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29/11/2005 Os hospitais são
assediados Dahr Jamail e Harb al-Mukhtar O pessoal hospitalar está a reportar incursões regulares e interferência
de militares dos EUA enquanto continuam os combates na volátil província de
Al‑Anbar do Iraque. As incursões dos EUA chegam no momento em que os hospitais enfrentam
uma crescente falta de provisões e equipamento vitais. Dois hospitais em Ramadi, no rio Eufrates a cerca de 110 Km a oeste
da capital Bagdade, estão a ser assaltados regularmente por soldados dos EUA,
dizem os médicos. «A maternidade e o hospital geral na nossa cidade são os dois
maiores hospitais», disse o responsável. «Estes foram ambos assaltados duas
vezes por semana pelas forças americanas com a desculpa de que estavam a
procurar militantes. Eles [os soldados dos EUA] rompem todas as portas que estão
fechadas, brincam com os nossos registos e às vezes até detêm algum do nosso pessoal.
Os americanos não estão a respeitar quaisquer leis». Outros médicos falam de falta de equipamento e de infra-estruturas
adequadas. O Dr. Abdul Qader, que trabalha no Hospital Geral de Ramadi, disse à
IPS que a crítica unidade de cuidados intensivos tinha falta de monitores, o
tomógrafo estava avariado, e muitos outros instrumentos não funcionavam.
Esses problemas são agora comuns em toda a província, afirmam ambos os
médicos. «Para além da falta de electricidade, falha muitas vezes a
distribuição de combustível para os nossos geradores», disse o Dr. Qader. «As
nossas máquinas avariam com frequência, o que coloca os nossos pacientes em
situações muito críticas». Problemas similares se têm evidenciado em Bagdade desde o ano
passado. «Tivemos um corte de electricidade enquanto alguém estava a ser
submetido a uma intervenção cirúrgica na sala de operações», disse à IPS
Ahlan Bar, chefe das enfermeiras do Hospital Escola Yarmouk de Bagdade. «Morreu
na mesa de operações porque não tínhamos electricidade para os nossos
instrumentos». O responsável de saúde afirmou que ataques continuados de militantes
poderiam levar as forças dos EUA a prender mais médicos. «Só contamos com 40
por cento do pessoal necessário para funcionar adequadamente», disse. «Agora
mesmo, não temos um especialista em anestesia, pelo que isso está a ser feito
pelo pessoal de enfermagem. A maioria do pessoal médico agora tem medo de
trabalhar na nossa província». Os médicos expressaram frustração pelo toque de recolher imposto
pelos EUA, que começa diariamente às sete da tarde. Os serviços de saúde no
Hospital Geral de Ramadi terminam às 5 da tarde para que o pessoal médico
possam estar em casa antes de começar o recolher. Todos estes fatos estão expressamente proibidos pelas convenções de
Genebra. A Quarta Convenção de Genebra estabelece cláusulas específicas sobre
a prestação de serviços de saúde. «A potência ocupante tem o dever de
assegurar os fornecimentos alimentares e médicos da população; deverá, em
particular, importar os necessários víveres, medicamentos e outros artigos se
os recursos do território ocupado forem inadequados», declara o artigo 55. O artigo 56 diz: «A potência ocupante tem o dever de assegurar e
manter, com a cooperação das autoridades nacionais e locais, os
estabelecimentos e os serviços médicos e hospitalares, a saúde e a higiene
públicas no território ocupado, com referência particular à adopção e aplicação
das medidas profilácticas e preventivas necessárias para combater a
propagação de doenças contagiosas e de epidemias. Deverá ser permitido ao
pessoal médico de todas as categorias cumprir os seus deveres». Mas as forças dos EUA continuam ainda assim a alvejar hospitais. O
Dr. Qasim, que tinha vindo do hospital de al‑Qa’im para o Hospital Geral de Ramadi para obter
provisões médicas, disse à IPS que o hospital principal de al‑Qa’im foi
alvejado pelas forças de ocupação no dia 7 de Novembro. «Nesse dia, 40 por cento do nosso hospital ficou em ruínas e a
residência dos médicos foi completamente destruída», disse. «Depois, no dia
seguinte, continuaram com os restantes 60 por cento do hospital, incluindo a
sala de emergências e a residência do pessoal». Os médicos afirmaram que os pacientes foram transferidos para o
vizinho hospital de Obeidy nas duas ambulâncias em funcionamento e em
automóveis particulares. «Mesmo as nossas ambulâncias foram alvejadas pelos soldados», disse
o Dr. Qasim. «E, na cidade de Obeidy, o hospital estava sitiado, e durante
três semanas trabalhámos lá sem equipamentos médicos nem instalações adequadas». O responsável de saúde afirmou que tinha apenas 10 ambulâncias à sua
disposição, e que precisava da autorização do exército americano para usá-las. «Mesmo quando obtivemos permissão dos americanos, tivemos quatro em
cada 10 missões de ambulância atacadas. Recentemente, em Khaldiya [perto de
Faluja], um homem ferido dentro de uma delas foi detido juntamente com dois
dos nossos médicos». O responsável de saúde afirmou que tinha suplicado muitas
vezes ajuda aos soldados americanos. «Acusaram‑me de ajudar
terroristas», afirmou. «Mas disse‑lhes que não tenho nada a ver com a questão
da segurança, e que lido com pessoas feridas porque jurei lidar com feridos. Somos
dois milhões de pessoas a viverem agora em desastre». |