Informação Alternativa

Médio Oriente

11/11/2005

 

O rei tem mais amigos no Ocidente do que em casa

 

Robert Fisk

 

Foi uma mensagem cruenta e sanguinária ao pequeno rei valente Mark II. Ajuda os americanos, treina os seus polícias iraquianos, entretém os seus oficiais das forças especiais e serás um novo alvo da Al Qaeda. Não tão nova, claro. Um empregado da embaixada americana, Laurence Foley, o mais macio dos alvos porque amava o Médio Oriente e vivia em casa em Amã, foi morto há três anos. Mas 56 mortos [1], jordanos na sua maioria, é um golpe devastador para o homem que em tempos vez dirigiu as forças especiais jordanas, supostamente de “elite”, e que é hoje monarca dessa pequena caixa de areia [sandpit] que Winston Churchill criou e chamou “Jordânia”.

 

A quem culpar? A Abu Musab al­‑Zarqawi, pois claro. O mesmo cansativo, estranho, cruel e nebuloso Zarqawi a quem os americanos parecem tão pouco capazes de capturar ou liquidar como a Osama Bin Laden, ao mullah Omar ou, já agora, a Radovan Karadjic e Ratko Mladic, os criminosos de guerra que massacraram os muçulmanos em Srebrenica e noutras cidades da Bósnia.

 

Os bombardeamentos suicidas que mataram 56 inocentes em Amã trazia esse lugar comum amado por todos os jornalistas, “todas as marcas” da Al Qaeda e Zarqawi. Por que continuamos a dar a essas criaturas os atributos da prata?

 

Isto é, se Zarqawi está vivo. Delinquente insignificante originário da cidade jordana de Zarqa, sem dúvida existia em 2003, quando os Estados Unidos e a Grã-Bretanha empreenderam a invasão ilegal do Iraque. Mas muitos no Iraque acreditam que morreu nos primeiros ataques dessa guerra. Em Zarqa, a sua esposa, da qual era muito possessivo, pôs­‑se a trabalhar para sustentar a sua família. Quando a mãe dele faleceu no ano passado, a família não recebeu nenhuma mensagem de condolências de Zarqawi, uma estranha omissão num homem pretensamente consagrado a uma interpretação tão estrita do Islão.

 

Repetidamente, funcionários de inteligência americanos “identificaram” Zarqawi em fitas de vídeo que mostram o assassinato de reféns ocidentais. Mas os assassinos estavam sempre encapuçados com lenços e as suas vozes distorcidas. Como sabiam os americanos que se tratava de Zarqawi? Há muitas perguntas sem resposta quanto ao papel da Al Qaeda no Iraque – e agora na Jordânia – que nós, os jornalistas, de momento preferimos deixar em paz. Porquê a Jordânia? Porquê agora?

 

Bem, em parte porque Abdullah é um servo tão fiel do presidente George Bush. Em parte porque as suas forças estão a treinar soldados iraquianos. Em parte porque está a permitir que as forças especiais dos EUA treinem esses soldados em solo jordano. Em parte porque a Jordânia também se tornou numa base de retaguarda para caça­‑bombardeiros dos EUA, que estão a atacar cidades no Iraque. E em parte porque a Jordânia, com a sua monarquia inconstitucional e os seus bairros pobres de islamitas em crescimento nas suas maiores cidades, é o macio ventre do “Ocidente” no Médio Oriente. Desde a morte do seu pai, os jordanos e outros árabes têm perguntado se o rei pode justificar a sua existência no que em tempos se chamou a Transjordânia.

 

«Para que serve o rei?», perguntaram-me não há muito tempo na Jordânia. Uma pergunta perigosa, e cada acto de violência contra o seu reino torna a questão mais preocupante. O tratado de paz da Jordânia com Israel é tão impopular como sempre no país. O hotel Radisson, um dos alvos dos ataques de quarta-feira à noite, era frequentemente usado por visitantes israelitas à Jordânia.

 

Porque ele é tão popular no Ocidente, porque fala inglês melhor do que árabe, porque é o filho do pequeno rei valente Mark I, o rei Hussein, porque foi graduado da Real Academia Britânica de Sandhurst, o rei Abdullah é uma figura popular na Europa e nos Estados Unidos, bem-vindo em Downing Street e na Casa Branca. Mas, na Jordânia, há quem não lhe deseje tanto bem. Os ataques de quarta-feira à noite foram uma advertência de que o rei talvez se encontre mais seguro em Londres do que em Amã.

 

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[1] Posteriormente, foi noticiado um número superior: 67 mortos (n. IA).