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20/06/2006 Os habitantes lutam para
sobreviver, dentro e fora de Ramadi Dahr Jamail; Ali Fadhil Enquanto se aproxima a ameaça duma gigantesca operação militar
estadunidense em Ramadi e os confrontos esporádicos são uma praga quotidiana
na cidade, os habitantes lutam para sobreviver, tanto dentro como fora da
cidade sitiada. Uma semana passada em Ramadi, capital da província de Al-Anbar a
oeste de Bagdade, revela que os habitantes estão a sofrer com a falta de
água, electricidade, gás para cozinhar e medicamentos nos hospitais. As ruas
estão inquietantemente vazias, e parece que muita gente já abandonou a
cidade, embora possivelmente tanto como 150.000 habitantes ainda permaneçam
nas suas casas, seja porque têm demasiado medo de partirem ou porque não têm
para onde ir. «De alguma maneira havemos de sobreviver», disse à IPS Um Qasim, uma
dona de casa de meia idade, mãe de seis filhos. «É Alá quem dá a vida e só ele
a pode tirar». Apesar das horríveis condições de vida locais, com grupos da resistência
armada controlando grandes zonas da cidade, e outras áreas sujeitas a frequentes
ataques dos atiradores furtivos estadunidenses postados nos telhados das
casas, ela disse que as pessoas devem dar graças ao seu deus
independentemente do que lhes aconteça, acrescentando: «Esses americanos
hão-de ir embora». A operação faz parte duma repressão renovada sobre o que o Pentágono
afirma ser um baluarte da resistência árabe sunita. À medida que um ataque
estadunidense maciço contra a cidade se aproxima, Imad Al‑Muhammadi,
do Crescente Vermelho Iraquiano em Ramadi, disse à IPS: «A crise de Ramadi é
muito mais complicada do que a crise de Faluja, porque as pessoas não podem
fugir para Bagdade nem para muitas outras cidades por causa da ameaça dos esquadrões
da morte sectários, pelo que se torna muito difícil arranjar‑lhes um
abrigo seguro a uma distância razoável das operações militares». Muhammadi disse que muitas das famílias que fugiram se estão a
confrontar com «terríveis condições de vida em tendas de campanha, escolas
abandonadas e ficam sob qualquer tecto que as proteja do sol abrasador do
verão». «Não há qualquer sinal favorável, da parte americana, que indique
uma solução diferente das de Faluja e outras cidades que foram “apagadas”
para serem “libertadas”», acrescentou. «Os civis, como sempre, são os que
vivem os rigores da ocupação e, definitivamente, os que morrem em vão». Segundo Maurizio Mascia, director do programa do Consórcio Italiano
de Solidariedade (CIS), uma organização não governamental com base em Amã, na
Jordânia, que providencia ajuda a refugiados do Iraque, foram reportados pequenos
confrontos na segunda-feira, sobretudo [nos bairros de] Al‑Qadisiya,
Al-Mala’ab, Al‑Andalus, Al-Aramel, Al-Aziziya, Al-Qatana, Al-Soufiya,
no centro da cidade (perto da mesquita de Abd Al‑Jaleel) e ainda no
bairro 30 de Julho. Além disso, soube-se que as forças estadunidenses e iraquianas estão
a atacar a zona leste da cidade, na tentativa de fazer pressão sobre Ramadi. O CIS informa que o número de barreiras militares e a frequência das
patrulhas das forças multinacionais (FMN) aumentaram desde o início da crise,
tornando provável que tanto as forças iraquianas/FMN como as insurgentes se
estejam a preparar para uma batalha muito dura. «A população ainda está a abandonar a cidade e o número de famílias
que se estão a deslocar detectadas em Al‑Anbar por monitores do CIS é agora
perto de 3.200», disse Mascia à IPS por telefone. «As novas PDIs [pessoas deslocadas
internamente] estão a chegar sobretudo a Rutba e Al-Bagdadi, enquanto Hit
continua a ser o principal destino dos novos PDIs de Ramadi». Ele afirmou que
cerca de 1.000 famílias PDI se encontram agora em Faluja e em zonas circundantes. No entanto, acrescentou que «A maioria das famílias estão a evitar
aproximar-se de Faluja devido aos complicados procedimentos estabelecidos
pela FMN para entrar na cidade». Mascia afirmou que o número de famílias
contabilizadas pelo CIS é quase certamente baixo, pois a sua organização só
regista famílias que recebem ajuda directa dos seus funcionários. «Os americanos, em vez de atacaram a cidade toda de uma vez, como
fizeram nas operações anteriores em cidades como Faluja ou Al-Qaim, estão a
usar helicópteros e tropas terrestres para atacar um bairro de cada vez em
Ramadi», declarou Mascia à IPS a partir do seu escritório em Amã. «O acesso a Ramadi é extremamente difícil», continuou. «Foram instaladas
barreiras militares nas duas pontes, tornando extremamente difícil entrar de
carro na cidade. A única opção possível para evitar os controlos militares é o
caminho do deserto que conduz ao bairro de Al-Ta’meem». «Os principais perigos para a população são as FMN nos controlos militares
e os atiradores furtivos: ambos habitualmente disparam ao menor movimento que
considerem perigoso – o que provoca muitas vítimas entre os civis». Segundo Mascia, os serviços no hospital principal, assim como nos
centros de saúde, estão a descer para um «nível mínimo devido à situação de
segurança e à falta de medicamentos». De forma idêntica às tácticas empregues durante o assalto
estadunidense a Faluja, em Novembro de 2004, o exército estadunidense
continua a usar megafones para exigir às pessoas, ou que entreguem “insurgentes”
que estejam nos seus bairros, ou que evacuem as suas casas e saiam da cidade.
O CIS informou que algumas das mensagens fizeram especificamente referência ao
que aconteceu em Faluja. Correspondentes do londrino Instituto de Informação para a Guerra e
a Paz (IIGP) em Bagdade informaram recentemente sobre a utilização de
atiradores furtivos por parte do exército dos EUA em Ramadi: «As pessoas em
Ramadi [...] calculam que cerca de 70 por cento da população da cidade fugiu
na semana passada, muitos deles portando bandeiras brancas com medo de serem
alvejados por atiradores furtivos da Marinha». O correspondente da IPS em Ramadi também foi testemunha de disparos
de atiradores furtivos contra civis na cidade. «A violência existente entre os marines estadunidenses e os
insurgentes, os ataques aéreos, e os cortes nas redes de abastecimento de
água, electricidade e telefone, já tornaram a vida insustentável», acrescenta
a informação do IIGP. «Os habitantes de Ramadi afirmam que as tropas estadunidenses
assaltam regularmente as casas para lutarem contra os insurgentes, e viram-se
combatentes de ambos os lados a usarem os telhados como posições de tiro
furtivo». A Associação dos Ulemas Muçulmanos, com sede em Bagdade, incitou os
habitantes de Hit, situada perto de Ramadi, a acolherem aqueles que fogem da
cidade. Algumas famílias mais vulneráveis estão também instaladas em
mesquitas que estão a oferecer abrigo aos refugiados. Um membro do IIGP em Bagdade escreveu que um estudante de 17 anos,
Ghayath Salim Al-Dulaimi, que fugiu de Ramadi com os pais, declarou que os
seus familiares tinham sido impedidos de sair por ataques aéreos
estadunidenses dois dias antes. «O nosso bairro esvaziou-se completamente – não ficou ninguém»,
disse ao IIGP. «As pessoas estão a fugir em debandada e não há absolutamente
nenhum serviço. Não se pode ir ao hospital porque os movimentos estão restringidos». Em resposta a uma pergunta sobre a situação em Ramadi, numa conferência
de imprensa em 15 de Junho, o brigadeiro general Carter Ham, do Pentágono,
afirmou: «Penso que aqueles que estão à procura talvez de uma ofensiva em
larga escala, poderão estar algo desfasados. E penso que o que vamos ver,
cada vez mais, é os iraquianos a encontrarem formas de estabelecer, cada vez
mais, a presença de forças de segurança iraquianas, e nós ajudá-los-emos a
fazer isso como pudermos». |