Informação Alternativa

Iraque

24/09/2005

 

Quando a natureza e os homens conspiram para expor as mentiras dos poderosos, a verdade virá ao de cima

 

Robert Fisk

 

“A água é sua amiga”, foi o conselho dado regularmente a um verdadeiro bom amigo meu aqui no Médio Oriente. Quem falava era membro da brigada Mil­‑Litros­‑Diários­‑Evitam­‑a­‑Desidratação, embora deva dizer que os árabes têm uma opinião diferente. Após gerações inteiras de calor ardente do deserto, tomam chá de manhã, suportam um dia de forno sem mais líquido, e tomam outro chá muito quente ao anoitecer. Quanto menos se bebe, menos se sua e menos se precisa de beber. Numa terra com poucos oásis, esta é uma arte que vale a pena aprender.

 

O problema é que agora a água não é nossa “amiga”. Chega e destroça Nova Orleães; afoga os idosos de um lar; assalta Galveston e Houston; mata milhões no Bangladesh, dezenas em Andhya Pradesh; inunda o sul com os gelos derretidos do Árctico; arrasa casas do século XIX do centro de Praga, e borbulha para dentro dos pubs ingleses das antigas e transbordantes margens do rio Kent. A água converteu­‑se em nossa inimiga.

 

Há uma ironia bela, delicada e inevitavelmente cruel na forma como a natureza e o homem conspiram para revelar as mentiras dos ricos e poderosos. Tal como as desastrosas políticas ambientais do presidente Bush estão a destruir a costa sul dos Estados Unidos – sim, é o aquecimento global que causa este massacre de inocentes –, os Estados Unidos preparam­‑se para receber, de regresso do Iraque, o seu 2000º soldado morto. Não mostrem cadáveres, por favor, não desonremos os mortos de Nova Orleães tirando-lhes fotos. Nem os mortos norte­‑americanos do Iraque tirando fotografias dos seus caixões a caminho de casa. A morte, como sempre, é o que ocorre às outras pessoas.

 

Mas as fotografias de soldados britânicos envoltos em fogo e arrojando-se do alto dos seus veículos Warrior em Bassorá esta semana, foram as imagens icónicas da nossa exclusiva insensatez britânica no Iraque. Os homens de mão de lorde Blair de Kut al­‑Amara fabricaram outra mentira monstruosa sobre tudo isto, evidentemente. Os polícias iraquianos que protestaram porque os britânicos destruíram a sua prisão – e as multidões que prenderam fogo aos Warrior (e seus ocupantes) – foram só umas quantas centenas de pessoas. Quem somos nós para sugerir que estes representam os milhões de votantes xiitas muçulmanos que foram solenemente às urnas em Janeiro passado? Ho, ho, ho. Sim, e quem éramos nós para sugerir que «algumas centenas» dos «remanescentes» de Saddam, identificados como revoltosos em meados de 2003, representavam uma insurgência sunita? E quem éramos nós, em 1971, para sugerir que algumas centenas de atiradores de pedras em Falls Road e Short Strand, em Belfast, representavam «a vasta maioria dos católicos amantes da paz» na Irlanda do Norte?

 

Há umas semanas especulei sobre quando rebentará a bolha. Com a captura (e massacre) de uma base dos EUA no Iraque pela insurgência? Com a invasão da Zona Verde em Bagdade? Cada dia nos traz uma evidência, estilo Vietname, do nosso colapso. Os norte­‑americanos irrompem em Tal Afar e matam, isso nos dizem, “142 insurgentes”. Entendem? As forças dos EUA conseguem matar 142 dos seus inimigos, nem um só homem, mulher ou criança inocente entre eles!

 

Mas voltemos aos britânicos. Recordam quando nos disseram que a nossa imensa experiência em “manutenção de paz” na Irlanda do Norte nos tinha permitido dar-nos melhor com os iraquianos no sul do que os nossos primos norte­‑americanos mais a norte? Não me lembro realmente que fizéssemos muita “manutenção de paz” em Belfast depois de 1969 – o resto, lembro­‑me, consistia em golpear o IRA – mas, em todo caso, o mito fez­‑se cinza nos uniformes das tropas britânicas em Bassorá.

 

De facto, grande parte da guerra na Irlanda do Norte parecia girar em torno do uso de assassinatos encobertos e operacionais secretos do SAS que matavam homens do IRA em emboscadas. O que levanta a questão (...) sobre o que é que os nossos dois rapazes do SAS estavam a fazer passeando-se por Bassorá disfarçados de árabes, com bigoditos postiços e armas? Porque é que ninguém perguntou? Quantos homens do SAS estão no sul do Iraque? Porque estão lá? Quais são os seus deveres? Que armas portam? Ups! Ninguém perguntou.

 

O que estávamos realmente a fazer para “manter a paz” em Bassorá era fazer vista grossa, como Nelson, ante os abusos, assassinatos e anarquia em Bassorá desde 2003 (incluindo, como se revela, uma boa parte de abusos pelos nossos próprios esquadrões). Quando foram assassinados vendedores cristãos de bebidas alcoólicas, guardámos silêncio. Quando ex membros do Baaz foram mortos nas ruas – incluindo mulheres e suas crianças, uma guerra civil se alguma vez houve uma –, os nossos  oficiais britânicos de algum modo esqueceram­‑se de dizer à imprensa. Tudo para manter os nossos rapazes a salvo.

 

Mas isto é o que se tem passado em Bassorá. Quando a polícia localmente recrutada (paga pelas autoridades de ocupação), incluiu nas suas fileiras a ralé de todas as milícias locais – como ocorreu nas áreas sunitas do norte – ignorá­mo‑lo. Mesmo quando um repórter norte­‑americano que investigava este facto extraordinário foi assassinado – quase certamente por estes mesmos polícias –, os britânicos permaneceram em silêncio. Estávamos “a controlar” as ruas. Em Amara – por horrível coincidência a mesma Kut al­‑Amara com cujo nome, estou seguro, o meu primeiro­‑ministro favorito será em breve enobrecido – os soldados britânicos operam agora só um combóio fortemente armado por dia. Esta é a medida do nosso “controle” sobre Amara. Agora estamos a reduzir as patrulhas em Bassorá. Podem apostar que sim.

 

Um balido familiar está a levantar-se do redil dos borregos. As “potências estrangeiras” estão a interferir no sul do Iraque. Há 35 anos era a República da Irlanda que ajudava os inimigos da Grâ­‑Bretanha do IRA. Agora é o Irão que supostamente está a instigar os xiitas de Bassorá à revolta. Por outras palavras, a culpa não é nossa – de novo, são esses malditos estrangeiros que devemos culpar.

 

Alas, não é assim. Os iraquianos não precisam de armas iranianas ou conhecimentos militares. O seu país está cheio de armas e aprenderam a fazer bombas – aos milhões – durante a guerra Irão­‑Iraque de 1980­‑88. Metade do governo iraquiano tem nexos com o Irão – esqueceram­‑se os britânicos que os seus honoráveis funcionários governamentais do partido Dawa em Bagdade trabalhavam para o mesmo partido Dawa que fez explodir as embaixadas dos EUA e francesa no Kuwait, e tentou matar o emir no final dos anos 80? Que estes mesmos cavalheiros pertencem a um partido que controlava efectivamente os reféns ocidentais em Beirute durante este mesmo período?

 

Não. Tudo isto está esquecido. Culpem o Irão. Mais tarde, sem dúvida, culparemos esses ingratos iraquianos e depois declararemos a vitória e faremos o que o ministro da Defesa, John Reid, alega que nunca faremos: cortar e fugir. E de novo, corremos o risco de esquecer a origem de tais coisas. Face à iminente destruição do seu navio, um capitão cortaria a sua âncora ou as amarras das velas para permitir que o seu navio se afastasse de rochedos ou impedir que fosse engolido pelas ondas. Cortar e fugir era frequentemente uma medida eminentemente razoável. Mas não para John Reid. Não vamos cortar e fugir. Vamos despedaçar­‑nos contra os rochedos.