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21/09/2005 Robert Fisk: A guerra é o “fracasso
total do espírito humano” Amy Goodman Tradução da transcrição da entrevista concedida
pelo jornalista britânico Robert Fisk a Amy Goodman, no dia 21 de setembro de
2005. Amy estava em Santa Fé, Novo México, num evento patrocinado pela Lannan
Foundation. Fisk estava num estúdio de Toronto, no Canadá. A entrevista foi
realizada via satélite. Correspondente do Independent de Londres para
o Oriente Médio, Fisk encontra-se naquela região há mais de trinta anos e
cobriu todos os grandes eventos da região: da Guerra Civil da Argélia à
Revolução Iraniana, da crise de reféns americanos em Beirute à Guerra
Irão-Iraque, da Invasão do Afeganistão pela Rússia às invasões do Líbano por
Israel, da Guerra do Golfo à invasão e guerra actual no Iraque. Em breve,
sairá o seu novo livro: The Great War for Civilisation: The Conquest of
the Middle East (A Grande Guerra pela Civilização: A Conquista do Oriente
Médio). AMY GOODMAN: Qual é a sua avaliação da situação
actual no Iraque e do que precisa ser feito? ROBERT FISK: Três dias depois que os americanos
vieram a Bagdade, disse que a história real estava para começar e que se
tratava da história da guerra contra a ocupação americana. Muitos colegas
meus pensavam que (o que eu dizia) era muito, muito engraçado – eles me
respondiam com risadas. Mas já não estão mais rindo. Veja, além da área do Curdistão, o Iraque está
num estado de total anarquia e caos. Nenhuma rodovia é segura fora de
Bagdade. A maior parte de Bagdade está nas mãos dos insurgentes. Somente nas
poucas zonas verdes, nas áreas blindadas dos hotéis, onde os ocidentais vivem
e nadam, e em muitos casos, eles nem saem dos seus próprios quartos, e isso
aplica-se a muitos jornalistas, só aqui as pessoas têm a ilusão de que as
coisas estão a melhor. Fora, nas ruas, alguns jornalistas ainda ousam ir,
incluindo, por exemplo, o meu colega Patrick Cockburn, do Independent,
e eu mesmo, do jornal Guardian, não a maioria dos americanos, só um ou
dois. Fora, nas ruas, onde poucos de nós (jornalistas)
ousam ir, é o inferno na Terra. Eu consegui ir, há um par de semanas, à
morgue da cidade de Bagdade. Como costumava fazer no passado, contando os corpos
no meio do dia e do verão, lá fora, no calor. Havia 26 até ao meio do dia.
Nove tinham chegado até às nove da manhã. Consegui obter as cifras oficiais
para o mês de julho para o número total de mortes violentas, somente em
Bagdade. A cifra era de 1.100 mortes violentas, homens, mulheres, crianças.
Mortas por tiros, assassinadas, esfaqueadas, executadas, mortas em chacinas
de esquadrões da morte. Uma cifra que, naturalmente, não é divulgada pelo
Ministério da Saúde do Iraque nem, é claro, pelas autoridades de ocupação. Agora, no Iraque, temos uma situação onde existe
uma insurgência em todos os níveis, tanto pelos xiitas quanto pelos sunitas
contra as forças ocidentais. Uma vez que uma insurgência como essa começa,
num país muçulmano, é impossível terminá-la. Lamento, mas será que podemos
atrasar o relógio? Começar de novo? Já que deu errado, em algum ponto? Não dá
para fazer isso. Não dá para fazer isso. Há três semanas, conversava com um
amigo iraquiano, em Bagdade, sobre o que ele achava ser a resposta. Ele
disse: «Não há resposta. Vocês têm de sair. Vocês têm de sair». Na época,
escrevi que a equação era terrível no Iraque. Funciona assim: os americanos
devem sair. E os americanos vão sair, mas os americanos não podem sair. E
essa é a equação que transforma a areia em sangue. Uma vez que você se torna uma potência de
ocupação, você assume responsabilidades em relação à população civil, o que
nós não fizemos, mas você também tem responsabilidades em relação a si mesmo.
Você precisa precisa de continuar a justificar vez após vez após vez à sua
própria população. Você estava certo em fazê-lo: o.k., não havia armas de
destruição em massa, mas livramo-nos de Saddam; o.k., ainda não
providenciamos a electricidade, mas vai haver uma constituição. Bem, assim
esperamos. E fizemos as eleições. Lembram-se delas? Em janeiro? E o tempo
todo, as pessoas continuam a morrer em números cada vez maiores. Lembram-se
do número para julho, e isso só para Bagdade? 5.000 mortos? Em julho? O que
isso significará para o país como um todo? O que isso significa para todo o
Iraque, em um ano? Estão a ver o problema? Estamos a falar em 50.000 ou
60.000 mortos por ano, agora. A pior cifra que ouvi é de 100.000 mortos desde
2003; ainda assim, não temos estatísticas oficiais. Quando jornalistas
individuais têm que ir para os morgues dos hospitais e contar os corpos no
chão, vocês podem estar certos de que temos sérios problemas. A última vez que estive em Bagdade comecei a
perguntar-me se os perigos – e eu nunca fiz isso em nenhuma outra guerra,
excepto para a guerra da Argélia, a qual, de muitas maneiras, era bastante
similar a esta –, a perguntar-me se os perigos de cobrir o Iraque continuam
ou não a valer a pena. Imagino que sim. Mas quando olho o meu rosto no
espelho, ocasionalmente, e vejo os cabelos brancos, pergunto se deveria
continuar a ir para lá. Provavelmente irei, mas não estou seguro. AMY GOODMAN: Robert, e quanto ao número de
jornalistas que morreram? Neste fim de semana, haverá uma manifestação contra
a guerra em Washington, no dia 24, e em todo o país. Duas das pessoas que
estarão lá são o irmão e a mãe de José Couso, o cameraman espanhol morto no
Palestine Hotel, no dia antes de as forças dos EUA derrubarem a estátua de Saddam
Hussein, em Fardus Square. ROBERT FISK: Não, foi no mesmo dia. No mesmo dia.
Foi o tanque blindado da primeira divisão. Era o tanque americano que o
matou, sem dúvida, mas foi no mesmo dia. AMY GOODMAN: E ele foi uma das tantas pessoas,
dos jornalistas que morreram recentemente. Um fotógrafo da Reuters morto, o
seu colega preso e detido pelas forças dos EUA, outro IS detido na prisão de
Abu Ghraib. Dúzias de jornalistas. E os seus colegas no Iraque actualmente? ROBERT FISK: O número total de jornalistas mortos
durante ou depois da invasão de 2003 até hoje é de 68. O mais recente é um
iraquiano que trabalhava para o The New York Times em Bassora, e que
foi encontrado jogado num depósito de lixo, executado com três balas na parte
posterior da cabeça. Creio que a "polícia iraquiana" o matou, como
creio que a polícia iraquiana matou o jornalista americano em Bassora. Veja,
não há dúvidas de que essa está tornar-se a história mais perigosa para os
jornalistas, em todos os tempos e em qualquer lugar. O pior período, antes, seria na Bósnia, em 1992,
quando muitos jornalistas que nunca tinham estado numa guerra antes foram
enviados para a Bósnia e estavam a morrer às dúzias por semana. Isso era
devido, principalmente, creio, porque estavam a enviar jovens cuja
experiência de guerra era Hollywood, onde o herói sobrevive sempre. E o que é
chocante a respeito dessa guerra é que a maioria dos jornalista assassinados
no Iraque, quase sem excepção, é experiente, em muitos casos jornalistas de
faixa etária média que estiveram sob o fogo muitas vezes antes, e que sabem
sobre a natureza letal das armas e cujos trabalhos e vidas simplesmente não
são mais respeitadas. Nunca estive numa guerra como a do Iraque, na qual as
nossas vidas estão tão ameaçadas, tão alvejadas por todos os lados, parece. E
não estou certo do que podemos fazer quanto a isso. Os jornalistas americanos, alguns deles têm
guarda-costas armados iraquianos. O The New York Times tem um bunker
com quatro torres de vigia e iraquianos armados com "NYT" New
York Times nas suas camisolas negras. O pessoal da NBC vive num hotel no
Distrito de Karada, atrás de grades de ferro. O pessoal da A.P. vive no
Palestine Hotel, atrás de duas paredes blindadas. Muito raramente saem dos
seus bunkers, assim como o pessoal americano, que nunca se aventura nas ruas.
Como disse, eu ainda saio com amigos iraquianos. Saímos para ir a
restaurantes. Mas acho que é porque enquanto estamos com iraquianos e olhamos
para o relógio e dizemos, bem, temos 20 minutos, acabamos a refeição em
meia-hora, e daí saímos. Desse modo tudo bem, mas é um risco calculado. Como disse, não estou certo de que os riscos
ainda valem a pena. As nossas vidas não valem nada para os insurgentes. As
nossas vidas parecem não valer nada para os americanos ou para os britânicos.
Acho que quando se chega ao ponto onde as nossas vidas e o nosso trabalho
simplesmente não são mais respeitados, é preciso fazer a pergunta: será que
ainda vale a pena? Acho que vale porque creio que o Iraque é uma tragédia
espantosa. Principalmente para os iraquianos, naturalmente, e que não são
colocados no topo das nossas listas. Dizemos (que morreram) 1.900 americanos,
93 britânicos, ou algo em torno disso. Mas são os iraquianos que sofrem e que
morrem em altas cifras. Muitos deles porque acreditaram em nós e se
dispuseram a trabalhar para a polícia ou queriam trabalhar para companhias de
construção, construindo pistas de aterragem para os americanos ou fortalezas
para os americanos. Mas acho que toda a história iraquiana para nós,
como jornalistas, está a tornar-se quase impossível de cobrir. Certamente, se
um jornalista vive atrás de duas paredes blindadas de um hotel, e só usa o
seu telemóvel para ligar para os diplomatas americanos ou britânicos, por sua
vez atrás de outros muros de betão, bem poderia estar em County Mayo, na
Irlanda ou em Santa Fé, Novo México. Não faz sentido estar lá. Por exemplo, na última viagem que fiz fora de
Bagdade, levei duas semanas para combinar os detalhes para ir a Najaf. Foi a
viagem mais temerosa. Viajei na estrada com três amigos iraquianos. Um deles,
um clérigo xiita, um homem religioso. Todos os pontos de controle do exército
iraquiano tinham sido abandonados. Isso logo depois que George Bush afirmou
que o exército iraquiano estava em campo. Havia carros da polícia iraquiana
virados de cabeça para baixo. Carros americanos queimados. Não vi nenhum
membro das Forças de Segurança até que cheguei à periferia de Najaf, cerca de
80 milhas (de Bagdade). Todo o interior, fora de Bagdade, está sob
controle, é agora propriedade dos insurgentes armados sunitas ou xiitas. Isso
ninguém nos diz. Isso o Presidente Bush não admite. Isso, o nosso decano, o
Sr. Blair não reconhece. E essa é parte da tragédia. E parece que agora é
parte das nossas vidas, que o alagamento de Nova Orleans não é real até que seja
impossível negar a realidade, que o colapso do Iraque não é real, até que
sejá impossível negar a sua realidade. Com a pobreza de cobertura da televisão, embora
tenhamos obtido boas fotos, conforme pude observar, dos soldados britânicos
em chamas dentro dos seus veículos blindados, por amor de Deus. Não sei se é
ainda possível explicar o que está a acontecer no Iraque. A maioria dos
jornalistas, dos jornalistas ocidentais dependem dos seus correspondentes
iraquianos, que arriscam as suas vidas nas ruas. E eles estão a arriscar as
suas vidas e estão a morrer para fornecer as notícias. Mas não há,
praticamente – não há jornalistas ocidentalizados independentes nas ruas sem
armas. O meu jornal não oferece protecção. Não carregamos armas. Mas meu Deus, como digo, não sei por quanto tempo
poderemos continuar a fazer isso. Cada vez que o Patrick e eu vamos para o
Iraque as coisas estão pior. E quando olhamos para trás, há um ano atrás, o
que era considerado terrível, ficamos impressionados com a liberdade que tínhamos,
como era fácil ir fazer compras, por exemplo. Ainda vou comprar comestíveis –
por seis minutos somente. Agarro o pão, enfio-me na frente da fila, pago,
saio. Aprende-se muito. No outro dia, fui ao meu restaurante favorito, o
Ramaya, para ver que não era mais o Ramaya. Agora, recebeu um nome islâmico e
tinha um letreiro de néon verde. Quando entrei, vi que o menu não era mais em
inglês, francês e árabe. Estava somente em árabe. E nada de garrafas de vinho
tinto libanês. Foi totalmente islamicizado. É preciso ver para compreender.
Mas o problema é que muitos dos nossos colegas não têm nem a permissão das
suas chefias para saíram dos seus escritórios. AMY GOODMAN: Nós acabamos de voltar de Nova
Orleans. Algo que é muito surpreendente com o que aconteceu com a mídia,
aparte o horror que teve lugar, é porque a guarda nacional se encontrava no
Iraque. Como o presidente Bush não enviou os recursos para lá imediatamente
não havia tropas nas quais os repórteres podiam incorporar-se. Assim, o que
ocorreu é que havia repórteres que eram vítimas, na rua, reportando os factos
de um modo como nunca tínhamos visto antes, como a imagem de um repórter com
um corpo flutuando atrás. Assim, quando os oficiais do governo dizem que não
é verdade, os jornalistas, na realidade, desafiam os oficiais do governo,
porque eles mesmos estão a vivenciar a situação. Uma das primeiras coisas que
Bush fez quando começou a envolver-se com o problema foi proibir a divulgação
de fotos com corpos de mortos. Acho que o que fez virar este país, agora, é
que as pessoas viram as imagens reais de Nova Orleães, de um modo como não
viram o que ocorria no Iraque. Você poderia falar de todo o processo de
incorporação e do controle dos mídia? ROBERT FISK: Não é sobre incorporação. Não é
sobre incorporação, Amy. É sobre a recusa da televisão de mostrar a verdade
sobre a guerra. Deixe-me dar um exemplo. Em 1991, estava na estrada principal
que leva a Bassora, na chamada rodovia da morte, com o pessoal da ITV, um
canal comercial britânico. Paramos num lugar onde havia um grande número de
soldados iraquiano mortos, no deserto. Tinham aparecido hordas de cães do
deserto. E estavam a destroçar e a comer os corpos dos soldados. Puxando o
braço com a mão dependurada pelo deserto, comendo as entranhas, arrancando
pedaços das bochechas de soldados mortos. O pessoal da ITV saiu e começou a
filmar. Daí perguntei: «Para que estão a filmar isso? Não vai ser nunca
mostrado no ar». Um deles respondeu: «Não, é só para os arquivos». Veja, esse é o problema. A guerra já tinha
acabado. Estou a falar da Guerra do Golfo de 1991, a libertação do Kuwait.
Então, os jornalistas tinham sido postos em grupos, o que era o equivalente
ao incorporamento. E eles diziam que queriam reportar a guerra real, e que
não estavam a poder, porque estavam a ser censurados. Mas quando a guerra
acabou, e puderam viajar pelas estradas e filmar o que gostariam de filmar,
eles próprios censuraram o conteúdo. Isso é muito delicado. Não dá para
colocar isso no ar na hora do pequeno-almoço. E as crianças? E em Londres, em
Washington, e em Nova York, em qualquer outro lugar, em Paris, os directores
de TV e os editores disseram: «Não podemos mostrar isso». Impossível. Muitas
das piores fotografias tomadas durante a invasão do Iraque em 2003: um homem
segurando uma criança como se fosse uma panqueca. Uma bela menina nos braços
de um homem, bem a foto teve que ser cortada porque não queríamos ver os
ossos do pé destroçados, para fora. Ela estava morta, ferida, em muitas
imagens. Nunca foram publicadas. Não podiam ser mostradas. Podia-se, mas não
foram. Porque era muito delicado. Não dava para mostrá-las na hora do
pequeno-almoço. É irresponsável mostrar fotos como essa, é falta de respeito,
dizia-se. O que eu digo é que se você tivesse visto o que
eu vi, cada vez que eu vou para as guerras, quando estou na linha da frente,
com ou sem soldados ou civis feridos em hospitais, se você visse o que eu vi,
você nunca sequer sonharia dar o seu apoio a qualquer guerra que fosse.
Nunca. Em toda a sua vida. É paradoxal que o cinema, o cinema comercial possa
mostrar as cenas mais sangrentas e cruas, que são bastante parecidas àquilo
que se vê na vida real: Saving Private Ryan, as entranhas saindo para
fora. Mesmo assim, a guerra real não pode ser vista sem antes serem censuradas
as imagens, as quais, em muitos casos, são exactamente como aquelas que se
vêem quando se vai ao cinema. Ou quando se vê um filme de guerra na
televisão. É impressionante. E só quando se está lá é que se percebe – e eu
tenho um editor em Londres que abana a cabeça, descrente, cada vez que eu
digo isso mais uma vez. Se você vai à guerra, você percebe que ela não tem
nada a ver com vitória ou derrota. Ela tem a ver com a morte e em se infligir
a morte e o sofrimento na maior escala possível. Ela tem a ver com o fracasso
total do espírito humano. Isso não é mostrado, simplesmente porque não
queremos mostrar. E nesse sentido, os jornalistas, as reportagens da
televisão, as câmaras de tv são letais. Compactuam com os governos,
permitindo que existam mais guerras, porque se mostrassem a verdade, ninguém
permitiria que se fizesse qualquer outra guerra. AMY GOODMAN: Robert Fisk, duas perguntas. Uma:
porque pensa que o Presidente Bush fez isso? E o que pensa, já que escreveu
no seu livro prestes a sair «A Grande Guerra pela Civilização», sobre o
crescente apelo dos nossos leitores, indignados, sobre o que podemos fazer?
Porque pensa que ele fez isso? O que pensa que ele quer conseguir? E o que pensa
que as pessoas podem fazer? ROBERT FISK: Veja, o que Bush fez em 2003 e o que
o nosso próprio Blair fez, o nosso tão querido primeiro-ministro, o que ambos
fizeram foi um erro terrível, que a História deveria ter-lhes ensinado a não
fazer. Eles foram para a guerra por razões ideológicas. Vestiram-nas de
razões militares, armas de destruição em massa, salvar os pobres xiitas, os
pobres sunitas, os pobres curdos, ou seja lá o que for, a destruição de
Saddam Hussein, dar democracia ao Médio Oriente. Haverá ainda outras
(razões), em breve, antes do dia em que diremos aos iraquianos que eles são
uns mal-agradecidos e que deveriam ter ficado mais gratos. Já começamos a
dizer a eles essas coisas, nas colunas de cartas dos leitores, como pude
notar. Mas eles foram longe demais, por razões
ideológicas. Por esses motivos, o fracasso é seguro. Veja, tudo acaba mal
numa guerra baseada na ideologia. Seja uma ideologia da direita cristã, seja
uma ideologia fundamentalista, seja a ideologia da democracia americana
ocidental visando desenraizar as ditaduras do Médio Oriente. Não vou começar
a falar disso pois não quero que vocês adormeçam. Mas o que acontece é que
tudo sobre os seus propósitos militares é pervertido. Por exemplo, vejam a
inteligência americana. Não funciona, no Iraque. Não funciona de jeito algum.
Tudo o que fazem é prender as pessoas erradas. As pessoas são punidas
fisicamente, são torturadas. Falando nisso, sim, são torturadas. Apesar disso, a América tem esse extraordinário
aparato de inteligência. Supercomputadores gigantescos sugando todas as
chamadas telefónicas. Milhões de chamadas, de todo o Médio Oriente.
Tradutores que vão de uma página a outra, mas não tão depressa, como ficou
constatado antes do 11 de Setembro de 2001. Mas traduzindo… E juntam esse
volume incrível de inteligência sobre o que está a acontecer no Oriente
Médio. Agora, quando se é capaz de compreender a injustiça, e é disso que se
trata sobretudo, no Médio Oriente, você pode fazer sentido de tudo isso. Mas
quando a abordagem é ideológica no tratamento dessa inteligência, e tenta
encaixar as informações dentro daquilo que você acredita ou gostaria de
acreditar, então toda a C.I.A. é eliminada. Não tem qualquer valor. É por isso, por exemplo, que a base, a fundação
da guerra do Iraque foi construída na areia, porque foi uma guerra
ideológica. Não foi baseada naquilo que os iraquianos queriam que acontecesse
realmente. Foi também baseada no petróleo, sei disso. Porque se o principal
produto de exportação do Iraque fossem aspargos, não estaríamos lá, certo?
Quando se baseia a guerra em ideologia, o que acontece? Perde-se. E quando se
mente a respeito da base da guerra, perde-se. E a guerra do Iraque já foi
perdida. Ela é somente jornalismo de prisão ou jornalismo de hotel e as
mentiras do Departamento de Estado e do Pentágono e da Casa Branca e de Downing
Street e do Ministério da Defesa em Londres, e tudo o que mantém esta roda a
girar. Em algum ponto, haverá uma explosão que não poderá ser explicada pelos
que estão no poder. Não sei o que vai ser, mas é certo que vai acontecer. Como lidar com isso? Não sei. Veja, os leitores
escrevem-me. Tenho um monte de correspondência na minha mala. O que podemos
fazer? Na Grã-Bretanha, houve um processo de ruptura total entre os eleitores
e os eleitos. Uma das razões, naturalmente, o partido Tory apoiando o partido
Trabalhista, a imprensa tornou-se a oposição. Aqui nos EUA, vocês têm um
problema bem maior, em que, como eu o entendo – bem, citarei um marine dos
EUA, que me disse em San Diego, há alguns meses: «O nosso problema é que
temos esse tipo de falsa democracia», disse ele, «Votamos nos nossos
senadores e congressistas pelo que nos dariam, mas dão-nos algo completamente
diferente». Acho que vocês têm um grande problema com os
grupos de lobistas. E não me refiro só ao lobby pró-Israel, mas aos de armas
também. Acho que vocês têm um grande problema com os grupos de lobby em
Washington, e cada presidente chega dizendo que vai resolver o problema, mas
nunca o faz. Na verdade, Bush não disse isso, não George W., de qualquer
modo. Mas acho que nos EUA vocês têm um problema muito maior em relação ao
Médio Oriente. As suas vozes simplesmente não são ouvidas, a menos que sejam
pró-Israel, pró-política dos EUA no Médio Oriente, etc… Há algumas almas
corajosas, como Paul Finley. Mas vejam o que aconteceu com ele. Mas, basicamente,
vocês não serão representados nestas questões críticas. A política americana no Médio Oriente é a questão
crítica em todas as nossas vidas neste momento. Eu toquei no assunto – e
faço-o com mais detalhes no meu novo livro, sobre o porquê depois do 11 de
setembro de 2001… lembro-me de uma discussão terrível com um professor de
Boston, Dershowitz, que me chamou «um homem perigoso. Ele é anti-americano. É
o mesmo que ser anti-semita». O que é uma estupidez, naturalmente, não sou
nenhuma das duas coisas. Mas toda e qualquer pessoa que levanta a questão é
vista como antipatriótica, um inimigo em potência, portanto, anti-americano,
anti-povo, anti-democracia. Porque, é claro, levantar a questão do porquê
implica dizer: bem, um segundo, os 19 sequestradores vieram de países árabes.
Vieram do Médio Oriente. Será que há algum problema por lá? Isso não nos é
permitido fazer. É estranho, pois se um crime é cometido em Santa
Fé, chega a polícia. Primeiro procuram o motivo. Quando se tem um crime
internacional contra a humanidade, na escala do 11 de setembro de 2001, a
única coisa que não se pode fazer é perguntar sobre o motivo do crime. E acho
que por muitos meses, os americanos foram impedidos de buscar o motivo.
Quando começaram a buscá-lo, já estávamos a bombardear o Afeganistão e a
dizer que havia armas de destruição em massa no Iraque. E daí, a derrotar
Saddam Hussein. E assim continua. Parece que os políticos de hoje, e em
muitos casos com a ajuda dos jornalistas, continuam a enganar as pessoas. "Vamos
explicar isso amanhã. É um segredo muito importante para ser compartilhado
hoje", insistem os oficiais da inteligência. Vejam o The New York
Times e os parágrafos da primeira página, vez após outra: "Segundo
oficiais da inteligência americanos". "Oficiais americanos
dizem…". Às vezes, acho que o The New York Times deveria mudar de
nome para "Oficias Americanos Dizem…". É só dar uma olhada amanhã
ou depois de amanhã. É o mesmo para o L.A. Times, ou o, bem não, o San
Francisco Chronicle já não é um grande jornal, infelizmente, mas para o The
Washington Post. É quase como se – bem, essa relação confortável
entre os jornalistas americanos e o poder é muito perigosa. Você quer olhar
de perto para o que é esse relacionamento. É osmótica, de hospedeiro e parasita
juntos. Basta ver qualquer conferência de imprensa da Casa Branca: "Sr.
Presidente, Sr. Presidente?" "Sim, Bob. Sim, John? Sim,
Nancy," essa é a relação. Os jornalistas gostam de estar perto do poder.
E sabem que para estar perto do poder, não podem desafiar o poder. E isso
remete-nos à definição de jornalismo de Amira Hass, à qual sou totalmente
devoto: você deve desafiar o poder o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo,
até mesmo quando os políticos e o primeiro-ministro, até mesmo quando os
leitores odeiam você. Você deve desafiar o poder. E isso inclui o poder de
Bin Laden. AMY GOODMAN: Robert Fisk, estamos a chegar ao
fim, mas teria uma última perguntinha, talvez. ROBERT FISK: Graças a Deus. AMY GOODMAN: Bem, você cobriu as invasões do
Líbano por Israel, a Revolução iraniana, a Guerra Irão‑Iraque, a
invasão soviética do Afeganistão, a Guerra do Golfo, guerras na Argélia, o
conflito israelo-palestino, a invasão e ocupação do Iraque… ROBERT FISK: Chega, chega, chega. AMY GOODMAN: O que lhe dá esperança? O que lhe dá
esperança? ROBERT FISK: Nada. Sinto muito. Nada. Sinto muito. Nada no momento. As pessoas comuns, acho. As pessoas comuns que se manifestam. As pessoas no mundo árabe também. Mas em termos de governos, nada. Posso estar errado. Talvez eu seja pessimista por ter visto coisas demais. |