|
Informação Alternativa |
|
Iraque |
|
30/05/2006 Incontáveis massacres do
tipo My Lai no Iraque Dahr Jamail * A actual agitação mediádica
em torno do que chamam “My Lai iraquiano” tornou-se frenética. O relevo dado
a estes marines dos EUA que chacinaram pelo menos 20 civis em Haditha no
passado mês de Novembro faz lembrar o estertor mediático em torno do
“escândalo” de Abu Ghraib em Abril e Maio de 2004. E no entanto, tal como no
caso de Abu Ghraib, enquanto os holofotes dos médias estão apontados para o
caso específico de Haditha, um sem número de atrocidades são cometidas todos
os dias e são convenientemente ocultadas do público em geral. As torturas não
acabaram pelo simples facto de os médias terem decidido, mesmo que
vergonhosamente tarde, dar cobertura à história, e as agressões diárias
contra civis iraquianos por forças dos EUA e forças de “segurança” iraquianas
apoiadas pelos EUA também não pararam por isso. Já neste mês, recebi uma
notícia do Iraque onde se podia ler: «No sábado, 13 de Maio de 2006 às 10 da
manhã, forças dos EUA acompanhadas por elementos da Guarda Nacional Iraquiana
atacaram casas de iraquianos em Al-Latifya, bairro do sul de Bagdade, com um
intenso bombardeamento de helicópteros. Isso obrigou as famílias a fugir para
o Al-Mazar e para os canais de água para se protegerem do violento
bombardeamento. Os sete helicópteros aterraram para perseguir as famílias em
fuga… e mataram-nas. O número de vítimas eleva-se a mais de 25 mártires. As
forças estadunidenses prenderam mais seis pessoas, incluindo duas mulheres
chamadas Israa Ahmed Hasan e Widad Ahmed Hasan, e uma criança chamada Huda
Hitham Mohammed Hasan, cujo pai fora morto durante o bombardeamento». O relatório da ONG iraquiana
chamada Rede de Monitorização dos Direitos Humanos no Iraque (MHRI)
prosseguia: «As tropas não ficaram por aqui. Realizaram um ataque em 15 de
Maio 2006, também apoiado por elementos da Guarda Nacional Iraquiana. Mais
uma vez atacaram as casas das famílias e prenderam uma série delas, enquanto
outras fugir. Atiradores furtivos estadunidenses usaram então as casas
assaltadas para alvejar mais iraquianos. A razão dada para este crime foi o
abatimento de um helicóptero numa zona próxima desta, onde se deu o ataque». Os militares dos EUA acharam
por bem relatar o incidente como uma ofensiva em que abateram 41 “insurrectos”,
orientação efectivamente papagueada pela maior parte dos médias. No mesmo dia, o MHRI também
relatou que, no bairro Yarmouk de Bagdade, forças dos EUA fizeram um raide
contra a casa de Essam Fitian al-Rawi. Al-Rawi foi morto, assim como o seu
filho Ahmed; então os soldados confirmadamente removeram os dois corpos
juntamente com o sobrinho de Al-Rawi, que foi preso. Do mesmo modo, na cidade de
Samarra, em 5 de Maio, o MHRI relatou que «soldados estadunidenses entraram
em casa do senhor Zidan Khalif Al-Heed depois de um ataque contra soldados
estadunidenses feito a partir das proximidades da casa. Os soldados
estadunidenses entraram na casa e mataram a família, incluindo o pai, a mãe e
a filha, aluna do 6º ano, e ainda o filho, que padecia de deficiências
mentais e físicas». Esta mesma organização, o
MHRI, também calculou entre 4.000 e 6.000 o número de civis iraquianos
assassinados durante o ataque feito pelos EUA, em Novembro de 2004, contra a
cidade de Faluja. Números que, comparados com os de Haditha, os fazem parecer
bem pequenos. Os meios de comunicação
dominantes, em vez de referirem casos como estes, apresentam Haditha como um
dos incidentes pouco frequentes que «constituem um desafio grave à capacidade
dos EUA para controlarem a guerra do Iraque, como indicara o escândalo da
prisão de Abu Ghraib». Marc Garlasco, da Human
Rights Watch, disse recentemente aos jornalistas: «O que aconteceu em Haditha
revela‑se como um assassinato puro e simples. O massacre de Haditha
será lembrado como o My Lai iraquiano». Depois, há a realidade diária
da limpeza sectária e étnica no Iraque, que está a ser levada a cabo por
forças de “segurança” apoiadas pelos EUA. Exemplo recente disso foi
apresentado por um representante da Associação Voz da Liberdade pelos
Direitos Humanos, outra ONG iraquiana, que enumera as continuadas atrocidades
resultantes da ocupação dos EUA. «O representante … visitou a
aldeia de Fursan (Bani Zaid) com a secção de al-Madayin do Crescente Vermelho
iraquiano. A aldeia, com 60 casas, habitadas por famílias sunitas, foi
atacada em 27 de Fevereiro de 2006 por grupos de homens vestidos de negro e
que se deslocavam em carros do Ministério do Interior. A maior parte dos
aldeões escaparam, mas oito deles foram capturados e imediatamente
executados. Um deles era o imã da mesquita da aldeia, Abu Aisha, e outro era
um rapazinho de 10 anos, Adnan Madab. Foram executados dentro do quarto onde
estavam escondidos. Muitos animais (ovelhas, vacas e cães) foram também
mortos a tiro pelos homens armados. A mesquita da aldeia e a maior parte das
casas foram destruídas e incendiadas». O representante obteve essa
informação através de quatro homens que tinham fugido ao massacre e agora
regressavam para contar os pormenores. Todos os outros sobreviventes tinham
partido para Bagdade em busca de refúgio. «Os sobreviventes que regressaram
para contar os pormenores guiaram o representante e o pessoal do Crescente
Vermelho até ao local onde os corpos haviam sido enterrados. Eram corpos de
homens, mulheres e de um dos bébés da aldeia». Acerca deste caso, o director do MHRI, Muhamad T. Al-Deraji, disse: «Esta situação é apenas uma parte de um problema mais vasto que é orquestrado pelo governo… a demora em proteger mais aldeões destes ataques só pode fazer aumentar o número de tragédias». Arun Gupta, jornalista de
investigação do jornal New York Indypendent do New York Independent
Media Center, tem escrito muito sobre as milícias e os esquadrões da morte
apoiados pelos EUA no Iraque. Ele é também ex-editor do Guardian Weekly
em Nova Iorque e escreve frequentemente para o Z Magazine e o Left
Turn. «O facto é que, embora eu
ache que, até certo ponto, as milícias podem ter escapado ao controlo dos
EUA, são os EUA que treinam, armam, financiam e abastecem todas as forças de
polícia e militares, e que lhes dão o apoio logístico fundamental», disse-me
ele esta semana. «Por exemplo: houve informações, no princípio do ano, de que
uma unidade de militares estadunidenses apanhara um “esquadrão da morte” a
operar no interior da Patrulha Iraquiana das Estradas. Houve as habituais
afirmações de que os EUA nada tinham a ver com essa gente. É uma mentira
total. Os jornalistas estadunidenses são preguiçosos. Bastava terem
investigado um pouco mais e encontravam por ali montes de material que provaria
como os EUA tinham organizado a patrulha das estradas, e tinham organizado
uma escola de treino específico para ela, e a tinham armado, e tinham
construído todas as suas bases, etc. Tudo isto se encontra em documentos do
governo, por isso é irrefutável. Mas eles dizem aos médias que nós não temos
nada a ver com essa gente e nem se dão ao trabalho de ir verificar. Em
qualquer caso, para mim esta história é significativa porque mostra como os
EUA tentam ocultar o seu envolvimento». Uma vez mais, como no caso de
Abu Ghraib, alguns soldados dos EUA estão a ser investigados acerca do que se
passou em Haditha. A história das “algumas maçãs podres” vem sendo repetida
com o objectivo de esconder o facto de que os iraquianos são massacrados em
cada dia que passa. A directiva “atirar primeiro, perguntar depois”, que, na
realidade, está em vigor desde o início da guerra do Iraque, cria o “gosto
pelo gatilho” nos soldados estadunidenses e nos esquadrões da morte
iraquianos, por eles apoiados, que não têm qualquer respeito pelas vidas do
povo iraquiano. No entanto, em vez de se levar a julgamento altos
funcionários do governo de Bush que dão as ordens, incluindo o próprio Bush,
pelos crimes de que muito certamente são culpados, temos este cerimonial de “enforcamento
público” de um punhado de soldados rasos pelos crimes que cometeram no
terreno. Numa entrevista à CNN em 29
de Maio, acerca do massacre de Haditha, o Chefe do Estado-Maior Interarmas,
general Peter Pace, comentou: «Vai demorar algumas semanas a completar essas
investigações, e não deveríamos antecipar os seus resultados. Mas deveríamos,
de facto, como dirigentes, assumir a responsabilidade de nos mexermos e de
irmos falar às nossas tropas, assegurando-nos de que elas compreendem que o
que 99,9 por cento delas andam a fazer, isto é, combater com honra e coragem,
é exactamente o que delas esperamos». Este é o mesmo Peter Pace
que, questionado por Tim Russert, no Meet the Press de 5 de Março passado,
respondeu: «Eu diria que eles estão a ir bem. Não vou ostentar um sorriso de
orelha a orelha, mas diria que estão a ir muito, muito bem em todos os
aspectos…» As coisas não «estão a ir muito, muito bem» no Iraque. Houve inúmeros massacres tipo My Lai e nós não podemos acusar 0,1 por cento dos soldados no terreno por assassinarem nada menos de 250 mil iraquianos, quando, para começar, foi precisamente a orientação política do governo de Bush que deu origem à ocupação falhada. _______ * Dahr Jamail é um jornalista independente
que passou mais de 8 meses reportando a partir do Iraque ocupado. Ele
apresentou provas dos crimes dos EUA no Iraque perante a Comissão
Internacional de Inquérito sobre Crimes Contra a Humanidade Cometidos pela
Administração Bush, na cidade de Nova Iorque em Janeiro de 2006. A sua página
é dahrjamailiraq.com. |