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14/04/2006 A morgue de Bagdade
transborda diariamente Dahr Jamail; Arkan Hamed À medida que as matanças sectárias continuam a recrudescer no Iraque, a morgue central de Bagdade é incapaz de dar vazão ao influxo diário de corpos. «A média é, provavelmente, cerca de 85», disse o funcionário na manhã do dia 12 de Abril, enquanto grandes quantidades de familiares esperavam fora do edifício para verificar se os seus entes queridos estavam entre os mortos. A família de um homem chamado Ashraf, que tinha sido preso pela polícia iraquiana no dia 16 de Fevereiro, procurava ansiosa em fotografias digitais no interior da morgue. Aí encontraram o que procuravam. «Os seus dois filhos foram assassinados quando Ashraf foi preso», disse o seu tio Aziz, de 50 anos. «Ashraf era um pedreiro que estava simplesmente a tentar fazer o seu trabalho, e agora vemos o que aconteceu com ele na nossa nova democracia». Aziz soube que o corpo de Asharaf foi levado para o morgue pela polícia iraquiana no dia 18 de Fevereiro, dois dias depois de ter sido raptado. As fotografias do corpo mostravam ferimentos de tiros na cabeça e marcas de pancadas no rosto. Aparentemente, ambas os braços estavam partidos, e tantos buracos tinham sido perfurados no seu peito que parecia retalhado... Um relatório divulgado no dia 29 de Outubro de 2004 no jornal médico britânico The Lancet afirmara que «segundo estimativas conservadoras, pensamos que se deram aproximadamente cem mil mortes excessivas ou mais desde a invasão do Iraque em 2003». Numa actualização, Les Roberts, o principal autor do relatório, disse no dia 8 de Fevereiro deste ano que podem ter havido 300.000 mortes de civis desde a invasão. Tais estimativas coincidem com a informação obtida pela IPS na morgue de Bagdade. Um funcionário da morgue disse que os corpos não reclamados após 15 dias são transferidos para a administração de cemitérios, para serem registrados, e depois levados para serem enterrados num cemitério em Najaf. Enquanto ele falava, chegaram à morgue três carrinhas da polícia iraquiana, cada uma carregada com cerca de dez cadáveres. Na administração de cemitérios, um funcionário contou à IPS: «De 1 de Fevereiro a 31 de Março registámos e enterrámos 2.576 corpos de Bagdade». Os pedidos da IPS para um encontro com funcionários da administração da morgue de Bagdade foram recusados por «razões de segurança». Vários estudos apontaram para grandes quantidades de mortes civis como consequência da ocupação conduzida pelos EUA. A organização humanitária Iraqiyun, vinculada ao partido político do presidente interino, Ghazi al‑Yawir, informou, no dia 12 de Julho do ano passado, que tinham ocorrido 128.000 mortes violentas desde a invasão. A organização afirmou que só tinha contado as mortes confirmadas por familiares, e que tinha omitido a grande quantidade de pessoas que, simplesmente, desapareceram sem deixar rastro... Outra organização, a Kifah do Povo, envolveu centenas de académicos e voluntários numa pesquisa realizada em coordenação com «coveiros de todo o Iraque». A organização afirmou que também «obteve informação de hospitais e falou com milhares de testemunhas que viram incidentes nos quais civis iraquianos foram mortos por fogo estadunidense». O projecto foi abandonado depois de um dos investigadores ter sido capturado por membros de milícias curdas e entregue às forças estadunidenses. Nunca mais foi visto. Porém, em menos de dois meses de trabalho, a organização documentou cerca de 37.000 mortes violentas de civis até Outubro de 2003. Só a morgue central de
Bagdade contabiliza, aproximadamente, 30.000 cadáveres por ano. Isso fora o
grande número de corpos levados para morgues em cidades como Basra, Mosul,
Ramadi, Kirkuk, Irbil Najaf e Karbala. |