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02/09/2006 Robert Fisk The Independent Depois da guerra vêm a
hipocrisia, a mendacidade, as ameaças, as mentiras descaradas. Comecemos pelo
homem dos olhos penetrantes, Sayed Hassan Nasrallah, chefe do movimento
guerrilheiro Hezbollah que deu uma tareia aos israelenses no Líbano à custa –
bem, à custa da destruição de grande parte do Líbano. Foram os homens de Nasrallah
que cruzaram a fronteira israelense a 12 de Julho, capturaram dois soldados
israelenses, mataram outros três e assim desataram a selvajaria totalmente
previsível da Força Aérea e do Exército israelenses contra a população largamente
civil do Líbano. Agora vejam o que diz Sayed
Nasrallah: «Se soubesse que a captura dos soldados levaria a uma guerra a tal
escala, se o Hezbollah soubesse sequer 1 por cento, definitivamente não a teríamos
levado a cabo». Isto, amigos, é o que eu chamo uma grande mentira. Se o Hezbollah
não tinha ideia do que Israel ia fazer no Líbano – e são pessoas inteligentes
e disciplinadas que conheciam muito bem a situação política de Ehud Olmert na
altura (é certamente pior agora devido ao falhanço do seu exército no Líbano)
–, então por que construiu todos esses bunkers em grutas, rochas e
colinas durante anos antes da guerra? Por que levaram milhares de mísseis
para o sul do Líbano? Por que se prepararam para disparar a um navio de
guerra israelense – o que fizeram, e quase o afundaram depois de o terem
atingido em cheio – e se prepararam com tanto sucesso para a pequena ofensiva
terrestre que Israel subsequentemente levou a cabo? É suposto que acreditemos
que resistiram sob intensos ataques israelenses – que mataram mais de 1000
civis, como certamente eles saberiam – sem qualquer planificação? Ou que os
homens do Hezbollah que atingiram o navio israelense se levantaram de manhã, comeram
as suas sanduíches manouche de queijo, e disseram: “Ei, vamos disparar
hoje a um barco de guerra israelense!” Não, esse ataque – um alvo
militar perfeitamente justificável dada a agressão israelense – também foi
cuidadosamente planeado. De acordo com Seymour Hersh em The New Yorker,
o ataque de Israel também foi cuidadosamente planeado – e autorizado pela
administração Bush como parte da sua campanha para humilhar o Irão. Penso que Hersh tem razão. Mas penso que ambos os lados planearam isto, e um indício disso veio noutra parte do pronunciamento incrivelmente hipócrita de Nasrallah. «Em todo o caso», disse ele, «Israel
ia lançar uma guerra no princípio do Outono e o nível de destruição então seria
ainda maior». Bom, obrigado por me dizeres, Hassan. Assim vemos como o Hezbollah
está a planear a sua narrativa no pós‑guerra. Nunca quiseram que os
libaneses sofressem, mas iam de qualquer modo sofrer mais tarde e, além disso,
o Hezbollah ganhou. E agora, a liderança do Hezbollah anuncia formalmente que
tenciona obedecer à resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU – que
exige o desarmamento – mas que não se vão de facto desarmar. Assim é a paz
nos nossos tempos mais uma vez. Até à próxima guerra. Mas igualmente perniciosa é a narrativa totalmente falsa que os israelenses e os seus apoiantes estão agora a preparar para o mundo, que inclui todas as velhas mentiras sobre o anti‑semitismo dos repórteres e do envolvimento da Cruz Vermelha no terrorismo. Tome‑se, por exemplo, um artigo ultrajante no jornal francês Libération de quinta-feira, escrito por Shmuel Trigano e intitulado “Guerra, mentiras e vídeo”. Este artigo coloca alguns temas usuais mas deliberadamente enganosos, o mais odioso dos quais afirma que, ao mostrar as crianças assassinadas pela Força Aérea israelense em Qana, a imprensa estava a tentar «reactivar uma ideia anti‑semita muito antiga: que os judeus matam crianças. Na antiguidade, eles (os
judeus) eram acusados de canibalismo, na Idade Média – e ainda hoje no mundo
árabe – de crimes rituais». E, claro, eu entendo a mensagem. Não devíamos ter
mostrado essas fotografias dos inocentes de Qana assassinados pelas bombas
israelenses (ainda pior seria, sem dúvida, se disséssemos que eram bombas
israelenses “fabricadas nos Estados Unidos”) e nunca devíamos ter assinalado
que há uma década atrás, soldados israelenses mataram outros 106 inocentes em
Qana, mais de metade deles crianças, e na verdade não devíamos mostrar nenhumas
crianças árabes mortas – a menos que queiramos ser rotulados como anti‑semitas
medievais. Shmuel depois surge com uma
narrativa israelense quase tão discutível como a que estou agora a ouvir dos
porta‑vozes de Israel: que porque um fotógrafo libanês a meio tempo
colou duas nuvens de fumaça numa fotografia de um lugar bombardeado e vendeu
a fotografia falsificada à Reuters – num acto de mendacidade que lhe valeu
ser justificadamente despedido – todas as fotografias de Beirute foram provavelmente
manipuladas e falsificadas. Isto, evidentemente, é um disparate, embora no
momento em que soube da fotografia falsa tenha prognosticado a um amigo que os
amigos de Israel iriam agora lançar a dúvida sobre todas as imagens do
Líbano. As mentiras contra a imprensa dos amigos de Israel são tão previsíveis
como vis. Depois vem a acusação de que todos
nós repórteres trabalhámos no sul do Líbano sob o “controle” do Hezbollah – e
que os nossos colegas em Gaza trabalham todos sob o “controle” do Hamas. «Todos
os jornalistas», segundo Shmuel, sabem que trabalham «sob a autorização dos
poderes existentes que exercem a sua autoridade sobre as fotografias e dão acreditação
aos jornalistas» para trabalharem lá. Perdoe‑me, Shmuel, mas este é o tipo de material que procede da parte traseira de um boi. Não trazemos nenhuma “autorização do Hezbollah”; na verdade, aqueles de nós que tentaram entrevistar membros do Hezbollah durante a guerra não conseguiam encontrá-los – não mais do que a Força Aérea israelense conseguiu encontrá‑los. Mas não, nós jornalistas, de acordo com este texto, acreditamos que é «justo» que os civis israelenses sofram. Nós focamos somente as «vítimas» de Israel – e isto é «anti‑semitismo “por defeito”». Sendo um velho conhecedor das guerras sujas do Líbano, tenho que dizer que esta é exactamente a mesma mentira que foi contada sobre nós durante o bombardeamento israelense em 1978, a invasão de 1982, o bombardeamento de civis em 1993 e o bombardeamento de civis em 1996 – e cá a temos de novo. Será que os amigos de Israel, pergunto-me com frequência, atacam jornalistas decentes e honrados como anti‑semitas porque querem que o anti‑semitismo se torne respeitável? Devemos suspirar com enfado ou raiva perante tal desonestidade? Bom, uma coisa lhes digo. No que à desonestidade diz respeito, Nasrallah está entre os melhores. Mas ainda tem muito que aprender com os israelenses. |