Informação Alternativa

Iraque

20/01/2006

 

Uma vila torna­‑se uma prisão

 

Dahr Jamail; Arkan Hamed

Dahr Jamail’s Iraq Dispatches

 

As pessoas da vila de Siniyah, 200 quilómetros a norte de Bagdade, estão furiosas por causa de um muro de areia de aproximadamente 10 quilómetros construído pelas tropas dos EUA para conter ataques de rebeldes.

 

«A nossa vila transformou­‑se num campo de batalha», disse à IPS o engenheiro Fuad Al-Mohandis, de 35 anos, num posto de controle nos arredores da vila. «Muitas das nossas casas foram destruíram, e os americanos estão a colocar minas terrestres em áreas onde pensam que poderão haver combatentes, embora na maior parte estejam perto das casas de civis inocentes».

 

Soldados da 101ª Divisão Aerotransportada dos Estados Unidos têm estado submetidos a ataques diários com bombas nas estradas.

 

Fuad afirmou que as tropas dos EUA decretaram o recolher obrigatório a partir das 17 horas. Disse que «ocorrem tantas explosões agora que os nossos filhos estão aterrorizados».

 

Os soldados dos EUA começaram a usar tractores em 7 de Jan. para construir uma grande barreira de areia em torno da vila num esforço para isolar os combatentes que têm atacado as patrulhas dos EUA. Os oleodutos da área que se dirigem à Turquia têm sido regularmente sabotados por grupos de resistentes.

 

As medidas drásticas enfureceram muitos dos 3000 habitantes da vila.

 

«Pensam que com estas medidas conseguirão deter a resistência», disse à IPS Amer, um empregado de 43 anos na refinaria de petróleo perto de Beji. «Mas os americanos estão a criar mais resistência ao fazerem essas coisas. A resistência não parará de atacá-los a não ser que saiam do nosso país».

 

O empregado afirmou que não pôde sair de sua casa durante vários dias, e não pôde trabalhar ou visitar familiares fora de Siniyah.

 

Os soldados dos Estados Unidos deram ao projecto de construir o enorme muro de areia o nome de “Operação Verdun”, de uma batalha da Primeira Guerra Mundial. As forças de ocupação acreditam que esta vila se tornou na principal plataforma de lançamento de ataques contra as suas patrulhas, bem como de ataques de morteiro contra a Base Summerall próxima.

 

Foram instalados postos de controle perto da vila, com forças de segurança estadunidenses e iraquianas revistando cada veículo em busca de armas e explosivos.

 

«Já não podemos trabalhar. O nosso rendimento depende da distribuição de combustível», disse à IPS o camionista Abdul Qadr num dos postos de controle. «Estamos numa situação muito má. A vila está isolada agora e estão a pôr barricadas em todo o lado para deter os combatentes. As nossas casas são revistadas diariamente, enquanto procuram estrangeiros, e no entanto não conseguem encontram nenhum deles».

 

Abdul Qadr, que cresceu em Siniyah, disse à IPS que ele e os seus vizinhos se sentiam num «campo de concentração». Esse foi também o modo como os habitantes de Faluja e Samarra descreveram as suas cidades depois de as forças dos EUA terem construído muros semelhantes em torno delas.

 

Um muro de18 quilómetros foi construído pelas tropas dos EUA em Samarra, enquanto postos de controle militar ao estilo israelita continuam em Faluja. As forças de ocupação impuseram também medidas do mesmo tipo noutras cidades como Al-Qa’im, Haditha, Ramadi, Balad e Abu Hishma.

 

Embora tais medidas de segurança tenham sido adoptadas há algum tempo em várias cidades, os ataques contra as forças de segurança não fizeram mais do que aumentar, para uma média de mais de 100 por dia nos meses recentes.

 

«Os norte-americanos pensam que os combatentes vêm de fora do Iraque», disse Qadr. «Mas não vêm. Não conseguem ver que a única solução real é deixar o povo de um país governar­‑se a si mesmo?».