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11/12/2006
A revolução está no ar enquanto a divisão libanesa se alarga Robert
Fisk Com o gabinete de ministros
de Fouad Siniora escondido no Grande Serralho, por trás de quilómetros de
arame farpado e milhares de soldados – uma verdadeira “zona verde” no coração
de Beirute –, a oposição largamente muçulmana xiita, secundada pelos seus
aliados cristãos, levou ontem mais de 2 milhões de apoiantes ao centro da
capital para anunciar a criação próxima de uma segunda administração no
Líbano. Um governo de transição, foi como o ex-general Michel Aoun o chamou,
enquanto Naeem Qassem, vice‑presidente do Hezbolá, falou
agoirentamente das demonstrações de massas como «o dia do separatismo». Assim, estará a milícia
do Hezbolá, que conteve o desastroso bombardeamento do Líbano por parte de
Israel no Verão passado, realmente a planear um golpe em benefício dos seus
apoiantes iranianos e sírios, como Siniora suspeita? Ou estão Siniora e os
seus colegas de gabinete – muçulmanos sunitas, cristãos e drusos – a trabalhar
em benefício dos norte‑americanos e israelenses, como proclama o líder
do Hezbolá, Hassan Nasrallah? A administração Siniora
é já mencionada na imprensa norte‑americana como “o governo apoiado
pelos EUA”, na prática o beijo da morte para qualquer líder árabe actualmente,
enquanto o rompimento do general Aoun com os seus correligionários cristãos
poderá vir a ser fatal para ele. Só devido à sua estranha aliança com o
Hezbolá pode o último proclamar que a sua oposição representa tanto cristãos
como muçulmanos. Fiel às ironias da política libanesa, foi o mesmo ex general
Aoun que travou uma “guerra de independência” com os amigos sírios do
Hezbolá, em 1990, um conflito que ele perdeu ao custo de 1000 vidas. Mas até os apoiantes do
governo Siniora foram apanhados de surpresa pelo enorme número de libaneses
que o Hezbolá conseguiu mobilizar ontem, homens e mulheres que, em muitos
casos, vieram das aldeias e dos bairros pobres urbanos que sofreram uma
destruição quase total na guerra deste Verão. Os seus porta-vozes
desempenharam o papel de representantes dos pobres – “o povo da rua” foi como
um estouvado clérigo sunita lhes chamou na sexta-feira – que não tiveram
tempo a perder com as classes privilegiadas ou as pretensões feudais dos
apoiantes do governo: Amin Gemayel, pai do ministro da Indústria assassinado,
Nayla Moawad, viúva de um presidente libanês assassinado, Saad Hariri, filho
do ex‑primeiro ministro assassinado Rafik Hariri, e Walid Jumblatt,
filho do líder druso assassinado Kamal Jumblatt. Se a política e a
história do Líbano não fossem tão trágicas, haveria nisso um toque de Gilbert
e Sullivan [1]. Hoje em dia visitado regularmente pelo atarefado embaixadorzinho
dos Estados Unidos Jeffrey Feltman, Siniora ouviu há apenas alguns anos de um
dos predecessores do senhor Feltman que o seu visto de entradas múltiplas
para os Estados Unidos era inválido, pois acreditava-se que ele, Siniora,
tinha doado dinheiro para uma entidade beneficiente associada com – sim – o
Hezbolá. E houve mais do que uma insinuação de sarcasmo ontem quando Qassem
anunciou que Siniora trabalhava para os norte‑americanos e
israelenses. “Morte aos EUA – Morte
a Israel”, bradou ele e, evidentemente, a massa de manifestantes repetiu esta
gastada retórica. Para as nações árabes que apoiaram o governo Siniora,
Qassem tinha uma mensagem simples: «Nós estamos nos corações dos sunitas do
mundo árabe – não vocês!». E o perigo para Siniora
é que a convicção de Qassem está provavelmente correcta. De facto, havia ontem
um quê de revolução no ar, quando os pobres, os jovens das aldeias e o povo
dos bairros pobres de Beirute convergiram para a Praça dos Mártires, onde o túmulo
de Hariri se encontrava isolada por um cordão. Leila Tueni, a filha de outro
líder político libanês assassinado, o jornalista Jibran Tueli (como todas as
vítimas, anti‑sírio), declarou numa sala situada a apenas algumas
centenas de metros dos protestos que a verdadeira razão pela qual Nasrallah
queria derrubar o governo Siniora, do qual todos os ministros xiitas se
demitiram, era impedi‑lo de dar a sua aprovação ao tribunal da ONU
destinado a processar os assassinos de Hariri, que Tueni e os apoiantes de
Siniora acreditam incluir alguns dos funcionários de alto nível do serviço de
inteligência da Síria. Mas algo ainda mais
perigoso estava a soltar-se ontem. O tamanho da multidão aparentemente
permitiram que Qassem e Aoun reclamassem um governo diferente – ou rival.
Porém, não foram os xiitas, mas os simpatizantes de Siniora que venceram as
últimas eleições no Líbano. Se esse resultado eleitoral já não fosse válido,
o que é que isso indicaria sobre o respeito do Hezbolá pela política
eleitoral e a Constituição do Líbano? E as crescentes
divisões xiitas-sunitas reflectem aqui, de forma frouxa, pálida mas assustadora,
a tragédia das duas confissões religiosas na Mesopotâmia. Xiitas atacaram
duas vezes o subúrbio sunita de Tarek al-Jdeide, em Beirute, um xiita foi
assassinado e convertido num “mártir” da oposição, e o mufti da mesquita
sunita de Qoreitem é acusado de atacar os imãs históricos xiitas, Ali e
Hussein. Jumblatt acabou de apelar
aos estudantes da Universidade Libanesa que estudassem em casa, após um confronto
entre alunos xiitas e sunitas. «Esta universidade é para todos os libaneses»,
insistiu Jumblatt. Mas o Líbano é? ______ [1] Referência a uma parceria
de autores de óperas cómicas da Inglaterra vitoriana. |