Informação Alternativa

Médio Oriente

03/02/2006

 

Al Jazeera, sucesso sob pressão

 

Dahr Jamail

Dahr Jamail’s Iraq Dispatches

 

Os seus escritórios no estrangeiro foram bombardeados por aviões dos EUA, foi proibida de informar de quatro países do Médio Oriente – e a Al Jazeera não faz mais do que crescer em popularidade.

 

Um caminho interessante e por vezes trágico levou ao sucesso da Al Jazeera desde o seu lançamento em Novembro de 1996. As suas dificuldades têm sido também o seu sucesso; a proibição de informar a partir do Iraque, Irão, Arábia Saudita e Argélia nada fez para diminuir uma fervorosa lealdade de mais de 40 milhões de espectadores.

 

O escritório da Al Jazeera no Afeganistão foi bombardeado por aviões dos EUA em 2001. Durante a invasão do Iraque, tanques estadunidenses bombardearam jornalistas da Al Jazeera num hotel de Basra. Pouco depois, a sua sede em Bagdade foi atingida por um míssil lançado de um avião estadunidense; o correspondente Tareq Ayoub foi morto.

 

Repórteres da Al Jazeera foram detidos por forças dos EUA e colocados em prisões no Iraque e na Baía de Guantánamo em Cuba. Suportou ataques verbais do secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, e de responsáveis governamentais em muitos países do Médio Oriente.

 

«Posso definitivamente dizer que o que a Al Jazeera está a fazer é maldoso, impreciso e indesculpável», disse Rumsfeld aos repórteres no dia 15 de Abril de 2004 depois de a Al Jazeera ter mostrado corpos de mulheres e crianças mortos por bombas dos EUA em Faluja.

 

O presidente dos EUA George W. Bush tentou convencer o primeiro-ministro britânico Tony Blair a concordar em bombardear o escritório central da Al Jazeera em Doha, no Qatar, em Novembro desse ano, segundo uma reportagem do jornal britânico Daily Mirror que citou minutas “top secret” de uma reunião onde isto foi discutido.

 

Num fórum da Al Jazeera sobre os media em Doha esta semana, a IPS perguntou a Samir Khader, editor de programação da emissora, se a reportagem sobre um plano de ataque ao seu escritório central havia afectado o seu trabalho.

 

«Pensa que por causa de tal memorando temos de deixar de trabalhar?», disse ele. «Claro que não podemos. Temos de fazer o nosso trabalho. Se o memorando existe e George Bush queria bombardear a Jazeera, o que podemos fazer? Eles podem fazer isso, e o mundo inteiro saberá».

 

Khader, que figurou num documentário bem conhecido sobre o canal chamado Control Room [Sala de Controle], acrescentou: «Não é porque um  jornalista é ameaçado que deixará de fazer o seu trabalho».

 

Questionado sobre se a Al Jazeera recebeu uma explicação sobre a reportagem, Khader disse: «Não. O porta­‑voz oficial do governo britânico disse que não havia nada nesse memorando que se referisse à Al Jazeera, e Tony Blair também disse isso na Câmara dos Comuns. Mas ao responder a outras perguntas de cidadãos britânicos, o mesmo porta-voz reconheceu que esse memorando existe, e que há uma referência à Al Jazeera. Por isso, há uma contradição nas suas próprias declarações».

 

Khader afirmou que a Al Jazeera ainda espera por uma resposta dos dois governos.

 

O director geral Wadah Khanfar disse à IPS que há uma força motriz na cadeia noticiosa que a propulsiona através de tempos desafiadores.

 

«Por vezes a única coisa que nos faz avançar é o apoio da nossa audiência», disse. «Mas também porque temos pessoas realmente grandiosas a trabalhar aqui, bem como jornalistas com formação profissional fixos, independentes e condutores».

 

Khanfar afirmou que o canal constrói a sua reputação de sucesso frente à hostilidade.

 

«Existe agora uma cultura, que criamos com o nosso estilo de informar, de que os regimes opressivos têm mais dificuldade agora em deter a Al Jazeera», disse Khanfar. «Se você, como jornalista, quer ser leal à sua profissão, sabe que às vezes vai ser difícil obter a notícia, mas tem que o fazer de qualquer maneira se é de todo possível».

 

Esta atitude impeliu os seus repórteres em Faluja a conseguir imagens de civis mortos por soldados dos EUA. Este repórter também testemunhou os ataques sobre civis e ambulâncias em Faluja na época...

 

O general Mark Kimmitt, o principal porta-voz do exército dos EUA no Iraque durante o cerco a Faluja, em Abril de 2004, havia dito então: «As estações que estão a mostrar americanos matando intencionalmente mulheres e crianças não são fontes noticiosas legítimas».

 

Uma jovem jornalista que escreve para o site da Al Jazeera em inglês, estava relutante em dar o seu nome, mas quando questionada se enfrentava pressão do exército dos EUA ou de governos repressivos na região, afirmou: «Não directamente, mas desde que sabemos que estamos a ser tão intensamente escrutinados, sinto uma maior responsabilidade para fazer bem o meu trabalho».

 

Será que os outros jornalistas da Al Jazeera sentiam o mesmo? «Não sente isso todo o jornalista nos dias que correm?», perguntou.