprego em Faluja é um grande problema que deveria ser enfrentado»,
comentou Jassim Al Muhammadi, um advogado. «A situação económica desmorona-se
de dia para dia e as pessoas não sabem o que fazer. O cerco está a agravar
muito este problema». Ali Ahmed, um estudante de 17 anos, interrompeu: «Nesta cidade não
precisamos de comunicados de imprensa, senhor. Do que realmente precisamos é
de uma solução para o eterno problema desta cidade. […] Os americanos e os
iraquianos que estão no poder acusaram-nos de terrorismo, mataram milhares
dos nossos e agora limitam-se a falar de reconstrução. Ora, eles são todos
ladrões que só se interessam pelo que podem debicar das fortunas iraquianas.
Diga-lhes apenas que nos deixem em paz porque não queremos a sua reconstrução
fraudulenta». Ahmed acrescentou que os soldados estadunidenses continuam a
assassinar e a prender pessoas por qualquer motivo e, por vezes, sem motivo
nenhum. As infra‑estruturas em Faluja são simplesmente tão más como
em qualquer outra parte do Iraque. Os serviços de água, electricidade, gás
doméstico, gasóleo, telefone e telemóvel são muito fracos. Todos os
residentes entrevistados se queixaram da atitude indiferente do governo para
com eles. A maioria acreditava que era por razões sectárias, embora alguns pensassem
que acontecia o mesmo em todo o Iraque. O presidente de câmara de Faluja não esteve disponível para ser
entrevistado, mas na sua última aparição na televisão anunciou a sua
demissão. Na declaração televisiva de 14 de Junho, declarou com firmeza: «Os
americanos não cumpriram as promessas que me fizeram e por isso demito-me». Relatos semelhantes acerca da situação em Faluja foram emitidos em
21 de Maio pela Rede das Nações Unidas de Informação Regional Integrada (IRIN
[sigla em inglês]): « ainda há progressos lentos em assuntos humanitários, segundo
funcionários locais». O relatório afirmou que dois terços dos residentes da cidade
regressaram, mas 15 por cento continuam deslocados pelos arredores de Faluja,
«vivendo em escolas abandonadas e edifícios do governo». «Aproximadamente 65.000 estão ainda deslocadas fora de Faluja»,
informou Bassel Mahmoud, director dos projectos de reconstrução da cidade. O relatório da IRIN, semelhante ao que nós mesmos averiguámos,
afirmou: «Apesar de Bagdade ter destinado 100 milhões de dólares à
reconstrução da cidade e 180 milhões de dólares para compensações por
habitações [destruídas], muito pouco pode ver‑se à vista desarmada nas
ruas de Faluja em termos de reconstrução. Há edifícios destruídos em quase
todas as ruas. As autoridades locais dizem que 60 por cento de todas as casas
da cidade ficaram totalmente destruídas ou gravemente danificadas, e até
agora foram reparadas menos de 20%. […] Os sistemas eléctrico, de tratamento
da água e de esgotos continuam sem funcionar adequadamente e muitos bairros
da cidade estão sem água potável». Os habitantes queixaram-se-nos de que tinham menos de quatro horas
diárias de electricidade e de que havia uma grande frustração pelo facto de
pelo menos 30 por cento dos fundos destinados à reconstrução terem sido
desviados para pagar mais controlos militares e mais patrulhas de segurança
na cidade. E enquanto os cidadãos continuam à espera dos prometidos fundos de
compensação, dos 81 projectos de reconstrução aprovados para a cidade, foram
concluídos menos de 30 e muitos outros serão muito provavelmente cancelados
devido à falta de financiamento, de acordo com um membro da Câmara Municipal
de Faluja, que nos falou sob anonimato. As estimativas actuais da quantia necessária para reconstruir o
Iraque situam‑se entre os 70 e os 100 mil milhões de dólares. Só 33
por cento dos 21 mil milhões de dólares inicialmente destinados pelos Estados
Unidos à reconstrução não foram gastos. Segundo um relatório do
inspector-geral estadunidense para a reconstrução do Iraque, os funcionários
foram incapazes de dizer quantos dos projectos programados concluiriam, nem
tão pouco há uma fonte clara [de financiamento] para as centenas de milhões
de dólares anualmente necessários para a manutenção dos projectos que foram
concluídos. E quanto a Faluja em particular, a segurança absorveu tanto como 25%
dos fundos de reconstrução, mas diz‑se que ainda mais foi desviado
pela corrupção e pelos preços inflacionados dos contratistas. No ano passado, foi criada uma equipa de inspecção do Congresso dos
EUA para monitorar a reconstrução no Iraque. Em 1 de Maio, publicou um relatório
mordaz sobre o fracasso dos contratistas estadunidenses em levarem a cabo
projectos no valor de centenas de milhões de dólares. O relatório assinalava
também que perto de nove mil milhões de dólares em receitas do petróleo
iraquiano que tinham sido desembolsados para os ministérios estavam «desaparecidos». |