Informação Alternativa

Iraque

04/11/2005

 

Dez perguntas e respostas, com Dahr Jamail

 

Don Nash

Unknown News

 

Dahr Jamail


Dahr Jamail é originário de Anchorage, Alasca. Farto da incapacidade geral dos media dos EUA de relatar com rigor as realidades da guerra no Iraque para o povo iraquiano e os soldados dos EUA, deslocou-se ao Iraque para ser ele próprio a noticiar a guerra.


(...)

Jamail passou um total de oito meses no Iraque ocupado como um de poucos jornalistas independentes dos EUA no país. Dahr utiliza o seu sítio www.dahrjamailiraq.com e a sua popular lista de email para disseminar os seus despachos.


P: Como está realmente o Iraque, dois anos e meio após a invasão dos EUA?


A maior parte do Iraque é um desastre e encontra-se num estado de caos total.


A situação de segurança será mais bem descrita como uma brutal guerra de guerrilha, numa espiral sem controlo há mais de um ano. Há mais de 70 ataques por dia, em média, às forças americanas e admite-se que venham a aumentar nos próximos meses.


O mito de que as forças militares americanas controlam qualquer parte do Iraque não passa disso mesmo – um mito. Até a "Zona Verde" fortemente fortificada é regularmente atingida com morteiros. Se queremos entrar ou sair pelo Aeroporto Internacional de Bagdade, temos que estar preparados para uma aterragem/subida em espiral... visto que é assim que é necessário dada a incapacidade dos militares em proteger a área em volta do aeroporto. Tal como no Vietname, os aviões podem ser abatidos se não utilizarem o método da subida ou aterragem em espiral.


As infraestruturas estão em ruínas. Para a maioria das companhias ocidentais, os contratos caríssimos que lhes foram entregues, sem concurso público, no Iraque, são o contrato dos seus sonhos – lucros garantidos sem qualquer preocupação. Companhias como a Bechtel receberam por inteiro e pelo seu contrato inicial um valor de 860 milhões de dólares e assinaram contratos num total de mais de 3.800 milhões de dólares, apesar do facto de muitos dos projectos do contrato inicial ainda nem sequer terem começado.


Entretanto, os iraquianos sofrem e morrem de doenças transmitidas pelas águas, a desnutrição infantil está pior do que durante o tempo das sanções e o desemprego ultrapassa os 70 %.


P.: Qual é o sentimento do povo iraquiano em geral sobre a ocupação americana?


Segundo uma sondagem recente encomendada pelas forças militares britânicas, 82% dos iraquianos querem que todas as forças de ocupação saiam do seu país, menos de 1% acha que as forças de ocupação melhoraram a segurança, e 45% reconhecem abertamente o sentimento de que são justificados os ataques contra as forças americanas. É bastante semelhante ao que observei durante os 8 meses que estive no Iraque, com a diferença de que encontrei uma percentagem maior (maior do que 45%) de iraquianos que apoiam a resistência iraquiana.

P.: Alguém sabe quantos iraquianos estão detidos pelos americanos?


Ninguém. Mas actualmente há um grande número de pessoas desaparecidas no Iraque (mais de 100 mil, segundo duas ONGs [organizações não-governamentais] iraquianas que conheço), muitas das quais se julga terem sido detidas pelos americanos. Uma das ONGs, Doctors for Iraq Society, calcula que há 60 mil iraquianos na instalações prisionais americanas no Iraque.


P.: O que aconteceu de facto em Faluja e em Ramadi?


Durante o cerco a Faluja, em Novembro de 2004, 60% da cidade ficou completamente destruída. A maior parte do restante também sofreu danos mais ou menos graves. As ONGs iraquianas e os trabalhadores de saúde avaliam em mais de 400 os mortos em Faluja e nos seus arredores, a maior parte deles civis. Até hoje, mais de 50 mil residentes de Faluja continuam deslocados.


As forças militares americanas utilizaram montanhas de bombas, munições de urânio empobrecido, e fósforo branco (uma nova forma de napalm) durante o cerco e, segundo parece, também utilizaram alguns tipos de armas químicas.


Já descrevi Faluja como uma Guernica dos dias de hoje, e prefiro chamar-lhe um massacre em vez de um cerco. Faluja é o modelo da política externa da administração Bush. Praticamente não houve ainda nenhum trabalho de reconstrução na cidade, ao contrário do que foi prometido pelas autoridades de ocupação.


P.: Há no Iraque outras cidades destruídas pelas forças militares americanas de que não tenhamos ouvido falar?

Pode ser que muita gente nos EUA não tenha ouvido falar de Al-Qa'im, de Kerabla, de Najaf (desde as intifadas de Muqtada al-Sadr), de Haditha, de Hit e de partes de Baquba, de Bagdade, de Ramadi e de Samarra que sofreram uma destruição em grande escala devido a operações militares americanas.


P.: O Iraque já se encontra em guerra civil?


Já, uma guerra civil apoiada pelo estado. O governo fantoche iraquiano manobrado pelos EUA está a utilizar o Exército Badr (xiita) e as milicias curdas Peshmerga para combater uma resistência principalmente sunita. A maioria dos iraquianos comuns odeiam a ideia duma guerra civil, mas temem a possibilidade de que ela aconteça visto que a táctica apoiada pelos EUA de dividir para conquistar está a avançar no Iraque ocupado.


P.: O que é que o povo iraquiano pensa do povo americano?


Felizmente, a maioria está pronta a distinguir entre o governo dos EUA e o povo americano. Mas infelizmente, em locais como Faluja, Haditha e Al-Qa'im, onde as operações americanas provocaram tantas mortes e tanta destruição, essa distinção ficou esborratada e perdida.


P.: Abu Musab al-Zarqawi está vivo?


Pessoalmente, não acredito que esteja vivo. Fartei-me de procurar sabê-lo quando estive da última vez na Jordânia, ao visitar a cidade donde é Zarqawi (al-Zarga), e depois de entrevistar muitos dos seus vizinhos e velhos amigos cheguei à conclusão de que a maior parte deles acha que ele foi morto em Tora Bora, no Afeganistão, durante a campanha americana de bombardeamento que se seguiu aos acontecimentos de 11 de Setembro.

Acho que todas as afirmações de que ele é um líder da resistência iraquiana ou de um grupo terrorista fazem parte da propaganda de estado dos EUA.


P.: O povo iraquiano tem alguma esperança no futuro?


Não muita, hoje em dia. Muitos dos que podem fazê-lo, vão-se embora do Iraque. Os que não têm outra hipótese senão ficar no Iraque enfrentam uma violência continuada e crescente, sem reconstrução, um estado fundamentalista e uma ocupação americana interminável que foi um fracasso mesmo antes de começar.


P.: O povo americano é obrigado a ajudar o povo iraquiano? E o que é que se pode fazer?


O povo americano tem a estrita obrigação de ajudar o povo iraquiano porque foi por culpa do povo americano que a camarilha de Bush foi autorizada a invadir o Iraque. Qualquer cidadão americano que não esteja a fazer todo o possível para acabar com esta ocupação ilegal e imoral o mais depressa possível é cúmplice dos crimes de guerra que estão a ser cometidos diariamente no Iraque.