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26/02/2006 Robert Fisk The Independent; traduzido de ICH Todos no Médio Oriente rescrevem a história, mas nunca antes tínhamos tido um governo estadunidense que tão intencionalmente, desonestamente e implacavelmente reinterpretasse a tragédia como sucesso, a derrota como vitória, a morte como vida – ajudado, devo acrescentar, pela indulgente imprensa norte‑americana. Isto recorda‑me não tanto o Vietname, como os comandantes britânicos e franceses da Primeira Guerra Mundial que repetidamente mentiam acerca da vitória militar sobre o Kaiser enquanto empurravam centenas de milhares dos seus homens para os matadouros de Somme, Verdun e Gallipolli. A única diferença agora é que estamos a empurrar centenas de milhares de árabes para os matadouros – e nem queremos saber. A visita da semana passada a Beirute de um dos mais cegos morcegos de George Bush – a sua secretária de Estado, Condoleezza Rice – foi indicativo da crueldade que actualmente impregna Washington. Descaradamente, ela falou das florescentes “democracias” do Médio Oriente enquanto ignorava completamente os banhos de sangue no Iraque e as crescentes tensões sectárias no Líbano, Egipto e Arábia Saudita. Talvez a chave da sua indiferença possa ser encontrada na evidência que apresentou ante o Comité de Assuntos Externos do Senado, onde denunciou o Irão como «o maior desafio estratégico» que os EUA enfrentam na região, porque o Irão prossegue políticas que «contradizem a natureza do tipo de Médio Oriente que os Estados Unidos buscam». Como apontou Bouthaina Shaaban, um dos mais brilhantes ministros do nem sempre muito brilhante governo sírio: «Qual é a natureza do tipo de Médio Oriente que os Estados Unidos buscam? Devem os estados do Médio Oriente adaptar‑se a essa natureza, desenhada a oceanos de distância?» Como observou Maureen Dowd, a melhor e a única colunista que vale realmente a pena no maçador New York Times, Bush «acredita na autodeterminação só se é ele quem determina... Os bushitas estão mais obcecados com espionar os americanos do que em compreender como pensam e reagem outras culturas». E em ser coniventes com regimes velhacos [rogue], também, poderia Dowd ter acrescentado. Consideremos Donald Rumsfeld, o homem repreensível que ajudou a lançar a confusão do «choque e pavor» que agora apanhou mais de 100.000 americanos nas ruínas do Iraque. Tem vindo a fazer uma viagem de lazer pelo norte de África para realizar consultas com alguns dos piores ditadores patrocinados pelos Estados Unidos, entre eles o presidente Zine el‑Abidine Bel Ali, da Tunísia, o homem com o maior serviço secreto do mundo árabe e cujos polícias aperfeiçoaram o melhor método de sacar informação aos suspeitos de “terrorismo”: pendurá-los de cabeça para baixo e enfiar trapos empapados com detergente nas suas bocas até que estejam a ponto de se afogarem. Os tunisinos aprenderam isto dos métodos, algo mais crus, usados pelos seus vizinhos argelinos cujos esquadrões da morte governamentais assassinaram bastantes das 150.000 vítimas das recentes guerras contra os islamitas. Os rapazes da Argélia – e eu entrevistei alguns deles depois de os seus pesadelos os terem convencido a procurar asilo em Londres – amarravam as suas vítimas nuas a uma escada e, se a tortura do “chiffon” não resultava, empurravam um tubo pela garganta da vítima abaixo e abriam a torneira de água até o prisioneiro inflar como um balão. Havia um departamento especial (na estação de polícia de Chateauneuf, no caso de Donald Rumsfeld querer saber) para torturar mulheres, que eram inevitavelmente violadas antes de serem despachadas por um esquadrão de execuções. Menciono tudo isto porque Rusmfeld também tem vindo a coquetear com os argelinos. Numa visita a Argel este mês, anunciou que «os Estados Unidos e a Argélia têm uma relação multifacetada. Engloba a cooperação política e económica, bem como militar bilateral. E nós valorizamos muito a cooperação que estamos a receber em matéria de contra‑terrorismo...». Sim, imagino que a técnica do “chiffon” seja fácil de aprender, e a tortura de prisioneiros, também – tal como Abu Ghraib, por exemplo, que agora parece ter sido culpa de jornalistas e não dos facínoras dos Estados Unidos. Os últimos pronunciamentos de Rumsfeld incluíram uma defesa do sistema do Pentágono de comprar notícias favoráveis no Iraque com subornos – «meios não tradicionais para prover informação exacta» foi a sua fantástica descrição desta última tentativa de ocultar o colapso do regime americano em Bagdade – e um ataque às nossas reportagens sobre as torturas em Abu Ghraib. «Considerem por um momento a vasta quantidade de colunas escritas e as horas de televisão dedicadas ao abuso [sic] de detidos em Abu Ghraib. Comparem isso com o volume da cobertura e as condenações associadas com, digamos, a descoberta das fossas comuns de Saddam Hussein, que estavam cheias de centenas de milhares de iraquianos inocentes». Denunciemos esta mentira compulsiva. Denunciávamos o vil regime de Saddam, especialmente o seu uso de gases venenosos, há tanto como desde 1983. Vi ser‑me recusado um visto pelos sátrapas de Saddam por ter denunciado as suas vis torturas em... Abu Ghraib. E o que estava a fazer Donald Rumsfeld? Visitava Bagdade, rebaixando‑se ante Saddam, a quem não mencionou os assassinos nem as fossas comuns, dos quais sabia, e rogando à Besta de Bagdade que reabrisse a embaixada dos EUA no Iraque. Com os usuais cortesãos da imprensa a postos, Rusmfeld não tem problemas. Testemunhem a recente entrevista de George Melloan com a Besta de Washington no seu Boeing 737: «Ele generosamente concede‑me um momento para conversar sobre a estratégia de defesa. Brilhantes raios de luz solar entram pela janela e iluminam o seu rosto... Sentado frente a ele numa escrivaninha, acima das nuvens, uma pessoa pergunta‑se se a habilidade deste Júpiter moderno para dirigir os raios sobre os transgressores será igual às tarefas pela frente». E assim criação de mitos e a tragédia vão de mão dada. A tragédia monumental do Iraque converteu‑se numa rotineira, informe e incipiente “guerra civil”. Notem como o enquadramento americano do desastre está agora a ser retratado como uma guerra de iraquianos contra iraquianos, como se a imensa e brutal ocupação dos EUA não tivesse nada a ver com a horrível violência no Iraque. Fazem explodir as mesquitas uns dos outros? Eles simplesmente não querem andar para a frente. Nós dissemo-lhes que tivessem um governo não sectário e eles recusaram. Essa será, suspeito, a linha de saída quando o próximo dilúvio submergir os americanos no Iraque. Winston Churchill, quando os iraquianos montaram a sua revolta contra o domínio britânico em 1920, chamou ao Iraque «um vulcão ingrato». Mas sentemo-nos simplesmente e desfrutemos da vista. A democracia está a chegar ao Médio Oriente. As pessoas estão a desfrutar de mais liberdades. A história não importa, só o futuro. E o futuro para as pessoas do Médio está a tornar‑se mais escuro e sangrento cada dia. Suponho que depende apenas de se “Júpiter” está à altura do seu trabalho quando todos esses raios de luz solar entram e iluminam o seu rosto. |