Informação Alternativa

Iraque

17/08/2005

 

Segredos da morgue: a contagem de corpos em Bagdade

 

Robert Fisk

 

A morgue de Bagdade é um temível lugar de calor, pestilência e luto, com o pranto de familiares ressoando ao longo do fétido e estreito beco por trás do edifício amarelo­‑pálido do centro médico onde as autoridades guardam os seus registros computadorizados. Tantos cadáveres estão a ser trazidos para a morgue que os restos humanos se amontoam uns sobre os outros. Corpos não identificados devem ser sepultados depois de uns dias por falta de espaço – mas a municipalidade está tão esmagada pelo número de assassinatos que já não consegue providenciar os veículos e o pessoal para levar os restos aos cemitérios.

 

Julho foi o mês mais sangrento na história moderna de Bagdade – ao todo, 1.100 corpos foram trazidos para a morgue da cidade, executados na sua maioria, eviscerados, apunhalados, golpeados, torturados até à morte. A cifra é secreta.

 

Não é suposto sabermos que o número de mortes na capital do Iraque no mês passado esteve apenas a 700 do número total de vítimas norte­‑americanas no Iraque desde Abril de 2003. Dos mortos, 963 eram homens – muitos deles com as mãos atadas, os olhos tapados com fita e balas na cabeça – e 137 eram mulheres. As estatísticas são tão vergonhosas como horripilantes. Pois estes são os homens e mulheres que pretensamente viemos “libertar” – e de cujo destino não queremos saber.

 

As cifras deste mês ainda não podem, claro, calcular-se. Mas no domingo passado, a morgue recebeu os corpos de 36 homens e mulheres, todos mortos com violência. Às oito da manhã de segunda-feira, outros nove cadáveres tinham sido recebidos. Pelo meio­‑dia, a cifra tinha chegado aos 25.

 

«Considero este um dia calmo», disse-me um dos funcionários da morgue enquanto nos aproximávamos dos mortos. Assim, em apenas 36 horas – do amanhecer de domingo até ao meio­‑dia de segunda-feira, 62 civis iraquianos tinham sido assassinados. Nenhum funcionário ocidental, nenhum ministro do governo iraquiano, nenhum funcionário civil, nenhum boletim de imprensa das autoridades, nenhum jornal, mencionaram esta terrível estatística. As mortes do Iraque – como o foram desde o princípio da nossa invasão ilegal – foram simplesmente apagadas do argumento. Oficialmente não existem.

 

Logo não foi divulgado o facto de que em Julho de 2003 – três meses depois da invasão – 700 cadáveres foram trazidos para a morgue de Bagdade. Em julho de 2004, isso aumentou para cerca de 800. A morgue registra o número de mortes violentas em Junho deste ano como 879 – 764 delas homens, 115 mulheres. Dos homens, 480 foram assassinados por armas de fogo, juntamente com 25 das mulheres. Em comparação, cifras equivalentes para Julho de 1997, 1998 e 1999 estavam todas abaixo de 200.

 

Entre 10 e 20 por cento dos corpos nunca são identificados – as autoridades médicas tiveram que sepultar mais de 500 desde Janeiro deste ano, não identificados e não reclamados. Em muitos casos, os restos foram despedaçados por explosões – possivelmente por bombistas suicidas – ou por desfiguramento deliberado pelos assassinos.

 

Os funcionários da morgue têm ficado horrorizados com o grau de sadismo apresentado pelas vítimas. «Temos muitos que foram obviamente torturados – sobretudo homens», disse um deles. «Têm terríveis queimaduras nas mãos, pés e outras partes do corpo. Muitos trazem as mãos presas atrás das costas com algemas e os seus olhos foram vendados com fita. Depois foram alvejados na cabeça – na nuca, no rosto, nos olhos. Isto são execuções».

 

Porquanto o regime de Saddam praticava a morte por execução oficial dos seus opositores, a escala de anarquia que agora existe em Bagdade, Mosul, Bassorá e outras cidades não tem precedentes. «As cifras de Julho são as mais altas jamais registradas na história do Instituto Médico de Bagdade», afirmou um alto membro da administração ao The Independent.

 

Fica claro que há esquadrões da morte vagueando pelas ruas de uma cidade que é suposto estar sob o controle do exército dos EUA e do governo eleito de Ibrahim al­‑Jaafari, apoiado pelos norte­‑americanos. Nunca na história recente uma tal anarquia foi desencadeada sobre os civis desta cidade – contudo, as autoridades ocidentais e iraquianas não mostram interesse em revelar os detalhes. A redacção de uma nova constituição – ou o fracasso em completá-la – ocupa agora o tempo dos diplomatas e jornalistas ocidentais. Os mortos, pelo visto, não contam.

 

Mas deveriam. A maioria tem entre 15 e 44 anos – a juventude do Iraque – e, se extrapolados para o resto do país, os 1.100 mortos de Bagdade no mês passado devem equivaler a um número mínimo mensal de mortes no Iraque de 3.000 – talvez 4.000 – só em Julho. Durante um ano, isto deve atingir um mínimo de 36.000, uma cifra que coloca a supostamente controversa cifra de 100.000 mortos desde a invasão numa perspectiva muito mais realista.

 

Não há forma de distinguir as razões destas milhares de mortes violentas. Alguns homens e mulheres foram alvejados em postos de controle dos EUA, outros foram assassinados, sem dúvida, por insurgentes ou ladrões. Alguns listados como mortos por “instrumento contundente” podem ter morrido por acidentes de trânsito. Algumas das mulheres provavelmente foram vítimas de assassinatos de “honra” – porque familiares masculinos suspeitavam que mantinham relações ilícitas com o homem errado. Outros ainda podem ter sido assassinados como “colaboradores”. Foi dito aos médicos que os corpos trazidos para a morgue por forças dos EUA não deveriam receber exames post­‑mortem (sob o argumento esquisito de que os norte­‑americanos já teriam levado a cabo esta formalidade).

 

Estão a morrer tantos civis que a morgue teve que recorrer a voluntários da cidade santa de Najaf para transportar xiitas muçulmanos não identificados para o grande cemitério central da cidade, cujas fossas são doadas por instituições religiosas. «Em alguns dos corpos, encontramos balas norte­‑americanas», disse­­‑me um assistente da morgue. «Mas poderiam ser balas norte­‑americanas disparadas por iraquianos. Não sabemos quem está a matar quem – não é nosso trabalho averiguá-lo, mas os civis estão a matar­‑se uns aos outros.

 

Tivemos um corpo noutro dia e os parentes disseram que tinha sido assassinado porque tinha sido baazista no antigo regime. Depois disseram que o seu irmão tinha sido assassinado três ou quatro semanas antes porque era membro do partido religioso Shia Dawa, que era inimigo de Saddam. Mas esta é a história real – os assassinatos de pessoas. Não quero morrer sob uma nova constituição. Quero segurança».

 

Um dos problemas em efectuar o registo da cifra diária de mortes é que a rádio oficial frequentemente se recusa a relatar explosões. Na segunda-feira, o tronar de uma bomba no bairro de Karada nunca foi explicado oficialmente. Só ontem se descobriu que um bombista suicida tinha entrado num café popular, o Emir, e se fez rebentar, matando dois polícias. Outra explosão, oficialmente causada por um morteiro, resultou ser uma mina despoletada debaixo de uma pilha de melancias enquanto uma patrulha dos EUA passava. Um civil morreu.

 

Novamente, não houve contagem oficial destas mortes. Não foram registradas pelo governo, nem pelos exércitos ocupantes nem, evidentemente, pela imprensa ocidental. Tal como os corpos na morgue da cidade de Bagdade, não existem.

 

(...)