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Mundo

01/04/2006

 

Uma lição do Holocausto para todos nós

 

Robert Fisk

 

Há uns dias, numa banca de livros de segunda mão na Rue Monsieur le Prince em Paris, encontrei o segundo volume dos diários de Victor Klemperer. O primeiro volume, no qual conta a sua implacável e aterrorizadora degradação como judeu alemão durante os primeiros oito anos do governo de Hitler – entre 1933 e 1942 – comprei­‑o no Paquistão pouco antes do bombardeamento do Afeganistão pelos Estados Unidos em 2001.

 

Foi uma estranha experiência – enquanto bebia chá entre as relíquias do raj, as rosas lutando por crescer no relvado ao pé de mim, um velho cemitério militar britânico no fim da estrada – ler os esforços de Klemperer por sobreviver em Dresden com a sua esposa Eva, enquanto os nazis encurralavam os seus vizinhos judeus. Ainda mais intrigante foi descobrir que o infinitamente heróico Klemperer, primo do grande director de orquestra, mostrou grande compaixão para com os árabes palestinianos dos anos 30, que temiam perder a sua pátria para um Estado judeu.

 

«Não posso evitá-lo», escreve Klemperer a 2 de Novembro de 1933, nove meses depois de Hitler se ter tornado chanceler da Alemanha. «Simpatizo com os árabes que se revoltam [na Palestina], cuja terra está a ser “comprada”. Um destino de Índio Vermelho, diz Eva».

 

Ainda mais devastadora é a crítica que Klemperer faz do sionismo – que não minora mesmo depois do Holocausto de Hitler contra os judeus da Europa ter começado. «Para mim», escreve em Junho de 1934, «os sionistas, que querem voltar ao Estado judeu de 70 DC ... são tão ofensivos como os nazis. Com o seu nariz atrás de sangue, as suas antigas “raízes culturais”, o seu regresso do mundo ao passado, parcialmente hipócrita, parcialmente obtuso, rivalizam em tudo com os Nacional Socialistas...»

 

No entanto, o relato diário de Klemperer do Holocausto, a crueldade da Gestapo local de Dresden, o suicídio de judeus quando lhes é ordenado que se juntem aos transportes para o leste, os seus primeiros conhecimentos sobre Auschwitz – Klemperer soube do mais infame dos campos de extermínio tão cedo como em Março de 1942, embora não tivesse consciência da escala dos assassinatos em massa que aí ocorriam até aos últimos meses da guerra – enchem­‑nos de raiva que alguns ainda possam negar a realidade do genocídio judeu.

 

Lendo estes diários enquanto o comboio RER me tirava do aeroporto Charles de Gaulle – através da arquitectura Art Deco de 1930 da estação de Drancy, onde os judeus franceses eram levados pela sua própria força policial antes de serem transportados para Auschwitz – desejei que o presidente Ahmadinejad do Irão pudesse viajar comigo.

 

Pois foi Ahmadinejad quem chamou ao Holocausto judeu um “mito”, quem ostentosamente convocou uma conferência – em Teerão, evidentemente – para descobrir a verdade sobre o genocídio de seis milhões de judeus, o qual qualquer historiador em seu são juízo reconhece ser uma das terríveis realidades do século XX, juntamente, é claro, com o Holocausto de milhão e meio de arménios em 1915.

 

A melhor resposta às tolices infantis de Ahmadinejad veio do ex­‑presidente Katami, do Irão, o único líder honorável do Médio Oriente no nosso tempo, cuja recusa em tolerar a violência dos seus próprios apoiantes inevitavelmente e tristemente levou ao fenecimento da sua “sociedade civil” às mãos de clérigos opositores mais implacáveis. «A morte de tão só um judeu é um crime», disse Katami, assim destruindo, com uma só frase, a mentira que o seu sucessor estava a tentar propagar.

 

De facto, as suas palavras simbolizaram algo mais importante: que a importância e a maldade do Holocausto não depende da identidade judia das vítimas. A medonha perversidade do Holocausto radica no facto de que as vítimas eram seres humanos – como você e eu.

 

Como, então, convenceremos os muçulmanos do Médio Oriente desta simples verdade? Penso que a carta que o presidente do Comité Judeu Iraniano, Haroun Yashayaie escreveu a Ahmadinejad providenciou parte da resposta: «O Holocausto não é mais um mito do que o genocídio imposto por Saddam [Hussein] em Halabja ou o massacre de palestinianos e libaneses por [Ariel] Sharon nos campos de Sabra e Chatila», afirmou Yashayaie – que representa os 25 mil judeus do Irão.

 

Note-se aqui como não há a menor tentativa de fazer comparações numéricas. Seis milhões de judeus assassinados é um crime numericamente muito maior do que os milhares de curdos gaseados em Halabja ou os 1.700 palestinianos assassinados pelos falangistas libaneses aliados de Israel em Sabra e Chatila em 1982. Mas a carta de Yashayaie estava a traçar um paralelismo de tipo diferente: a dor que a negação da história causa aos sobreviventes.

 

Escutei israelenses negar o envolvimento do seu exército nos massacres de Sabra e Chatila – apesar da própria investigação oficial de Israel, a qual provou que Ariel Sharon enviou os assassinos aos acampamentos – e recordo como a CIA, inicialmente, deu instruções às suas embaixadas para culpar o Irão dos gaseamentos em Halabja.

 

De facto, é fácil encontrar exemplos de uma das mais desprezíveis mentiras jamais lançadas contra os 750.000 palestinianos que fugiram da sua terra em 1948: de que receberam ordens de estações de rádio árabes para fugirem das suas casas até que os judeus fossem «empurrados para o mar» – quando voltariam para tomar de volta a sua propriedade. Investigadores académicos israelenses provaram eles mesmos que nunca foram realizadas semelhantes transmissões por rádio, que os palestinos fugiram – vítimas do que hoje chamaríamos uma limpeza étnica – depois de uma série de massacres executados por forças israelenses, especialmente no povoado de Deir Yassin, nos arredores de Jerusalém.

 

Assim, o que há para aprender do segundo volume dos diários de Klemperer? Logo depois de a Gestapo o ter informado que ele e Eva seriam transportados para leste para as suas mortes, a RAF [Real Força Aérea britânica] lançou raides sobre Dresden e, entre as dezenas de milhares de civis que morreram na tempestade de fogo de Fevereiro de 1945, também foram queimados os arquivos da Gestapo. Todos os registos da existência dos Klemperer se transformaram em cinza, como os judeus que os precederam em Auschwitz. Então o casal tirou os distintivos em forma de estrela que os identificavam como judeus e deambularam pela Alemanha como refugiados sem papéis até que encontraram a salvação depois da rendição nazi.

 

Pouco antes de serem resgatados, mostraram compaixão por três desesperados soldados alemães que estavam perdidos na floresta da sua terra natal. E mesmo durante as suas piores dificuldades, enquanto esperavam que soasse a campainha da porta e a Gestapo chegasse para revistar a sua casa de Dresden e notificá­‑los do seu destino, Klemperer conseguiu escrever no seu diário uma frase que todo o jornalista e historiador deveria saber de cor: «Não existe um remédio contra a verdade da palavra».