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14/10/2006 Robert Fisk The Independent Esta foi uma má semana para os
negacionistas do Holocausto. Falo daqueles que deliberadamente mentem sobre o
genocídio, em 1915, de 1,5 milhões de arménios cristãos pelos turcos
otomanos. Na quinta‑feira, a câmara baixa do parlamento francês
aprovou uma lei que torna crime negar que os arménios sofreram genocídio. E,
uma hora mais tarde, o mais célebre escritor turco, Orhan Pamuk – só recentemente
ilibado por um tribunal turco por insultar a «turquiedade» (sic) ao declarar a
um jornal suíço que ninguém na Turquia se atrevia a mencionar os massacres arménios
– ganhou o Prémio Nobel da Literatura. Nas fossas comuns sob os desertos da
Síria e no subsolo do sul da Turquia, algumas almas podem ter ficado
reconfortadas. Enquanto a Turquia continua a
paparrear sobre a sua inocência – a matança sistemática de centenas de
milhares de homens arménios e das suas mulheres violadas em grupo é suposta
ser o triste resultado de uma “guerra civil” –, historiadores arménios como
Vahakn Dadrian continuam a desenterrar novas provas do Holocausto premeditado
(e, sim, merece ser escrito com maiúscula, pois foi o precursor directo do
Holocausto judeu, alguns de cujos arquitectos nazis estavam na Turquia em
1915) com toda a energia de um coveiro. As vítimas arménias foram
assassinadas com punhais, espadas, martelos e machados, para poupar munição.
Afogamentos em massa foram levados a cabo no Mar Negro e no rio Eufrates – a
maioria mulheres e crianças, tantos que o Eufrates ficou obstruído com cadáveres
e mudou o seu curso por quase um quilómetro. Mas Dadrian, que fala e lê turco
fluentemente, acaba de descobrir que dezenas de milhares de arménios também
foram queimados vivos em celeiros. Ele revelou um depoimento
jurado ao tribunal marcial turco que por um curto período perseguiu os
assassinos em massa turcos após a Primeira Guerra Mundial, um documento
escrito pelo general Mehmet Vehip Pasha, comandante do Terceiro Exército
Turco. Ele declarou que, quando visitou a aldeia arménia de Chourig
(significa “pequena água” em arménio), encontrou todas as casas cheias de
esqueletos humanos queimados, tão apertadamente empacados que todos estavam
de pé. «Em toda a história do Islão», escreveu o general Vehip, «não é
possível encontrar algum paralelo para tal selvajaria». O Holocausto arménio, agora
tão “imencionável” na Turquia, não era segredo para a população do país em
1918. Milhões de turcos muçulmanos tinham testemunhado as deportações
massivas de arménios três anos antes – alguns, com infinita coragem, protegeram
vizinhos e amigos arménios arriscando as vidas das suas próprias famílias
muçulmanas – e, em 19 de Outubro de 1918, Ahmed Riza, presidente eleito do
senado turco e antigo simpatizante dos líderes Jovens Turcos que cometeram o
genocídio, afirmou no seu discurso inaugural: «Enfrentemo-lo, nós turcos,
assassinámos os arménios de forma selvagem [vahshiane, em turco]». Dadrian detalhou como duas
séries de ordens paralelas foram emitidas, ao estilo nazi, pelo ministro do
Interior turco Talat Pasha. Uma série ordenava de forma solícita a provisão
de pão, azeitonas e protecção para os deportados arménios, mas uma série
paralela instruía os oficiais turcos a «prosseguir a missão» logo que os
comboios de deportados estivessem suficientemente afastados de centros
populacionais para que houvesse poucas testemunhas do assassinato. Como declarou
o senador turco Reshid Akif Pasha no dia 19 de Novembro de 1918: «A “missão” na
circular era: atacar os comboios e massacrar a população! Estou envergonhado
como muçulmano; estou envergonhado como estadista otomano. Que mancha na
reputação do Império Otomano, estas pessoas criminosas!». Quão extraordinário que
dignatários turcos pudessem expressar tais verdades em 1918, pudessem admitir
inteiramente no seu próprio parlamento o genocídio dos arménios e pudessem
ler editoriais nos jornais turcos acerca dos grandes crimes cometidos contra este
povo cristão. No entanto, quão mais extraordinário que os seus sucessores
sustentem hoje que tudo isto é um mito, que qualquer um que diga na Istambul actual
o que os homens de 1918 admitiram possa ver‑se a enfrentar um
julgamento ao abrigo da famosa lei 301 por “difamação” da Turquia. Não estou seguro que os negacionistas
do Holocausto – da variedade anti‑arménia ou anti‑semita – devam
ser levados a tribunal pelas suas perorações. David Irving é um “mártir” particularmente
desagradável da liberdade de expressão e não estou de todo certo que a multa
de um franco imposta a Bernard Lewis por um tribunal francês, por negar o
genocídio arménio num artigo do Le Monde em Novembro de 1993, tenha
feito algo mais do que dar publicidade a um historiador de idade avançada
cujo trabalho se deteriorou com os anos. Mas é muito gratificante
saber que tanto o presidente francês, Jacques Chirac, como o seu ministro do
Interior, Nicolas Sarkozy, anunciaram que a Turquia terá que reconhecer os
mortos arménios como genocídio antes de lhe ser permitido ingressar na União
Europeia. É certo que a França tem uma poderosa comunidade arménia de meio
milhão de pessoas. Tipicamente, tal coragem não
foi demonstrada por Lord Blair de Kut al-Amara, nem pela própria UE, que
comentou, de modo covarde e infantil, que a nova lei francesa, se aprovada
pelo senado em Paris, irá «impedir o diálogo» que é necessário para a
reconciliação entre a Turquia e a Arménia actual. Pergunto-me qual é a
mensagem subliminar disto. Não falemos mais do Holocausto judeu não vamos nós
impedir a “reconciliação” entre a Alemanha e os judeus da Europa? Repentinamente, na semana
passada, essas fossas comuns arménias abriram-se perante os meus próprios
olhos. No próximo mês, os meus editores turcos publicarão o meu livro, A
grande guerra pela civilização, em língua turca, completo, com o seu
longo capítulo sobre o genocídio arménio, intitulado “O primeiro Holocausto”.
Na quinta‑feira, recebi um fax da [editora] Agora Books de Istambul. Os
seus advogados, dizia, pensavam ser «muito provável que sejamos processados
ao abrigo da lei 301» – que proíbe a difamação da Turquia e que advogados de
direita tentaram usar contra Pamuk – mas que, como estrangeiro, estaria «fora
de alcance». No entanto, se eu quisesse, poderia apresentar‑me ao
tribunal para ser incluído em algum julgamento turco. Pessoalmente, duvido que os negacionistas do Holocausto da Turquia se atrevam a tocar‑nos. Mas, se o tentarem, será uma honra estar no banco dos acusados com os meus editores turcos, para denunciar um genocídio que até Mustafa Kamel Ataturk, o fundador do Estado turco moderno, condenou. |