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Iraque |
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13/08/2005 quando as crianças
iraquianas morrem desta maneira? Ali estão as ruínas provocadas por um carro‑bomba que matou sete norte‑americanos na esquina de uma rua vizinha. Perto encontra‑se o negócio fechado de um fornecedor de telefones, que punha fotografias de Saddam montando um burro nos seus telemóveis. Foi morto a tiro há três dias, juntamente com outros dois homens que cometeram o mesmo pecado. No bairro de al‑Jamia, um Humvee dos EUA ronronava pela rua acima, pelo que nos retiramos apressadamente e metemos por uma rua lateral. Nesta parte de Bagdade, evita‑se tanto os insurgentes como os norte‑americanos – se se tiver sorte. Yassin al-Sammerai não a teve. No dia 14 de Julho, o menino de segundo grau tinha ido passar a noite com dois colegas de escola e – sendo esta uma cidade sem electricidade no mês mais quente do ano – decidiram passar a noite dormindo no jardim da frente da casa. Deixem que o seu destroçado pai, Selim, de 65 anos, continue a história, pois ainda não pode crer que o seu filho esteja morto – ou no que os norte‑americanos lhe disseram posteriormente. «Eram três e meia da manhã e eles estavam todos a dormir, Yassin e os seus amigos Fahed e Walid Khaled. Havia uma patrulha americana lá fora e de repente um blindado Bradley irrompeu pelo portão e pelo muro e passou por cima de Yassin. Você sabe quão pesadas são essas coisas. Morreu instantaneamente. Mas os americanos não sabiam o que tinham feito. Esteve esmagado debaixo do veículo durante 17 minutos. Um Khaled, a mãe do seu amigo, gritava-lhes em árabe: “Há um menino debaixo deste veículo!”» Segundo Selim al‑Sammerai, a primeira reacção dos norte‑americanos foi algemar os outros dois meninos. Mas um intérprete de árabe libanês que trabalhava para os norte‑americanos chegou para explicar que era tudo um engano. «Não temos nada contra si», disse. Os norte-americanos apresentaram um papel laminado, em inglês e árabe, intitulado “Cartão de reclamações iraquianas” que lhes diz como reclamar compensação. A unidade cujo Bradley passou por cima de Yassin está designada como «256 BCT A/156 AR, Morteiros». Sob “Tipo de incidente”, um norte‑americano tinha escrito: «Rusga destruiu entrada e portas». Ninguém disse à família que tinha havido uma “rusga”. E em nenhum lugar – em nenhum lugar mesmo – do formulário se sugere que a “rusga” destruiu a vida do amante de futebol Yassin al‑Sammerai. Ontem, dentro de casa do pai de Yassin, Selim estremece com ira e depois chora molemente, limpando os seus olhos. «Está de certeza no céu», replica um dos seus sete filhos sobreviventes. E o velho olha‑me e diz: «Também gostava de nadar». Antigo administrador técnico do colégio de artes da Universidade de Bagdade, Selim é agora apenas uma sombra. Está meio dobrado no seu assento, com o rosto pálido e as bochechas afundadas. Este é um lar sunita numa zona sunita. Para os norte-americanas esta é “terra insurgente”, e por isso irrompem nestas ruas à noite. Há vários dias, um informante forneceu a localização de um grupo guerrilheiro sunita e as tropas dos EUA rodearam a casa. Seguiu‑se um tiroteio de duas horas até que um helicóptero Apache surgiu apontando do escuro e largou uma bomba sobre o edifício, matando todos lá dentro. Há muitos murmúrios à volta da sala sobre os norte-americanos e o Ocidente e eu aproveito rapidamente para lhes dizer o quão agradecido estou por terem permitido que um ocidental entre em sua casa depois do que se passou. Selim volta‑se e aperta‑me a mão. «Você é bem-vindo aqui», diz. «Por favor, diga às pessoas o que nos aconteceu». Lá fora, o meu motorista observa a rua; é a história de sempre. Qualquer carro com três homens lá dentro ou um homem com telemóvel significa “vá‑se embora”. É sexta-feira. «Estes tipos tiram a sexta‑feira de folga», diz o motorista, tentando tranquilizar-me. «Os americanos vieram com um oficial dois dias depois», continua Selim al‑Sammerai. «Ofereceram‑nos uma compensação. Recusei. Perdi o meu filho, disse ao oficial. “Não quero o dinheiro – não penso que o dinheiro traga o meu filho de volta”. Foi isso que disse ao americano». Há um longo silêncio na sala. Mas Selim, que ainda chora, insiste em falar de novo. «Disse ao oficial americano: “vocês mataram inocentes e essas coisas levarão o povo a destruí-los e o povo vai fazer uma revolução contra vós. Vocês disseram que vinham libertar-nos do anterior regime. Mas estão a destruir os nossos muros e portas”.» De repente dou‑me conta que Selim al‑Sammerai se endireitou na cadeira e a sua voz levanta‑se com força. «Sabe o que me disse o americano? Disse: “É o destino”. Olhei para ele e disse: “Sou muito fiel ao destino de Deus – mas não ao destino de que você fala”.» Então, um dos irmãos de Yassin diz que tirou uma fotografia do menino morto quando ele jazia no solo, uma fotografia tirada com o seu telemóvel, e que a tinha imprimido e quando os norte-americanos regressaram no segundo dia, pediram para vê‑la. «Perguntaram‑me por que tinha tirado a fotografia e eu disse‑lhes que era para que as pessoas pudessem ver o que os americanos tinham feito ao meu irmão. Perguntaram se podiam levá‑la emprestada e trazê‑la de volta. Dei‑lha, mas não a trouxeram de volta. Mas ainda mantenho a imagem no meu telemóvel e pude imprimir outra». E de repente encontra‑se nas minhas mãos, uma obscena e terrível fotografia da cabeça achatada de Yassin, como se um elefante a tivesse pisado, com sangue brotando do que tinha sido a parte posterior do seu cérebro. «Por isso, você vê», explica o irmão, «as pessoas ainda podem ver o que os americanos fizeram». Sob o calor, saímos ontem de al‑Jamia, o lugar dos insurgentes e norte-americanos e luto e vingança. «Quando o carro‑bomba explodiu ali», disse o meu motorista, «os Humvees dos EUA continuaram a arder durante três horas e os corpos ainda lá estavam. Os americanos levaram três horas a chegar a eles. Toda a gente se juntou à volta e observou». Olhei para o carro carbonizado que ainda estava na rua e dei‑me conta de que se tornou agora num pequeno ícone de resistência. Como, pergunto-me de novo, podem os norte‑americanos alguma vez vencer? |