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29/10/2005 Robert Fisk The Independent; traduzido
de Selves and
Others Às vezes pergunto‑me se não entramos numa nova era do que os franceses chamam infantilismo. Admito que escrevo estas palavras durante um turno de conferências em Paris, onde quase todas as declarações políticas – incluídas as de Chirac, Sarkozy, de Villepin e outros – poderiam cair nesta mesma categoria. Mas os tipos a quem me refiro, evidentemente, são George W. Bush, Lorde Blair de Kut al‑Amara e – um recém‑chegado ao Salão Fisk da Infantilidade – o presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irão. Pois, como alguém que tem que olhar para os cadáveres eviscerados da Palestina e de Israel, os corpos de assassinados nos montes de lixo no Iraque, as mulheres jovens com tiros na cabeça na morgue de Bagdade, só posso abanar a cabeça, incrédulo, ante as puras, genuínas e preguiçosas tretas – chamemos pão ao pão – que actualmente emergem dos nossos grandes líderes. Houve um tempo – sim, eu sei sobre o tempora o mores – quando os Grandes e Bons falavam com uma voz de autoridade, embora mentirosa, em vez de medíocre; quando demasiadas mentiras provocavam uma renúncia ministerial ou duas. Mas hoje parecemos viver em dois níveis: o da realidade e o do mito. Comecemos com a realidade do Iraque. É, para citar Winston Churchill sobre a Palestina no final dos 40, um «desastre infernal», uma nação de anarquia desde Mossul até Erbil e Bassorá, onde insurgentes armados controlam as ruas a menos de um quilómetro de distância da “zona verde”, no interior da qual diplomatas norte‑americanos e britânicos e o seu “governo” iraquiano democraticamente eleito têm sonhos optimistas sobre um país cuja população arde com feroz ressentimento contra a ocupação ocidental. Não admira que esteja cada dia mais certo de quero afastar-me do conflito. Mas, para Bush, os Estados Unidos não estão ansiosos por sair do Iraque. Longe disso. Os Estados Unidos estão a combater inimigos que querem estabelecer um «império totalitário», diz ele, um «perigo mortal para toda a humanidade» que os Estados Unidos enfrentarão. Washington está a lutar contra «um inimigo tão brutal como jamais enfrentámos». Repita lá? E quanto à Alemanha nazi de Hitler? A Itália fascista de Mussolini? O cruel e expansionista império japonês que bombardeou Pearl Harbor em 1941? Uma coisa é, certamente, que Bush e Lorde Blair de Kut al‑Amara queiram brincar de Roosevelt e Churchill ou afirmarem que Hussein é Hitler, mas exaltar os nossos asquerosos e ilegais conflitos cheios de torturas como se estes fossem mais importantes do que a Segunda Guerra Mundial – ou que os nossos inimigos de turbante são mais maliciosos do que os assassinos da SS em Auschwitz – é certamente um passo no caminho para o manicómio. «Por qualquer parâmetro da história», declarou o meu presidente norte‑americano favorito, «o Iraque fez progressos incríveis». Perdão? Por qualquer parâmetro da história, os insurgentes iraquianos fizeram incríveis incursões na ocupação militar do Iraque pelos EUA. «Perdemos alguns dos melhores homens e mulheres da nossa nação na luta contra o terrorismo», diz-nos Bush. «... A melhor maneira de honrar o sacrifício dos nossos soldados caídos é completar a missão». Por outras palavras, vamos provar o valor do sacrifício com mais sacrifícios. Realmente, é uma lógica semelhante à de bin Laden na sua simplicidade. Sofremos mártires? Então façamos mais mártires! Depois temos o presidente Ahmadinejad do Irão. Israel, diz‑nos ele numa das suas infinitamente enfadonhas e maçadoras conferências de imprensa sobre o sionismo em Teerão nesta semana, deve ser «apagada do mapa». Sou suficientemente velho para recordar esta estupidez dos velhos compadres cansados de Yasser Arafat em Beirute, no final dos anos 70. O discurso de Ahmadinejad – ante os 4 mil “estudantes” obrigatórios que costumavam ser uma característica habitual da revolução do Irão – estava repleto de todas as velhíssimas reivindicações. «O estabelecimento do regime sionista foi uma manobra do opressor mundial contra o mundo islâmico. As escaramuças [sic] na terra ocupada são parte da guerra do destino». Será que foi este tonto, pergunto‑me, o argumentista do filme Reino dos Céus de Ridley Scott? Certamente que não, pois o épico de Hollywood é homérico e erudito no seu alcance comparado com a prosa estéril de Ahmadinejad. Foi isto, afinal de contas, o tipo de coisas que tive que padecer durante a revolução iraniana original, quando o ayatollah Khomeini instalou a sua teocracia – não, sejamos francos e chamemo‑la necrocracia – no Irão. O governo para e pelos mortos está a tornar‑se uma visão tanto para Bush como para Ahmadinejad. Mas esperem. Não tomamos em conta a visão churchilliana de lorde Blair. «Nunca me deparei com uma situação [sic] do presidente de um país afirmar que quer apagar outro país», disse‑nos na quinta‑feira. Tenham piedade de mim! O que podemos fazer com este homem? Pois Roma tinha muita vontade, não é verdade, de apagar Cartago (delanda est Cartago, Tony)? E depois há o pequeno assunto de Herr Hitler – um papão habitual para lorde Blair quando ele olha através dos ermos do deserto para o Tigre – que insistia que a Polónia devia ser apagada, que transformou a Checoslováquia no protectorado nazi da Boémia e Morávia, que permitiu que os ustachas croatas tentassem destruir a Sérvia, que terminou os seus dias admitindo que o seu próprio estado alemão devia ser apagado porque o seu povo não o merecia. Mas agora escutemos novamente Lorde Blair de Kut al‑Amara. «Se eles [os iranianos] continuam assim, a pergunta que as pessoas irão fazer é esta: quando é que vai fazer algo a respeito disto? Pode imaginar um estado assim, com uma atitude como essa, possuindo uma arma nuclear?» Bem, sim, claro que podemos. A Coreia do Norte. Ups! Mas eles já têm armas nucleares, não têm? Por isso faremos uma pergunta diferente. Quem são exactamente essas “pessoas”, Lorde Blair, que poderiam esperar que você “faça algo”? Poderiam ter algo em comum com o milhão de pessoas que lhe disse para não invadir o Iraque? E, se não, poderíamos obter alguns endereços, identidades, alguma ideia do seu número? Um milhão talvez? Duvido. Haverá algum fim para isto? Não ainda, temo. Na Austrália, há um par de semanas, encontrei muçulmanos em Melbourne e Adelaide que me obsequiaram com histórias de insultos e obscenidades na rua. Novas leis estão prestes a ser introduzidas pelo primeiro‑ministro John Howard para combater o “terror” que não só permitirão a detenção sem julgamento, mas também a ampliação das leis de “sedição” que poderiam ser usadas contra aqueles (sobretudo muçulmanos, claro) que se oponham ao absurdo envolvimento militar da Austrália no Afeganistão e no Iraque. Bem, conte comigo, John. Penso que vive num grande país com gente bestial, mas planeio aparecer novamente em Adelaide, na primavera, para argumentar contra qualquer envolvimento do Ocidente nesses dois países, incluído o seu. Anseio por uma acusação de sedição. E que Lorde Blair “faça algo” contra a Coreia do Norte. Espero que o senhor Bush nunca chegue a descobrir inimigos piores do que a Wehrmacht e as SS. E confio sinceramente que os pequenos sátrapas da necrocracia religiosa que é o Irão cresçam nos anos vindouros. Infelizmente. Como Peter Pan, os nossos líderes querem ser jovens para sempre, infantis para sempre, e para sempre prontos para brincar com as suas formas de areia [sandpits] exangues – à nossa custa. |