Informação Alternativa

Mundo

13/05/2006

 

A longa sombra dos Estados Unidos

 

Robert Fisk

 

Coisas estranhas sucedem quando um repórter se extravia do seu caminho. Vastas regiões do planeta têm diferentes prioridades. A mais recente teoria da conspiração para explicar o assassinato do ex primeiro­‑ministro libanês Rafiq Hariri – algo têm a ver com isso criminosos envolvidos com um banco falido de Beirute – não chega a aparecer no New Zeland Dominion Post.

 

E na semana passada, quando cheguei à enorme, desordenada e não planeada cidade de São Paulo, um escândalo de corrupção manchava um deputado, e também era notícia a falência da horrível linha aérea nacional Varig (asseguro­‑lhes que era pior do que qualquer linha aérea do leste europeu ou da União Soviética). O que ocupava sobretudo as primeiras páginas era a recente nacionalização dos hidrocarbonetos na Bolívia e as suas consequências para as petroleiras brasileiras.

 

Claro, alguma coisa foi mencionada sobre a longa carta que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad enviou a George W. Bush. O International Herald Tribune qualificou a missiva de «divagante», usando um termo que jamais empregou para descrever o presidente dos Estados Unidos. Mas o diário Folha de São Paulo tratou as absurdas sanções estadunidenses contra o governo democraticamente eleito da “Palestina”. Tudo, infelizmente, escrito por agências noticiosas.

 

Mas então surge o Brasil, com a sua imensidão geográfica, a sua extraordinária história de colonialismo e democracia, a sua mistura de raças – que excede as origens étnicas dos ocupantes de qualquer carro­‑eléctrico de Toronto – e a sua estranha versão do português; e então, subitamente, o Médio Oriente parece muito longínquo.

 

O Brasil? Claro, o Amazonas, a selva tropical, o café e as praias do Rio. E depois Brasília, essa capital de faz­‑de­‑conta desenhada – tal como a igualmente falsa Canberra na Austrália e a fraudulenta Islamabad no Paquistão – para que os políticos do país se possam esconder longe do seu povo.

 

Resulta que uma coisa que o país partilha com o mundo árabe é a sempre constante presença, influência e pressão dos EUA – nunca tanto como quando os governantes de direita procuravam comunistas nos anos 1940 e 1950. Não eram difíceis de encontrar.

 

Em 1941, uma nova América beligerante – mergulhada numa guerra mundial por um ataque tão implacável como o de 11 de Setembro de 2001 – tinha­‑se tornado tão preocupada pela grande ponta do Brasil que se projecta no Atlântico, que instalou bases militares no norte do país sem esperar pela autorização do governo brasileiro. Ora bem, o que é que isto me recorda?

 

Bom, Washington não tinha com que se preocupar. O afundamento de cinco navios mercantes brasileiros por submarinos alemães provocou enormes manifestações públicas que obrigaram o governo de direita e não­‑democrático de Getulio Vargas a declarar a guerra aos nazis. Levantem a mão os leitores que saibam que mais de 20.000 soldados brasileiros lutaram ao nosso lado na campanha italiana até ao final da Segunda Guerra Mundial. Suspeito que ainda menos mãos se levantarão se eu perguntar quantos soldados brasileiros morreram. Segundo a excelente história do Brasil de Boris Fausto, morreram 454 em combate contra a Wehrmacht.

 

O regresso da Força Expedicionária brasileira ajudou a levar a democracia ao Brasil. Vargas matou­‑se nove anos mais tarde, deixando uma dramática carta de suicídio que sugeria que «forças estrangeiras» tinham causado a recente crise económica do seu país. Multidões atacaram a embaixada estadunidense no Rio.

 

Bom, tudo parece diferente hoje em dia quando o presidente brasileiro de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva –que também se viu ameaçado por “forças estrangeiras” depois da sua eleição popular –, está a tentar dar sentido à nacionalização boliviana dos conglomerados petroleiros do Brasil, um acto levado a cabo pelo amigo de Lula em La Paz, o também esquerdista Evo Morales.

 

Devo dizer que a explosão dentro dos governos de esquerda na moda da América Latina tem algo em comum com as reuniões da Liga Árabe – onde as promessas de unidade são sempre minadas por argumentos odiosos. Não admira que um dos escritores da Folha tenha intitulado a sua crónica “As Arábias”.

 

Mas posso deixar que esse lugar saia de mim? Ou será que o Médio Oriente mantém o punho sobre as suas vítimas, um modo de lhes fazer voltar a cabeça justamente no momento em que pensam que pode ser seguro mergulhar numa cidade a um mundo de distância da Arábia? Após dois dias no Brasil, o meu correio chegou do escritório internacional em Londres e enrosquei-me na minha cama para ler as cartas. A primeira é de Peter Metcalfe, de Stevenage, com uma página fotocopiada do livro Os sete pilares da sabedoria, de Lawrence da Arábia. Lawrence escreve sobre o Iraque dos anos 20, sobre o petróleo e o colonialismo.

 

«Pagámos por estas coisas demasiado em honra e vidas inocentes», diz ele. «Fui ao Tigre com 100 originários do condado [inglês] de Devon... tipos encantadores, cheios do poder da alegria e da capacidade de fazer felizes mulheres e crianças. Então víamos vividamente quão grandioso era ser um deles, e inglês. Mas estávamos a forjá­‑los no fogo aos milhares para a pior das mortes, não para ganhar a guerra, mas para que o milho, o arroz e o petróleo de Mesopotâmia pudessem ser nossos.»

 

O meu jornal brasileiro do dia seguinte mostra um soldado norte­‑americano deitado de costas numa rua de Bagdade, desfeito por uma bomba no caminho. Atirado ao fogo para a pior das mortes, de facto. Ouch.

 

Depois, no meu correio vinha uma missiva de Antony Lowenstein, um velho jornalista meu amigo em Sydney. É um editorial de The Australian, que não é um dos meus jornais favoritos, pois ainda bate tambor por George W. Bush a respeito do Iraque. Mas escutem isto:

 

«Há três anos [...] tropas de elite australianas lutavam no deserto ocidental do Iraque para neutralizar lugares de mísseis Scud. Agora, três anos mais tarde, sabemos que no mesmo momento em que os nossos homens do SAS arriscavam a vida enfrentando as tropas de Saddam Hussein, barcos carregados de trigo australiano arribavam aos portos do Golfo Pérsico, onde a sua carga era descarregada e enviada para o Iraque por uma companhia marítima jordaniana que pagava luvas a... Saddam Hussein».

 

Lembro­‑me que uma das razões que o primeiro­‑ministro australiano John Howard deu para ir à guerra contra o Iraque – ele nunca disse aos australianos que não encontrámos quaisquer armas de destruição massiva – era que o regime de Saddam Hussein era «corrupto». Então, quem estava a corromper? Ho hum.

 

Assim, preparei­‑me para sair do hotel Maksoud Plaza de São Paulo. Maksoud? Em árabe significa «o lugar a que se regressa». E, claro, o dono resulta ser brasileiro­‑libanês. Verifico os meus horários de voo. “São Paulo/Frankfurt/Beirute”, diz o meu bilhete.