Informação Alternativa

Médio Oriente

10/12/2005

 

Alguns ossos estão melhor enterrados

 

Robert Fisk

 

O meu falecido amigo Juan Carlos Gumucio costumava dizer que éramos “correspondentes das fossas comuns”. Deslocávamo­‑nos com tanta frequência ao sul de Líbano para presenciar a exumação de mais libaneses assassinados, que parecia uma descrição muito precisa das nossas vidas. Druzos atirados para dentro de poços, maronitas degolados no Chouf e – uma ocasião – um ossário repleto de esqueletos que, depois das usuais acusações de atrocidades israelenses, resultaram ser o último lugar de repouso não de palestinianos, mas de filisteus; foi Juan Carlos quem notou que os mortos não traziam relógios de pulso.

 

E hoje – muitos meses depois de ele se ter suicidado na longínqua Bolívia – recordo uma vez mais o meu antigo colega. Pois temos mais fossas comuns no Líbano. Ou, para ser específico, num pequeno povoado chamado Anjar. E aí reside o problema: Anjar é arménio, e embora albergue com orgulho os restos mortais dos heróis de Musa Dagh (levantem a mão todos os leitores que saibam o que se passou em Musa Dagh), foi um dos poucos lugares do Líbano poupado à carnificina da guerra civil do país, de 1975 a 1990.

 

«Vamos esperar para ver», foram as palavras reconfortantes de Nabih Berri, porta­‑voz xiita do parlamento libanês, e amigo da Síria. Não eram inesperadas.

 

Porque os 29 cadáveres desenterrados em Anjar foram descobertos perto do antigo quartel­‑general da agência militar de segurança síria. Incluem quatro crianças e um feto. Os cristãos maronitas do Líbano estão agora a sustentar que os mortos foram assassinados pelos sírios. De facto, no palácio do cardeal maronita em Bkirke, os bispos exigiram que um tribunal internacional investigue esse «crime contra a humanidade».

 

Tudo bem até ao momento. Pois quem foi o oficial que exerceu o mais prolongado domínio sobre o complexo de segurança de Anjar? Ora, o general brigadeiro Ghazi Kenaan, o magro, belicoso e implacável polícia secreto que se matou – ou foi “suicidado” – no seu escritório de Damasco no princípio deste ano quando ainda tinha o posto de ministro do Interior.

 

Assim, os mortos estão a dividir os libaneses segundo as usuais linhas sectárias. Dado que os cristãos suspeitam que são antigos soldados libaneses que combateram o exército sírio em 1990 – ou que os mortos eram cristãos torturados pelos rapazes do general Kenaan – a comunidade maronita está indignada, enquanto os muçulmanos do Líbano estão de algum modo menos perturbados pela descoberta da fossa comum. À medida que cada dia traz consigo mais ossos da macia terra avermelhada do vale de Bekaa, recordo uma velha amiga sérvia, uma senhora distinta que se casou com um coronel do exército jugoslavo, que lembrava como os croatas desenterraram os seus mortos da Segunda Guerra Mundial para provar a perversidade dos guerrilheiros sérvios de Tito.

 

«Abriram as fossas comuns para verter nelas mais sangue», anunciou a minha amiga. E tinha razão; em questão de meses, rebentaram as guerras de secessão da Jugoslávia em todo o território, atiçadas por todos esses esqueletos retirados das ravinas da Croácia e da Bósnia. Foi assim tão boa ideia desenterrá-los? Não poderá haver, talvez, um estatuto de limitações para estes casos? No entanto, mesmo isto não resolveria o problema do Líbano – onde alguns mortos ainda permanecem nas suas sepulturas há apenas 15 anos. E onde é melhor que algumas sepulturas fiquem por cavar. Pois, por uma desagradável ironia, uma delas está junto a uma igreja a tão só umas centenas de metros do palácio onde esses bispos exigiram esta semana um tribunal internacional.

 

A sua localização é conhecida pelos assassinos e contém até 300 palestinianos que originalmente se salvaram do massacre dos campos de refugiados de Sabra e Chatila, em Beirute, em meados de Setembro de 1982. Os aliados falangistas de Israel foram enviados para os acampamentos por Israel para combaterem “terroristas” – Ariel Sharon foi considerado pessoalmente responsável por isto na comissão de inquérito oficial israelense em 1983 –, mas o que é menos conhecido é que muitos dos palestinianos mortos nesse mês escaparam ao massacre original. Foram interrogados por oficiais israelenses no dia 18 de Setembro de 1982 – e depois devolvidos aos assassinos da milícia.

 

Depois de vários dias de tentativas infrutuosas de trocar estes prisioneiros por cristãos sequestrados por muçulmanos libaneses e palestinianos, tomou-se a decisão de matá­‑los a todos. Os que estavam detidos perto de Bkirke foram executados com metralhadoras à beira das suas sepulturas, depois de terem sido transportados em asfixiantes contentores. Um dos seus assassinos identificou o local – encontra­‑se agora dentro de aquartelamentos do exército libanês – em 2001. Mas quem quereria desenterrar estes cadáveres? Com que propósito? Para devolver os seus restos mortais (supondo que possam ser identificados) aos seus entes queridos (supondo que os últimos tenham sobrevivido ao massacre original)? Ou para verter mais sangue nas sepulturas?

 

No final de contas, há 17.000 libaneses desaparecidos como resultado da guerra civil. Vamos desenterrá­‑los a todos? Ou só aqueles cujos inimigos ou assassinos por acaso se encontram na nossa actual lista de ódios favoritos – estando a Síria neste momento no topo da lista dos Estados Unidos – quando uma prova da brutalidade síria cairia bem ao Departamento de Estado [estadunidense]? E quem pode esquecer que, no dia 15 de Dezembro, o principal investigador da ONU, Detlev Mehlis, apresentará o seu relatório final sobre as responsabilidades no assassinato do ex primeiro­‑ministro libanês Rafiq Hariri e outras 21 pessoas no dia 14 de Fevereiro deste ano? Pois este documento – com as suas implicações de longo alcance para o regime sírio –  provavelmente excederá em importância mesmo as eleições iraquianas, programadas para o mesmo dia.

 

Assim, enquanto esperamos os achados do senhor Mehlis sobre a morte do homem cujos restos mortais jazem ao lado daqueles dos seus guarda-costas, a apenas umas centenas de metros do local do seu assassinato, estamos todos no Líbano a cheirar o pútrido odor de um cemitério maior. Talvez Juan Carlos tivesse razão. Talvez, todos nós, sejamos correspondentes de fossas comuns, temerosos de esquecer os mortos, e ainda com mais medo de desenterrá-los.