|
Informação Alternativa |
|
Iraque |
|
02/03/2006 Tony Jones Australian
Broadcasting Corporation; retirado de TMI-AP TONY JONES: Robert Fisk é
um dos mais experientes observadores do Médio Oriente e no seu recente livro
The Great War for Civilisation – the Conquest of the Middle East [A
Grande Guerra pela Civilização – A Conquista do Médio Oriente], ele
percorre quase 30 anos de reportagens feitas a partir da sua base no Líbano
para nos dar uma perspectiva das forças intervenientes nos actuais
acontecimentos e conflitos. Robert Fisk, muito obrigado por estar connosco. ROBERT FISK, ESCRITOR E
JORNALISTA: De nada, é um prazer. Ora bem, a menos que tenha
alterado a sua posição nos últimos dias, há uma coisa em que você e o
presidente Bush estão de acordo: é que não vai haver uma guerra civil no
Iraque. Pois. Eu ouvi o Bush. Quando
o ouvi dizer isso fiquei com dúvidas. Eu mantenho e continuo a dizer o que
disse – o Iraque não é uma sociedade sectária, é sim uma sociedade tribal. Há
casamentos cruzados. Chiitas e sunitas casam uns com os outros. Não se trata
de haver aqui um grande grupo de pessoas que são os chiitas e outro grande
grupo que são os sunitas – como também não se pode dizer que, nos Estados
Unidos, há os negros, os protestantes, etc. Mas o que é certo é que, neste
momento, alguém está a tentar provocar uma guerra civil no Iraque. Alguém
quer uma guerra civil. Há umas milícias e uns esquadrões da morte que querem
a guerra civil. Nunca houve guerra civil no Iraque. O que eu me pergunto é: quem
é que está a tentar provocar uma guerra civil? Agora os americanos dizem que
é a Al-Qaeda, que são os insurrectos sunitas. Mas são os esquadrões da morte.
Muitos desses esquadrões da morte trabalham para o Ministério do Interior.
Quem dirige o Ministério do Interior em Bagdade? Quem financia o Ministério
do Interior? Quem paga aos homens das milícias que formam os esquadrões da
morte? Somos nós, as autoridades de ocupação. Eu gostaria de saber o que é
que os americanos estão a fazer para deitar a mão às pessoas que andam a
tentar provocar uma guerra civil. Parece‑me que não fazem muito. Não
oiço falar de nenhum bombista suicida a ser apanhado antes de ir pelos ares.
Não oiço falar de alguém que tenha impedido um ataque à bomba contra uma
mesquita. Não oiço falar de esquadrões da morte que tenham sido presos. Há
qualquer coisa de muito, muito errado que está a acontecer em Bagdade. Algo
de errado com o governo. O senhor Bush diz “Oh, sim, pois claro, eu tenho
falado com os chiitas e tenho falado com os sunitas”. Ele anda a falar com um
punhado de gente que vive abrigada atrás das metralhadoras, dentro da chamada
Zona Verde, o antigo Palácio da República de Saddam Hussein, que está rodeada
por uma enorme muralha de betão como um castelo das cruzadas. Essa gente,
mesmo que queira, não pode sair desse castelo das cruzadas. Se precisarem de
ir para o aeroporto, vão para o aeroporto de helicóptero. Nem sequer podem
passar pela estrada do aeroporto. O que temos, neste momento, é um pequeno
conjunto de pessoas que vivem sob protecção americana e que falam ao telefone
com George Bush, que depois nos diz “Eu estive a falar com eles, eles têm de
escolher entre o caos e a unidade”. Essa gente nem sequer consegue controlar
ruas que estão a 50 metros da Zona Verde onde trabalham. OK É o caos total no Iraque. Voltemos atrás, se
possível, para começarmos a responder a essa questão da guerra civil. Atrás
uma semana, ao atentado à bomba contra o santuário dourado de Samarra. Agora,
a maioria das pessoas acha que os únicos com motivos para fazer aquilo seriam
os da Al-Qaeda do Iraque, liderada pelo Al-Zarqawi. Você não concorda? Bem. Eu não sei se o
Al-Zarqawi está vivo. Sabe, o Zarqawi existia antes da invasão
anglo-americana. Ele estava lá em cima, na região curda, que aliás não era
propriamente controlada pelo Saddam. Mas depois disso parece ter
desaparecido. Sabemos que há um documento de identidade que apareceu. Sabemos
que os americanos dizem que crêem tê-lo reconhecido numa gravação vídeo. Quem
é que o reconhece na gravação vídeo? Quantos americanos já se encontraram com
o Zarqawi? A mãe do Zarqawi morreu há mais de um ano e ele nem sequer mandou
condolências ou disse “Tenho muita pena”. A mulher dele, com quem foi sempre
muito possessivo, é tão pobre que teve de arranjar um emprego na cidade de
Zarqa, donde é a família. Daí o nome Zarqawi. Eu não sei se o Zarqawi está
vivo ou existe neste momento. Não sei se ele não é uma espécie de criatura
inventada para preencher os espaços vazios da história, por assim dizer. O
que está a acontecer no Iraque neste momento é muito misterioso. Eu vou ao
Iraque e, de momento, não consigo deslindar essa história. Alguns dos meus
colegas continuam a tentar, mas não conseguem. Não é tão simples como parece.
Não acredito que andem por ali todos esses lunáticos enraivecidos às voltas a
pôr bombas nas mesquitas. O que se vê é muito mais do que isso. Todos esses
esquadrões da morte que andam por ali fazem parte das forças de segurança.
Nalguns casos são forças de segurança chiitas ou claramente forças de
segurança sunitas. Quando o exército iraquiano vai às cidades sunitas, são
soldados chiitas que vão. Isto não é claro para nós. De tropas iraquianas, há
só um batalhão novo. O exército iraquiano está a ser formado. O exército
iraquiano está dividido. Alguém está a fazer funcionar essa gente. Não sei
quem. Não é tão simples como se pretende fazer ver. Que é isso de o Bush
dizer que temos de escolher entre o caos e a unidade? Quem é que quer esse
caos? Será crível que todos esses iraquianos, que andaram oito anos a
combater juntos contra os iranianos, chiitas e sunitas juntos, na longa e
mortífera guerra entre iranianos e iraquianos, de repente querem todos matar‑se
uns aos outros? Porquê? Passa-se algo de errado com os iraquianos? Eu não
creio. Eles são pessoas inteligentes e cultas. Há qualquer coisa de muito
estranho que se está a passar em Bagdade. Podemos ver algo
possivelmente errado. Os sunitas sentem-se postos de lado no equilíbrio
político. Os chiitas podem acabar por ficar com a maioria no governo por
serem, claro, a maioria da população numa democracia. Eles dirigem o governo
actual. São os chiitas que mandam no governo. Claro. Não poderá ser
precisamente essa uma das causas da violência? Porque os sunitas já não têm
o poder? Mas é o que estamos a dizer desde o princípio. Lembre-se: a seguir à
invasão anglo-americana de 2003 começou a resistência contra os americanos e
então disseram-nos que eram resíduos de saddamistas, dead-enders
[”encurralados”], era o termo usado. Mas agora não, porque há 40.000
resistentes armados, mas era o termo que usavam nessa altura. Eram sunitas.
Não gostavam de ter ficado sem o poder. Depois capturaram o Saddam, e o Paul
Bremer, segundo pró-cônsul em Bagdade, disse “Oh, apanhámo-lo” e tudo estava
a correr bem. E então a resistência armada tornou-se ainda pior. Porquê? Porque
as pessoas que se queriam juntar à resistência tinham medo de, se ganhassem
aos invasores, o homem voltasse. Ora bem, a partir do momento em que Saddam
foi apanhado, eles sabiam que se podiam juntar à resistência e que o Saddam
já não poderia voltar. Quero dizer, há algo de errado na sequência narrativa
que nos tem sido dada. Está a ver, a ideia de que a comunidade sunita, de repente,
se começou a sacrificar em massa, a enrolar explosivos à volta da cintura e a
fazer-se explodir por todo o Iraque porque já não tem o poder, é uma ideia
muito esquisita. Eu acho que o que se está a passar na comunidade sunita é
muito mais simples. Os sunitas não estão a combater contra os americanos por
terem perdido o poder, nem sequer estão a fazê‑lo só para expulsar os
americanos – e entretanto estão mesmo a expulsá‑los. Eles lutam contra
os americanos para poderem dizer “Nós temos direito ao poder porque
combatemos as forças ocupantes, e vocês chiitas, não”, razão porque é
importante descobrirmos agora que o Moqtada Al-Sadr, que tem vindo sempre a
crescer como base do poder na comunidade chiita, começa também ele a ameaçar
virar as armas contra os britânicos e os americanos. Agora, se os chiitas e
os sunitas se juntarem, como fizeram nos anos 20 na insurreição contra os
britânicos, então estamos acabados no Iraque. E isso significará que o Iraque
estará realmente unido. Mas, Robert Fisk, o que
está a acontecer agora, segundo todas as notícias e, claro, as notícias dos
repórteres do Washington Post que estiveram na morgue e falam de
centenas de cadáveres de sunitas que visivelmente foram garrotados ou
sufocados ou mortos a tiro, todos dizem que os assassinos do Moqtada Al-Sadr
é que levaram essas pessoas e as mataram. Foi uma vingança pelas bombas do
Santuário Dourado. Pois, olhe, em Agosto passado
eu fui à mesma morgue e descobri que 1.000 pessoas tinham morrido, só no mês
de Julho [1]. E, dessas pessoas que tinham morrido, metade eram sunitas e
metade eram chiitas, mas a maior parte delas, incluindo mulheres que tinham
sido vendadas e com as mãos amarradas atrás das costas – eu vi os cadáveres –
eram tanto sunitas como chiitas. Ora bem, eu não estou a queixar-me de que o Washington
Post se enganou – tenho a certeza de que há chiitas a massacrar pessoas –
mas eu penso que os massacres estão a ser feitos por gente dos dois lados. O
que eu gostava de saber é: quem é que manda no Ministério do Interior? Quem
está a financiar o Ministério do Interior? Quem está a pagar os atiradores
que trabalham para o Ministério do Interior? Quando vou ao Ministério do
Interior em Bagdade, vejo montes e montes de homens armados, vestidos de
couro preto. Quem é que paga esses tipos? Bem, somos nós, evidentemente. O
dinheiro não cai do céu. Vem das potências ocupantes e do governo iraquiano,
o qual é na prática dirigido por nós porque, como sabemos, eles nem sequer
conseguem criar uma constituição sem a presença dos embaixadores americano e
britânico. Temos de olhar para esta história de um prisma diferente. A
história que nos andam a contar – que há esquadrões da morte e que os
iraquianos se vão matar todos uns aos outros, a ideia de que toda a sociedade
vai cometer um suicídio em massa – isso não é possível. Há algo diferente que
se está a passar no Iraque. Não me peçam para... Muito bem. Mas... R. FISK: Sim, diga. Não, é que parece
impossível de explicar, mas, claro, isso é exactamente o que se dizia da
Bósnia antes de começar a guerra – que as pessoas estavam demasiado
misturadas, casadas entre elas, que não se poderia dividir a comunidade. O Iraque não é a Bósnia. O
Iraque não é a Bósnia. O Iraque não é a Bósnia. O Iraque não é a Bósnia. Nós
descobrimos aqui no Líbano – e nesta cidade donde lhe estou a falar – que,
durante a guerra civil, que durou de 1975 até 1990 e matou 150.000 pessoas,
que havia muitas potências estrangeiras envolvidas na promoção de esquadrões
da morte e de milícias aqui, e a pagarem as milícias, não apenas potências
árabes, mas potências europeias que estavam envolvidas na desestabilização do
Líbano. Acho que estamos a ser muito ingénuos. Lá porque não estamos em
condições de fornecer os pormenores, como quem é que encomendou este ou
aquele esquadrão da morte, isso não nos impede de dizer que há algo de errado
na história que estamos a contar na imprensa, que vem do Ocidente, vem dos
americanos, do governo iraquiano. Algo está errado. Os iraquianos não são um
povo suicida. Eles não andam por aí, todos os dias, a rebentar com mesquitas.
Isso não é normal da parte deles. Nunca aconteceu antes. Eu não lhe posso
dizer “Pois bem, esta é a pessoa que matou aquela pessoa, ou aqui está a
pessoa que deixou ali aquele camião-bomba”. Eu estou só a dizer é que é tempo
de nós dizermos: “Espera aí, isto não é o que parece”. E se metermos o Irão nesta
equação? Porque, como todos sabemos, o Irão está sob uma enorme pressão do
Ocidente, e em particular dos Estados Unidos, neste momento. Tem ligações com
as milícias chiitas e, possivelmente, também com essa gente de que você fala,
no Ministério do Interior. Não, não, não, isso está errado.
A ligação dos iranianos é com o governo do Iraque. Os principais partidos que
foram eleitos para o governo do Iraque, que estão agora a lidar com os
americanos, esses são os representantes do Irão. Moqtada Al-Sadr é
irrelevante para o Irão. O Irão já tem tudo sob controlo porque os dois
blocos mais importantes, os dois maiores partidos que ganharam as eleições e
com quem Bush esteve a falar, esses são efectivamente representantes de
Teerão. Esse é o ponto. O Irão não precisa de se envolver nas violências do
Iraque. A menos que a pressão dos
EUA se repercuta no Irão a ponto de haver ameaças militares contra as
instalações nucleares deles. Não poderá isso fazer muitos estragos no Iraque? Bem, você podia dizer o mesmo
da Síria, não podia? E os americanos, claro, andam a acusar a Síria de apoiar
a resistência armada através da fronteira. Mas eu penso que é muito mais
complicado do que isso. Por exemplo, as minhas fontes nesta zona, que são
muito boas, dizem-me que os americanos já falaram com os sírios e estão a
tentar chegar a acordo com eles para tentar conseguir que os sírios os ajudem
contra a resistência. E o preço dessa ajuda, dizem-me, é os americanos
livrá-los da comissão especial de inquérito das Nações Unidas sobre o
assassinato do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, aqui em Beirute, a umas
centenas de metros daqui, em 14 de Fevereiro do ano passado. Sabe, se os
americanos saírem do Iraque – e vai ter de ser, vão ter de sair – eles vão
precisar da ajuda do Irão e da Síria. E acho que você pode verificar que já
há gente do Departamento de Estado a trabalhar nisso. E agora ouvimos essa
retórica do Bush. Quer dizer, meteu-se num buraco negro caótico e total no
Iraque, meteu-se no Afeganistão – que não é um exemplo que se dê ao mundo,
está a ser dominado por senhores da guerra narcotraficantes, muitos deles a
trabalhar para o Karzai, o mesmo que acaba de fazer humor acerca das
boas-vindas afegãs a Bush – e o Bush vai querer mais um conflito com o Irão?
Eu não acho que os americanos estejam em posição, ou tenham a capacidade,
militar ou outra, para travar mais uma guerra ou para terem outra crise na
região. Politicamente, militarmente e economicamente, eles estão metidos num
enorme buraco no Iraque. E isto não se altera pelo facto de a Casa Branca e o
Pentágono e o Departamento de Estado estarem sempre a negá-lo. A Condoleezza
Rice veio aqui há uns dias – exactamente àquele edifício que está por trás de
mim – para dizer que estão a ter lugar grandes mudanças no Médio Oriente,
numa de optimismo. Bem, certo, está-se a dar uma guerra de mesquitas no
Iraque, com os americanos ali atolados na areia, dizem-nos que há uma crise
iraniana, os sauditas estão com receio de que a guerra do Iraque transborde
para a Arábia Saudita, os egípcios não vêem como reconciliar a Síria e o
Líbano, há tensões sectárias crescentes no Líbano. É-se levado a pensar que
alguém está a construir as chamadas “aldeias Potemkine”, sabe, aquelas coisas
extraordinárias que os favoritos da corte de Catarina a Grande costumavam
construir, fachadas de aldeias, de forma que tudo parecesse bonito na Rússia,
quando tudo era barbárie por trás dessas fachadas. Ou seja, é um mundo
bárbaro, este em que vivemos agora no Médio Oriente. Isto nunca esteve tão
perigoso, quer para jornalistas, quer para soldados, mas sobretudo para os
árabes. Daí os milhares de cadáveres na morgue. Robert Fisk, receio que já
tenhamos ultrapassado o nosso tempo. Vamos ter de ficar por aqui, e o resto
da conversa sobre o Irão, suponho, vamos tê-la quando você vier à Austrália,
num futuro próximo. Felicidades para si, aí em Beirute. (Risos) É um óptimo lugar para isso! Foi com muito gosto. |