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11/03/2006 Robert Fisk The Independent; traduzido de Global
Echo Há que lutar. É a única conclusão que tiro enquanto assisto à renovada erosão da nossa liberdade de discutir o Médio Oriente. O exemplo mais recente – e mais vergonhoso – é a covarde decisão do New York Theater Workshop de cancelar a esplêndida produção do Royal Court intitulada O meu nome é Rachel Corrie. É a história – segundo as suas próprias palavras e mensagens de correio electrónico – de uma corajosa jovem estadunidense que viajou para Gaza para proteger palestinianos inocentes e que se plantou frente a um bulldozer israelita para evitar que o condutor destruísse um lar palestiniano. O bulldozer passou‑lhe por cima e depois inverteu a marcha e esmagou‑a uma segunda vez. «As minhas costas estão partidas», disse ela antes de morrer. Heroína estadunidense, Rachel não ganhou condecorações da administração Bush, que a cada momento se jacta sobre coragem e libertação da opressão. Rachel tinha a espécie errada de coragem e defendeu o povo errado. Mas quando li que James Nicola, o “director artístico” – o seu título deveria realmente estar entre aspas – do New York Theater Workshop, decidiu «adiar» a peça «indefinidamente» porque (leitor, sustém a tua respiração) «no nosso planeamento de pré‑produção e ao falar com as pessoas e ao ouvir as nossas comunidades (sic) em Nova York, o que ouvimos foi que depois da doença de Ariel Sharon e da eleição do Hamas (...) tínhamos uma situação muito tensa», não soube se rir ou se chorar. Confrontemos esta palhaçada. Na Austrália, o meu velho amigo Anthony Loewenstein, jornalista e académico, está a passar por momentos igualmente vis. Terminou um livro crítico sobre o conflito Israel/Palestina para a Melbourne University Publishing e as comunidades judias da Austrália estão a tentar que seja censurado antes de aparecer em Agosto próximo. No ano passado, o deputado federal do Partido Trabalhista Michael Danby, que tal como Loewenstein é judeu, escreveu uma carta à Australian Jewish News reclamando que os editores de Loewenstein deveriam «desistir de todo este repugnante projecto». O livro, disse ele, seria «um ataque contra a generalidade da comunidade judia australiana». Agora o poderoso Conselho de Representantes Judeus de New South Wales deliberou contra Loewenstein e já há iniciativas em curso para retirá-lo do seu posto no conselho de administração do Centro de Estudos do Médio Oriente e Norte de África da Universidade de Macquarie. Alguma falta de escrúpulos isolada da parte de Israel? Infelizmente, não. Chegou uma carta para mim na semana passada da israelo‑americana Barbara Goldscheider, cuja novela Naqba: A catástrofe: O conflito palestino‑israelita acaba de ser publicada. Foi atacada, disse‑me, «simplesmente porque escolhi um título árabe para a minha novela sobre o conflito... O meu cunhado rompeu as suas relações comigo antes mesmo de ter lido o livro [...] Dos membros da minha congregação ortodoxa judia em Bangor (Maine), recebi um telefonema de um “amigo” irado... salivando: “Não sabes que os árabes querem destruir Israel?”. Uma palestra sobre a sua novela, programada para ter lugar no mês passado numa sinagoga conservadora, foi cancelada «devido à algazarra provocada pela minha novela». Um professor de Boston escreveu compassivamente a Goldscheider um conselho que considero estupendo. «Há por aí uma campanha cruel», disse. «Não se renda». Mas o que fazer quando um editor – ou um “director artístico” – se rende? Descobri por mim próprio há não muito tempo, quando a Sociedade de História Militar da Irlanda solicitou autorização para reproduzir um ensaio que eu tinha publicado há alguns anos sobre uma batalha entre o regimento irlandês da ONU no sul do Líbano e a brutal milícia libanesa, aliada de Israel, o chamado “Exército do Sul do Líbano”, cujo psicótico comandante era um major do exército libanês dispensado chamado Saad Haddad. No ensaio, mencionava como um major israelita de nome Haim extorquiu dinheiro aos habitantes da aldeia de Haris no sul do Líbano e dava o nome de código de um agente israelita – “Abu Shawki” – que esteve presente quando foram assassinados dois soldados irlandeses. Tinha publicado estes detalhes muitas vezes, tanto no meu jornal como no meu livro anterior sobre a guerra do Líbano, Pity the nation. O major Haddad morreu de cancro há mais de 10 anos. Encontrei realmente Haim no princípio dos anos 1980, quando saiu de uma reunião com o presidente de câmara de Haris, do qual exigiu dinheiro para pagar aos cruéis milicianos de Israel – a ONU também esteve presente e gravou as suas ameaças – enquanto “Abu Shawki”, a quem a polícia irlandesa gostaria de entrevistar, tentou mais tarde prender‑me em Tyre – e libertou‑me imediatamente – quando lhe disse que sabia que ele foi testemunha do assassinato dos dois soldados irlandeses. Então, o que era suposto fazer quando recebi a seguinte carta do ex brigadeiro general Patrick Purcell do exército irlandês? «Infelizmente, fomos forçados a retirar (o seu) artigo, tendo em conta uma carta da nossa editora, Irish Academic Press. É claro, pelo nosso contrato, que (a nossa) Sociedade seria responsável no caso de uma acção por difamação». A carta adjunta do editor Frank Cass advertia que o seu advogado o tinha «acautelado» porque eu tinha descrito Haddad como «psicótico», tinha nomeado o major israelita chantagista e o agente israelita presente nos dois assassinatos. É interessante que o advogado do senhor Cass creia que é possível difamar um homem (Haddad) que está morto há mais de uma década, ainda para mais quando ele deveria pensar que publicar um nome de código militar incitaria esse velhaco a expor a sua verdadeira identidade num tribunal. Quanto ao major Haim, ele continua a figurar nos arquivos da ONU como o homem que tentou – e aparentemente conseguiu – obrigar as pessoas do sul do Líbano a vomitar o dinheiro para pagar aos seus próprios opressores. Qual é a moral disto tudo? Bem, obviamente, não contribuir com artigos para a Sociedade de História Militar da Irlanda. Mas, mais precisamente, é melhor recordar o que escrevi neste jornal há pouco mais de seis anos: que «o grau de insultos e ameaças directas que actualmente são dirigidos a qualquer um [...] que se atreva a criticar Israel [...] está a atingir rapidamente dimensionas macartianas. A intenção de obrigar os meios de comunicação a obedecer às regras de Israel é... internacional». E crescente, devo acrescentar agora. |