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Informação Alternativa |
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Estados
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03/12/2005 Vendo deitado sobre as suas costas o patético, velho e temeroso lavrador que são os meios de comunicação americanos transformar-se da noite para o dia num agressivo rottweiler é um dos prazeres perduráveis da sociedade nos Estados Unidos. Experimentei esse fenómeno nas duas últimas semanas, simultaneamente como vítima e beneficiário. Em Nova York e Los Angeles, a minha condenação da presidência americana e da persistente construção de colonatos de Israel na Cisjordânia foi inicialmente tratada com o desdém que todos os grandes jornais reservam para aqueles que se atrevem a questionar os orgulhosos e democráticos projectos de Estado. No New York Times, essa antiga luminária Ethan Bonner conseguiu repreender‑me por atacar os jornalistas americanos que – citou furiosamente as minhas próprias palavras – «informam de forma tão cobarde do Médio Oriente – tão temerosos das críticas de Israel que transformam os assassinatos israelitas em “ataques selectivos” e os colonatos ilegais em “comunidades judias”». Foi notável que Bonner estivesse tão desconectado dos seus leitores que não sabia que “cobarde” é a própria palavra que muitos americanos aplicam aos seus meios de comunicação servis (e muito provavelmente uma razão pela qual a circulação de jornais está a cair tão desastrosamente). Mas no momento em que um respeitado congressista democrata, veterano da guerra do Vietname se atreveu em Washington a sugerir que a guerra no Iraque estava perdida, que as tropas dos EUA deviam ser repatriadas já – e quando a resposta republicana foi tão brutal que teve que ser desautorizada – o velho cão mediático farejou o ar, deu-se conta de que o poder se estava a afastar da Casa Branca, e começou a babar‑se. Ao vivo na televisão de São Francisco, pude continuar sem interrupções a minha crítica à demencial aventura de Washington no Iraque. O ex‑prefeito Willie Brown – que me permitiu tirar uma fotografia no seu novo Stetson azul claro – exsudava calor humano para com este impertinente britânico (embora tivesse afirmado ante as câmaras que eu era americano) que rasgava em pedaços as políticas do seu país no Médio Oriente. Era o suficiente para nos fazer sentir um pouquinho de compaixão – mas só por um milisegundo, vejam lá – pelo tipo da Casa Branca. Tudo isto não foi efeito dessa transição familiar de Newark para o aeroporto internacional de Los Angeles, onde o terror dos ataques da Al Qaeda é substituído pelo medo relativo à camada de ozono. Na costa leste, também, os editoriais trovejavam contra a administração Bush. Seymour Hersh, essa bênção do jornalismo americano que deu a conhecer a história das torturas em Abu Ghraib, tirou outro coelho negro da sua cartola iraquiana ao revelar que comandantes dos EUA no Iraque acreditam que a insurgência está agora fora de controle. Quando esses mesmos combatentes iraquianos voltaram esta semana a tomar o controle de toda a cidade de Ramadi (já “libertada” quatro vezes por tropas dos EUA desde 2003), a história ocupou o mesmo tempo de televisão em horário nobre que a mais recente e infinitamente fatigante insistência de Bush de que as forças iraquianas – que, na realidade, estão tão infiltradas por insurgentes que são como um punhal nas costas dos Estados Unidos - cedo serão capazes de substituir as forças estrangeiras nos deveres de segurança. Até em Hollywood – e aqui os calendários de produção mostram que a podridão deve ter‑se iniciado há mais de um ano – temas até agora tabu afloram à superfície do pântano político. Jarhead, produzido pela Universal Pictures, relata a história de uma unidade brutal e traumatizada de marines durante a Guerra do Golfo de 1991. A produção de George Clooney, Good night, good luck, um devastador relato a preto e branco da heróica batalha do correspondente da Segunda Guerra Mundial Ed Murrow com o senador Joseph McCarthy nos anos 1950 – o seu tema é a gestão e o esmagamento da dissidência – já rendeu o dobro dos seus custos de produção. Murrow é representado por um actor, mas McCarthy só aparece em imagens de arquivo reais. De forma incrível, uma audiência testada em Nova York queixou‑se de que o actor que “representava” McCarthy era “exagerado”. Diremos isso acerca de Bush, Cheney e Rumsfeld nos anos vindouros? Suspeito que sim. E depois há Syriana, o épico de Clooney sobre o comércio de petróleo, que combina bombistas suicidas, agentes da CIA dissidentes (um deles representado pelo próprio Clooney), potentados árabes do Médio Oriente em conflito – um dos quais quer verdadeira democracia e riqueza para o seu povo e controle dos recursos do seu próprio país – juntamente com uma caterva de infames empresários e advogados da costa leste [dos EUA]. A CIA acaba por assassinar o príncipe árabe que quer tomar o controle do petróleo do seu próprio país (lá se vai a democracia) – isto é perpetrado mediante uma bomba aérea sem piloto, guiada por homens numa sala na Virginia – enquanto um paquistanês despedido do seu emprego nos campos petrolíferos, porque um conglomerado americano cortou pessoal em prol dos lucros dos seus accionistas, destrói um dos navios tanques da companhia num ataque suicida. «A pessoas parecem menos temerosas agora», declarou Clooney a um entrevistador da revista Entertainment. «Muitos pessoas estão a começar a fazer perguntas. Está a tornar‑se difícil evitar as perguntas». Evidentemente, estas perguntas estão a ser feitas por causa das mais de 2.000 baixas americanas no Iraque, mais do que por compaixão para com as dezenas de milhares de mortos iraquianos. Estão a questionar‑se porque toda a invasão ilegal do Iraque está a acabar em calamidade em vez de sucesso. Contudo, ainda evitam a questão “Israel”. Os príncipes árabes em Syriana – que na vida real estariam obcecados com a ocupação da Cisjordânia – não murmuram uma palavra sobre Israel. O operativo árabe da Al Qaeda que persuade o jovem paquistanês a atacar um navio tanque não faz referência a Israel – como sem dúvida faria qualquer um dos acólitos de Bin Laden. Foi instrutivo que Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, não tenha mencionado Israel uma única vez. Assim, um assunto chave do Médio Oriente permanece sem ser confrontado. Amy Goodman, a quem eu costumava enfurecer afirmando que o seu programa esquerdista Democracy Now – transmitido de uma antiga estação de bombeiros de Brooklyn – só tinha três ouvintes (um dos quais era Amy Goodman), está a levantar corajosamente este tema não‑mencionável. Em parte como consequência disso, a sua estação “alternativa” de rádio e televisão – como odeio essa palavra empertigada “alternativa” – está a tornar‑se a pouco e pouco numa referência. Os americanos estão prontos para debater a relação dos Estados Unidos com Israel. E as injustiças dos Estados Unidos para com os árabes. Como de costume, os americanos comuns estão muito adiante dos seus repórteres de imprensa e televisão, submissos na sua maioria. Agora temos que esperar para ver se os rapazes e raparigas dos meios de comunicação apanharão o passo do seu próprio povo. |