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24/11/2005 A vida continua nos
escombros de Faluja Um ano depois da “Operação Fúria Fantasma” conduzida pelos EUA ter
danificado ou destruído 36.000 lares, 60 escolas e 65 mesquitas em Faluja,
Iraque, os habitantes no interior da cidade continuam a sofrer de falta de
compensações, lenta reconstrução e altos índices de doenças. O Centro de Estudos para os Direitos Humanos e a Democracia com sede
em Faluja (SCHRD) estima o número de pessoas mortas na cidade durante a
ofensiva militar conduzida pelos EUA em Outubro e Novembro de 2004 entre
4.000 e 6.000, a maioria civis. Sepulturas em massa foram cavadas nos
arredores da cidade para enterrar milhares de corpos. Na semana passada, o Pentágono confirmou que tinha utilizado fósforo
branco, um químico que irrompe em chamas ao contacto com o ar, no interior de
Faluja, como “arma incendiária” contra insurgentes. Washington nega que seja
uma arma química, como alegaram alguns críticos, e que tenha sido usada
contra civis. As indemnizações prometidas por Iyad Allawi, o primeiro‑ministro
interino apoiado pelos EUA à época da operação, não se materializaram para
muitos habitantes da cidade, que não têm água potável e sofrem cortes de luz
diariamente. «Pagou‑se às pessoas quase 20 por cento do que Allawi lhes
prometeu, que eram só 100 milhões de dólares», disse Mohamad Tareq al-Deraji,
habitante de Faluja e porta-voz do concelho que governa a cidade. De acordo com Deraji, que também é biólogo e co‑director do
SCHRD, o actual primeiro-ministro Ibrahim al‑Jaafari concordou em
continuar com o segundo e o terceiro pagamentos compensatórios para as
pessoas no interior de Faluja que tinham perdido um ente querido ou cujas
propriedades tinham sido danificadas durante o combate, depois de ter sido
pressionado pela embaixada dos EUA. «Mas agora, ele [Jaafari] parou os pagamentos», disse Deraji à IPS.
«Por isso agora não há pagamentos às pessoas e todos continuamos a sofrer». Este mês, o coronel da marinha dos EUA David Berger, comandante do
8º Regimento de Combate e responsável por Faluja, disse aos jornalistas que
os habitantes de Faluja «não vêem nenhum progresso, não vêem nenhuma acção.
Ouvem muitas palavras, muitas promessas, mas não muitos resultados». Deraji estima que até 150.000 dos 350.000 habitantes de Faluja
continuam a viver como pessoas deslocadas internamente devido à falta de
indemnizações, e portanto, falta de reconstrução. Relatos do interior da cidade indicam que a fúria com a situação
cresce entre os habitantes. «Quando estive recentemente em Faluja, não vi nenhuma reconstrução»,
disse Rana Aiouby, uma jornalista independente de Bagdade. «Algumas pessoas
estão a reconstruir as suas próprias casas, mas ainda encontro pessoas fora
de Faluja que são refugiados do ataque de Abril sobre a cidade». Aiouby, que esteve muitas vezes em Faluja, disse que finalmente lhe
foi permitido visitar o distrito de Shuhada em Abril passado, depois de ter
sido previamente impedida de entrar na área por forças dos EUA. «Este é o distrito mais pobre de Faluja, onde houve alguma da pior
destruição», acrescentou. «Ficou pelo menos 95 por cento destruído». Tanto Deraji como Aiouby disseram que o fornecimento de
electricidade é errático, e que focos ocasionais de combate continuam numa
base quase diária. Tão recentemente como 16 de Novembro, o exército dos EUA
confirmou que um marine foi morto por um carro bomba em Karmah, uma pequena
cidade próxima de Faluja. «Tantas escolas estão destruídas ou ocupadas pelos americanos ainda
agora», disse Abu Mohammed, um habitante de Faluja, à IPS numa entrevista por
telefone. «Os nossos filhos vão à escola em tendas ou ficam em casa porque
temos demasiado medo de tê-los lá fora». Abu Mohammed, de 30 anos, carpinteiro e pai de cinco, afirmou que
inúmeros habitantes da cidade estavam doentes por beberem água suja da torneira.
Outros estavam a cair doentes por causa da falta de electricidade a par das
baixas temperaturas nocturnas que descem tão baixo com 10 graus celsius agora
que o inverno chegou ao Iraque. Deraji concordou, dizendo que havia «muitas doenças novas, especialmente
cancros em crianças e pessoas que tinham ficado em Faluja durante o ataque».
«Talvez tenham recebido grandes doses de radiação e poluição dentro da cidade
durante esse tempo, por isso agora temos muitos problemas médicos», disse à
IPS. Isto é complicado pelo facto de os hospitais na cidade não estarem a
funcionar no pleno da sua capacidade. «Alguma reconstrução está a ser levada a cabo nos nossos hospitais»,
acrescentou Deraji. «Mas é muito lenta e o governo está ficar ele próprio com
parte do dinheiro que tínhamos para isso». Mohammed Khadem, um engenheiro de Faluja de 55 anos, expressou
frustração pelos apertados postos militares de controle na cidade. «Com os
scans de retina e a verificação das impressões digitais ainda a serem
realizados às vezes pelo exército dos EUA, para emitir emblemas de
identificação com código de barras para certos habitantes, as filas para
ingressar na cidade são bastante longas», disse. Durante um telefonema de Faluja, Khadem disse à IPS que a segurança
continuava a ser um grande problema e que os combates ocorriam «quase todos
os dias às vezes». Deraji, falando pelo SCHRD, queixou‑se que «os americanos não
estão a deixar que a nossa polícia se restabeleça. Só permitiram que 200
polícias iraquianos se estabelecessem de dentro de Faluja, e isto não é
suficiente». Segundo o SCHRD e outras ONGs que operam em Faluja, algo que
angustia os habitantes da cidade são os membros do exército iraquiano que
estão com os soldados dos EUA. Sendo Faluja principalmente sunita e com os milicianos da
Organização Badr xiita e da milícia peshmerga curda constituindo a maior
parte do exército iraquiano na cidade, relatos de tratamentos brutais e
humilhantes aos habitantes são comuns. «Agora há muitos soldados do exército
iraquiano com os americanos e isto é um grande problema porque estão sempre a
disparar e a levar pessoas detidas», disse Deraji. «Estão a agir como os
cowboys nos filmes». |