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23/07/2006 Robert Fisk The Independent; traduzido
de Information Clearing House Domingo, 16 de Julho É a primeira vez que vejo realmente
um míssil nesta guerra. Voam demasiado rápido – ou a pessoa está demasiado
ocupada a tentar fugir para olhar para eles – mas esta manhã Abed e eu vimos
realmente um perfurar a fumaça acima de nós. «Habibi (meu amigo)», grita, e
eu começo a gritar: «Dê a volta ao carro, dê a volta!», e afastámo‑nos
pelas nossas vidas dos subúrbios do sul. Ao dar a volta na esquina há uma
explosão devastadora e uma montanha de fumo cinzento desponta da rua que
acabamos de deixar. O que aconteceu aos homens e mulheres que vimos correr pelas
suas vidas do foguete israelita? Não sabemos. Nos ataques aéreos, tudo o que
se vê são os poucos metros quadrados em nosso redor. Sai‑se e
sobrevive‑se e isso é suficiente. Chego a casa ao meu
apartamento na Corniche e descubro que a electricidade está cortada. Em breve,
sem dúvida, a água será cortada. Mas sento-me na minha varanda e penso que
não estou atafulhado num sujo hotel de Kandahar ou Bassora, mas a viver na
minha própria casa e a acordar cada manhã na minha própria cama. Os cortes de
energia, o medo e a falta de gasolina, agora que Israel está a bombardear
postos de gasolina, significam que desapareceram as filas de tráfego que
rugem e buzinam perto de minha casa até às duas horas da manhã. Quando
desperto de noite, ouço os pássaros, as ondas do Mar Mediterrâneo e o suave
movimento das folhas das palmeiras. Esta tarde fui comprar
mantimentos. Já não há leite, mas há suficiente água, pão, queijo e peixe.
Quando Abed estaciona para que eu saia do carro, o homem da 4x4 atrás de nós
gruda a mão na buzina e, quando saio do carro de Abed, lança‑me as
palavras «Kess uchtak». «Que se foda a tua irmã». É a primeira vez que
sou amaldiçoado nesta guerra. Os libaneses habitualmente não insultam os
estrangeiros. São pessoas corteses. Estendo a minha mão com a palma para
baixo e reviro‑a com a palma para cima na forma que os libaneses usam
para perguntar: “qual é o problema?”. Mas ele afasta‑se. Seja como
for, não tenho irmã. Segunda-feira, 17 de Julho. O telefone ainda funciona e
meu telemóvel canta como um passarinho. Muitas das chamadas são de amigos que
querem saber se devem fugir de Beirute ou do Líbano, ou de libaneses que
estão fora do Líbano e querem saber se devem regressar. Posso ouvir as bombas
ribombando através da zona do Hezbolá nos subúrbios do sul, mas não posso
responder a estas perguntas. Se aconselho amigos a ficarem, e eles são mortos,
serei responsável. Se lhes disser para partirem e eles forem mortos nos seus
automóveis, serei responsável. Se lhes digo para voltarem e eles morrerem,
serei responsável. Assim, digo‑lhes o quão perigoso o Líbano se tornou
e digo‑lhes que a decisão é deles. Mas sinto muita pena deles. Muitos
foram refugiados quatro vezes em 24 anos. Hoje, telefonou‑me uma
mulher libanesa com cidadania libanesa e iraniana, e um filho com passaporte
estadunidense e outro só com passaporte libanês. A sua situação é desesperada.
Sugiro que parta para as montanhas cristãs dos arredores de Faraya e trate de
encontrar um chalé. Ali estará segura. Espero. Regresso de Kfar Chim, onde
um pedaço de um míssil israelita ou da asa de um avião acabou de decapitar
parcialmente o condutor de um carro. Parecia tão trágico: a cabeça estendida
para a frente no assento do condutor, simplesmente olhando todo o sangue que
escorria pelo seu corpo no chão. Abed estava a ficar nervoso porque passei
demasiado tempo no local. Os israelitas voltam sempre. «Habibi, demorou
demais. Nunca mais fique tanto tempo!» Ele tem razão. Os israelitas voltaram
e bombardearam o exército libanês. Agora é Fidele, a minha
empregada, quem está nervosa. Ela pensa que é demasiado perigoso ir do
distrito cristão de Beirute até minha casa desde que os israelitas fizeram voar
o topo do farol local, a 400 metros da minha porta. A Fidele é do Togo e faz
umas pizzas fantásticas (recomendo a sua Pizza Togolesa a qualquer um), por
isso enviei Abed para ir buscá-la e trazê‑la a minha casa por uma hora.
Ela põe a minha roupa suja na máquina de lavar, e cinco minutos depois a luz
vai abaixo e temos que tirá-la toda para fora e tentar outra vez amanhã. Terça-feira, 18 de Julho. Às 3:45 da manhã, desperto ao
som do carril de um tanque e de um grande motor militar que avança na
escuridão. Desço para descobrir que o exército libanês postou um veículo
blindado de transporte de pessoal (APC) de fabrico norte-americano no parque
de estacionamento em frente à minha casa. Foi colocado estrategicamente sob
umas palmeiras, como se isso fosse impedir a aviação israelita de o avistar.
A ideia não me agrada de todo, nem ao meu senhorio, Mustafá, que vive no
andar de baixo. O exército libanês é agora um alvo ocasional dos israelitas e
esse pequeno monstro tem todo o aspecto de uma palmeira disfarçada de tanque.
Mais tarde, de manhã, telefono a um general do exército que é meu amigo e o
sector de operações do exército telefona‑me de volta para verificar a
localização. Passa uma hora antes de encontrem o parque de estacionamento nos
seus mapas. Então recebo outra chamada para me dizer que o APC está próximo
da minha casa para evitar que o Hezbolá use o parque de estacionamento para
lançar outro míssil contra um navio israelita. A vazia Escola da Comunidade
Americana está um pouco acima na minha rua. O exército libanês está a
proteger‑nos. O primeiro navio de guerra
francês chega para recolher cidadãos franceses que fogem do Líbano. Passa com
orgulho em frente à minha varanda. Muitos navios franceses portam o nome de
grandes chefes militares, e esta fragata anti-submarino, em particular, chama-se
Jean-de-Vienne. Recolho‑me para consultar a minha pequena biblioteca
de livros de história da França. Resulta que Jean-de-Vienne era um almirante
francês do século XIV que invadiu a povoação de Rye, em Sussex, e a ilha de
Wight, e que morreu – oh, céus – combatendo nas Cruzadas contra os turcos
muçulmanos. Um barco apropriado para iniciar a evacuação francesa do antigo
porto Cruzado de Beirute. Quarta-feira, 19 de Julho. Agora que os israelitas estão
a destruir blocos inteiros de apartamentos nos subúrbios xiitas do sul – há
um permanente guarda‑chuva de fumo sobre a costa, que se estende adentrando‑se
para longe no Mediterrâneo – dezenas de milhares de muçulmanos xiitas buscam
santuário na parte ilesa de Beirute, nos parques e escolas e junto ao mar.
Caminham para trás e para a frente à porta de minha casa, as mulheres em
chadores, os seus maridos e irmãos barbudos olhando o mar em silêncio, as
crianças brincando alegremente em redor das palmeiras. Falam‑me com
raiva acerca de Israel, mas optam por não comentar o profundo cinismo do
Hezbolá xiita, que provocou a brutalidade israelita ao capturar dois dos seus
soldados. Tal como o Hezbolá, os israelitas estão agora a alvejar fábricas de
alimentos, camiões e autocarros – sem mencionar 46 pontes – e os homens que
recolhem o lixo estão agora relutantes em recolher os sacos de lixo todas as
noites com medo de que os seus inocentes camiões do lixo sejam confundidos
com um lançador de mísseis. Assim, não houve recolha do lixo esta manhã. Os jornais locais de Beirute estão
cheios de fotografias que jamais seriam vistas nas páginas de um jornal
britânico: de bebés decapitados e mulheres sem pernas ou braços, ou idosos
despedaçados. Os ataques aéreos israelitas são promíscuos e – quando se vêem
os resultados como nós agora vemos com os nossos próprios olhos – obscenos.
Sem dúvida, as vítimas igualmente inocentes do Hezbolá em Israel têm o mesmo
aspecto, mas a matança no Líbano é de uma magnitude infinitamente mais
terrível. Os libaneses olham para estas imagens e vêem‑nas na
televisão – tal como o resto do mundo árabe – e pergunto‑me quantos
deles são induzidos a pensar em outro 11/Set ou 7/Jul ou seja qual for a
próxima data. O que faz a guerra às pessoas?
Mais tarde, estou a conversar com uma jornalista austríaca e pergunto‑lhe
indolentemente a que se dedica o seu pai. «Ele bebe», diz. Porquê? «Porque o
pai dele foi morto em Stalingrado». Cruzo a rua para levar chá aos soldados que estão no APC no parque de estacionamento. São todos muçulmanos xiitas de Baalbek. Jamais abririam fogo contra uma tripulação com mísseis do Hezbolá. Depois volto para casa de outra visita aos subúrbios do sul e descubro que eles foram embora, juntamente com o seu monstro. A primeira boa notícia do dia. O ministro das Finanças
realiza hoje uma conferência de imprensa para falar dos milhares de milhões
de dólares de danos causados ao Líbano pelos ataques aéreos israelitas. «Recebemos
promessas de ajuda da Arábia Saudita, Kuwait e Qatar», anuncia com orgulho. «E
da Síria e do Irão?», pergunta o homem da rádio irlandesa, nomeando os dois
principais patrocinadores do Hezbolá no mundo árabe. «Nada», responde o
ministro de forma cortante. Quinta-feira, 20 de Julho. Um mau dia para as mensagens.
Telefonam‑me dos Estados Unidos para me dizerem que sou um anti-semita
por criticar Israel. Aqui vamos de novo. Chamar de anti-semitas pessoas
decentes logo acabará tornando o anti‑semitismo respeitável, respondo
aos que telefonaram, e peço que digam à força aérea israelita que pare de
matar civis. Depois um fax de um amigo judeu, da Califórnia, para me dizer
que um tipo chamado Lee Kaplan – «um colunista do Noticiário Nacional de
Israel», seja isso o que for – me condenou preto no branco por desenvolver uma
«carreira de orador altamente lucrativa entre anti-semitas». Ao contrário de
Benjamin Netanyahu e muitos outros que me vêm à mente, nunca cobro dinheiro para
dar uma conferência – nunca – mas tachar de anti-semitas os milhares de
norte-americanos comuns que me escutam é escandaloso. Outro fax do editor da próxima
edição do meu livro, desculpando‑se por me incomodar num «momento tão
difícil (sic)», mas prometendo enviar-me provas de impressão pela DHL, que
ainda opera em Beirute. Vou ao centro para confirmar isso com a DHL. Sim, diz‑me
o homem, os pacotes com destino ao Líbano são enviados para a Jordânia e dali
seguem de camião para Beirute via Damasco. Um camião, digo para mim mesmo.
Céus. Sexta-feira, 21 de Julho. Os israelitas acabam de
bombardear a prisão de Khiam. Um alvo interessante, porque esta foi a prisão na
qual a antiga milícia aliada de Israel, o Exército do Sul do Líbano,
costumava torturar os prisioneiros masculinos prendendo‑lhes eléctrodos
nos pénis e as prisioneiras femininas electrocutando‑lhes os seios.
Quando o exército de Israel se retirou, em 2000, o Hezbolá transformou a
prisão num museu. Agora a evidência da crueldade do ESL foi apagada. Outro
alvo “terrorista”. A energia eléctrica volta a
casa às 11 da noite e vejo o cônsul geral israelita, Arye Mekel, declarar à
BBC que Israel está «a fazer um favor ao Líbano» ao bombardear o Hezbolá,
insistindo que «a maioria dos libaneses aprecia o que estamos a fazer». Agora
entendo. Os libaneses devem agradecer aos israelitas por destruírem as suas
vidas e as suas infra-estruturas. Devem estar gratos por todos os ataques
aéreos e crianças mortas. É como se o Hezbolá alegasse que os israelitas
deveriam sentir‑se agradecidos em relação a eles por atacarem o
sionismo. Até onde pode chegar o auto-engano? Sábado, 22 de Julho. Tomo café no jardim do meu senhorio, e ele sobe à sua figueira com uma velha escada de madeira e traz‑me um prato de fruta. «Todos os dias nos dá figos», diz‑me. «Sentamo‑nos à sua sombra à tarde e com a brisa do mar é como ar condicionado». Contemplo o seu pequeno paraíso de plantas de vazo e sorvo o meu café árabe de uma pequena caneca azul. Observamos os barcos de guerra deslizando para o porto de Beirute. «O que acontecerá quando todos os estrangeiros tiverem ido embora?», pergunta. Isso é o que todos nós perguntamos. Saberemos na próxima semana. |