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26/11/2005 No dia 4 de Abril de 2003,
estava eu no terraço do escritório da Al Jazeera em Bagdade. O horizonte era
uma gigantesca epopeia de incêndios petrolíferos e edifícios em chamas. As
baterias anti‑aéreas localizadas num parque público próximo do escritório
lançavam projécteis para o céu e o uivo dos jactos ressoava através da cidade.
Estava prestes a começar uma entrevista de duas vias com a sede da Al Jazeera
no Qatar quando um foguete americano chegou rugindo do rio Tigre atrás de mim.
O seu zumbido arrancou um grito ao técnico do Qatar, que apanhou o som nos
seus auscultadores. «Isso foi o que me pareceu
que era?», perguntou. Temo que sim, respondi, enquanto o míssil de cruzeiro
pintado de branco voava por trás de uma das pontes do Tigre e desaparecia
corrente acima. Depois de terminar a minha “tomada do alto” – as televisão
exigem cenas de terraços de Bagdade ainda hoje, quando a maioria dos
repórteres estão confinados aos seus escritórios e hotéis por equipas de
mercenários contratados – desci à sala de imprensa da Al Jazeera, onde o
chefe jordano‑palestino do escritório, Tareq Ayoub, tratava de
preparar o seu próximo relatório. Tu, disse-lhe, tens o escritório de
televisão mais perigoso na história do mundo. Comentei como o seu
escritório em Bagdade seria um alvo fácil se os americanos quisessem destruir
a sua cobertura – vista em todo o mundo árabe – de vítimas civis do
bombardeamento anglo-americano do Iraque. «Não te preocupes, Robert»,
replicou Tareq. «Demos aos americanos a localização exacta da nossa sede para
que não sejamos atingidos». Três dias depois, Tareq estava morto. A Al Jazeera tinha de facto
fornecido o mapa de coordenadas do seu escritório ao Pentágono. Na verdade, o
representante de relações públicas do Departamento de Estado no Qatar – um
homem de ascendência libanesa chamado Nabil Khoury – tinha ido propositadamente
à direcção da estação no 6 de Abril para lhes assegurar que o seu escritório
seria poupado. Depois, no dia 7 de Abril, quando Tareq Ayoub transmitia às
7:45 da manhã do mesmo lugar do terraço onde eu tinha estado, um jacto americano
cruzou o Tigre e disparou um só míssil contra a Al Jazeera. A sua explosão
matou Tareq instantaneamente. Este não foi um ataque errante. «O avião voava
tão baixo que pensámos que ia aterrizar no telhado», disse-me depois Taiseer
Alouni, colega de Tareq. E Taiseer devia saber. Em
2001 tinha sido correspondente da Al Jazeera em Cabul quando um míssil de
cruzeiro embateu contra o seu (misericordiosamente vazio) escritório. A Al
Jazeera tinha estado a transmitir do Afeganistão as ameaças e sermões de Bin
Laden e ninguém duvidou na altura que o ataque – que os americanos alegaram
ter sido um erro – foi deliberado. Depois da morte de Tareq Ayoub em Bagdade,
em 2003, a desalmada carta de explicação do Pentágono lamentava a morte de
Ayoub, mas nem sequer se dava ao trabalho de fornecer uma explicação para o
ataque. Porque deveria fazê-lo? Afinal de contas, nesse mesmo dia, um tanque
Abrams M-1 A-1 americano disparou um projéctil contra o hotel Palestina,
matando mais três jornalistas. Disparos de armas ligeiras, disseram os americanos,
tinham vindo do edifício. Era uma mentira. Não me surpreendeu. Em
Belgrado, em 1998, eu tinha visto os americanos bombardeando a sede da
televisão da Sérvia, um acto que, como escrevi na manhã seguinte, permitia à NATO
atacar alvos pelas palavras que homens e mulheres diziam – em vez de pelos actos
que cometiam. Que precedente estabeleceu isto para o futuro? Devia ter
adivinhado. O que havia então de tão estranho
no desejo de George Bush de bombardear a Al Jazeera em 2004? Que lorde Blair
de Kut al-Amara – o homem que supostamente convenceu o presidente americano a
desistir dessa nova loucura – ameace agora a imprensa britânica com a Lei de
Segredos Oficiais, para que não divulgue todo o ninho de vermes, está de
acordo com a arrogância de poder que hoje associamos com a aliança Bush‑Blair.
Os ministros britânicos repetiam cobardemente as mentiras americanas quando
os aviões dos EUA matavam inocentes em Bagdade, em 2003, e sem dúvida
cobrirão com gosto o desejo contínuo de Bush de bombardear os seus supostos
inimigos, por inocentes que sejam. Quando a Al Jazeera começou a transmitir a todo o mundo árabe, os americanos elogiaram a sua aparição como um símbolo de liberdade entre as ditaduras do Médio Oriente. Tom Friedman, o messiânico colunista do New York Times, louvou‑a como um farol de liberdade – sempre um perigoso precedente, vindo de Friedman –, enquanto funcionários dos EUA assinalaram as transmissões da estação como prova de que os árabes queriam a liberdade de expressão. E havia algo de verdade nisto. Quando a Al Jazeera emitiu uma brilhante série de 16 partes sobre a guerra civil libanesa – um tema escrupulosamente evitado pelas estações de televisão de Beirute – a apinhada orla marítima da Corniche, em frente à minha casa libanesa, ficava deserta. Os árabes queriam ver e ouvir
verdades que lhes tinham sido negadas pelos seus próprios dirigentes. Mas quando a mesma Al Jazeera
começou a transmitir as palavras de Bin Laden, todo o entusiasmo de Friedman
e do Departamento de Estado secou. Em 2003, o subsecretário de Defesa dos EUA
Paul Wolfowitz –esse modelo de democracia que perguntou porque é que os
generais turcos não tinham «algo a dizer» quando o parlamento turco democraticamente
eleito proibiu as tropas estadunidenses de utilizar o seu território para a
invasão do Iraque – afirmava de forma fraudulenta que a Al Jazeera estava a «ameaçar
as vidas dos soldados americanos». O seu chefe, Donald Rumsfeld, contou uma
mentira ainda maior: que a Al Jazeera estava a cooperar com os insurgentes
iraquianos. Passei dias investigando estas alegações. Todas resultaram
falsas. As cassetes de ataques guerrilheiros às forças estadunidenses eram
entregues anonimamente aos escritórios da estação, não filmadas por equipas
da Al Jazeera. Mas os dados estavam lançados. O governo iraquiano recém
eleito demonstrou as suas credenciais democráticas expulsando a Al Jazeera do
país – tal como Saddam tinha ameaçado fazer no início de 2003. Evidentemente, a Al Jazeera não é o menino de oiro do jornalismo. Os seus programas de debate estão com frequência cheios de acérrimos islamitas, a sua fiel apresentação dos extenuantes sermões de Bin Laden é balanceada com entrevistas a líderes ocidentais bastante mais duras do que quaisquer questões colocadas à barbuda liderança da Al Qaeda. Mas é uma voz livre no Médio Oriente – e por isso foi atacada pelos americanos em Cabul e em Bagdade. E quase no Qatar. E assim os jornalistas britânicos devem agora ser reprimidos por lorde Blair de Kut al-Amara se se atreverem a fazer a mais recente revelação da fossa escura e sangrenta na qual Blair e Bush nos enfiaram. |