|
Informação Alternativa |
|
EUA |
|
12/11/2005 “Triunfar” é a palavra da moda hoje nos Estados Unidos. Não vamos “ganhar” no Iraque – porque fizemos isso em 2003, não é verdade, quando entramos a sangue e fogo em Bagdade e derrocamos Saddam Hussein? Depois George Bush declarou “Missão Cumprida”. Por isso, agora, devemos “triunfar”. Isso foi o que F. J. “Bing” West, ex militar e antigo secretário adjunto para assuntos de segurança internacional do governo de Reagan, disse esta semana. Fazendo a promoção do seu novo livro – No True Glory: A Frontline Account of the Battle for Fallujah – fez um assustador esboço do que aguarda os muçulmanos sunitas do Iraque. Eu estava sentado a uns metros de Bing – promovendo o meu próprio livro – quando ele explicava aos grandes e bons de Nova York como o general Casey estava a impor toques de recolher nas cidades sunitas do Iraque, uma após outra, como se os sunitas não aceitam a democracia, seriam «ocupados» (usou essa palavra) por tropas iraquianas até que aceitassem a democracia. Falou do «valor» das tropas dos EUA – não houve nenhuma palavra sobre o monstruoso sofrimento do Iraque – e insistiu que Estados Unidos devem «triunfar» porque uma vitória «jihadista» é impensável. Apliquei a Bing o comentário que o duque de Wellington fez sobre os seus soldados em Waterloo. Disse à audiência que não sabia se atemorizava o inimigo, mas por Deus Bing assustava‑me a mim. A nossa aparição no Conselho de Relações Externas fez parte de uma série intitulada “Iraque: o caminho em frente”. Em frente, perguntei-me? O Iraque é uma catástrofe. Bing pode acreditar que vai “triunfar” sobre os “jihadistas”, mas tudo o que pude dizer é que o projecto americano no Iraque está acabado, que é uma tragédia colossal para os iraquianos que morrem a uma taxa de 1.000 por mês só em Bagdade, que os americanos devem ir-se embora se a paz deve ser restaurada e que quanto mais cedo saírem melhor. Muitos na audiência eram sem dúvida do mesmo parecer. Um cavalheiro idoso demoliu tranquilamente a apresentação de Bing ao descrever o dano massivo causado a Fallujah quando foi “libertada” pela terceira vez pelos americanos em Novembro passado. Eu descrevi com delicadeza às pessoas que os soldados e diplomatas de Bing terão que falar se querem desenredar-se desta embrulhada – incluí ex oficiais iraquianos que foram líderes da parte não suicida da insurgência e sobre quem recairia a tarefa de lidar com os “jihadistas” logo que os rapazes de Bing saiam de lá. Para sair, disse, os americanos precisarão da ajuda do Irão e da Síria, países que a administração Bush está actualmente (e não sem razão) a difamar. O silêncio acolheu esta observação. Era uma estranha semana para estar nos Estados Unidos. Em Washington, Ahmed Chalabi, um dos três vice‑primeiros‑ministros do Iraque, apareceu para mostrar quão limpas estão as suas mãos. Tive que recordar a mim próprio constantemente que Chalabi foi condenado em ausência na Jordânia por fraude bancária massiva. Foi Chalabi quem forneceu à repórter Judith Miller do New York Times toda a informação falsa sobre as armas de destruição em massa de Saddam. Foram os colegas desertores de Chalabi que convenceram a administração Bush de que tais armas existiam. Foi Chalabi quem ainda no ano passado foi acusado de entregar segredos de inteligência dos EUA ao Irão. É Chalabi quem ainda está a ser investigado pelo FBI. Mas Chalabi falou para o American Enterprise Institute de direita em Washington, recusou-se a pedir as mais leves desculpas aos Estados Unidos, e depois prosseguiu com reuniões com a secretária de Estado Condoleezza Rice e com o conselheiro de segurança nacional Stephen Hadley. O vice-presidente Dick Cheney e o secretário da Defesa Donald Rumsfeld também acederam a recebê-lo. Em contraste, a crédula otária conservadora de Chalabi foi sujeita a uma entrevista deveras cruel no The Washington Post depois de se demitir do seu jornal por causa da fuga de informação de Libby no Plamegate. Um “desfile de Judys” apareceu na sua entrevista, escreveu a jornalista do Post Lynne Duke. «Judy indignada. Judy entristecida. Judy encantadora. Judy conspiradora. Judy, a repórter estrela do New York Times que se tornou na acossada vítima dos mexeriqueiros...». Proclamando a sua intenção de não se desculpar por escrever sobre ameaças aos Estados Unidos, Miller fê-lo «enfaticamente, quase com frenesi, os seus olhos de cruzada completamente cheios de lágrimas». Ouch. Só posso reflectir sobre quão estranha se tornou a resposta dos media dos EUA à demência, colapso e anarquia do Iraque. É o velho amigo de Judy, Chalabi, quem devia estar a receber este tratamento, mas não, ele está de volta aos seus velhos truques de enredar e manipular a administração Bush, enquanto a imprensa dos EUA despedaça uma das suas repórteres para se desforrar. Nestes dias, estar em Nova York e Washington é como viver num prisma. A “tortura” desapareceu. Ninguém tortura no Iraque, no Afeganistão ou em Guantánamo. O que os americanos fazem aos seus prisioneiros é “abuso”, e houve um momento maravilhoso na semana passada quando Amy Goodman, que é o sonho de qualquer esquerdista, mostrou imagens do magnífico filme de Pontecorvo A batalha de Argel (1965) no seu programa Democracy Now. O “coronel Mathieu” – o filme é em parte ficção – foi mostrado explicando porque é que a tortura era necessária para salvaguardar vidas francesas. Depois apareceu o verdadeiro porta‑voz de Bush, Scout McClellan, para dizer que conquanto não falaria sobre métodos de interrogatório, o objectivo primordial do governo era salvaguardar vidas estado‑unidenses. Os jornalistas dos EUA agora referem‑se a “leis sobre abusos” em vez de leis sobre tortura. Sim, abuso soa muito melhor, não é verdade? Não há gritos, não há choros quando somos abusados. Não há guinchos de dor. Não há discussão sobre o estado mental das bestas que perpetram esse abuso em nosso nome. E é igualmente bom lembrar que o governo de Lorde Blair de Kut al-Amare decidiu que é correcto utilizar informação obtida mediante esse sadismo. Assim, foi um alívio guiar até aos Arquivos Nacionais dos EUA, em Maryland, para investigar as tentativas dos Estados Unidos de produzir uma democracia árabe depois da Primeira Guerra Mundial, um gigantesco Estado árabe moderno desde a fronteira turca até à costa atlântica de Marrocos. Militares e diplomatas dos EUA tentaram ocasionar isto num breve e brilhante momento da história americana no Médio Oriente. Infelizmente, o presidente Woodrow Wilson morreu; os Estados Unidos tornaram‑se isolacionistas, e os vencedores britânicos e franceses cortaram em pedaços o Médio Oriente para os seus próprios fins e produziram a tragédia com que nos confrontamos hoje. Triunfar, de facto. |